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O clube do Tupperware

07/03/2006

Era assim que o meu irmãozinho que anda lá fora a lutar pela vida chamava às reuniões em casa da P.

Éramos adolescentes e éramos mais que muitas. Aos fins-de-semana juntávamo-nos às dúzias em casa da P porque os pais dela não estavam lá, porque ela era filha única e porque mesmo quando a mãe dela estava em casa era a única que nos aturava. Na maior parte das vezes estávamos entregues a nós mesmas. Uma festa!

Era um forrobodó. Falávamos de tudo e mais alguma coisa, das aulas, dos professores, mal, claro, falávamos umas das outras e principalmente de gajos. Riamos que nos fartávamos. Faziam(os) bolos, rapávamos a forma e as colheres de pau, na maior parte das vezes não esperávamos que o bolo cozesse, tinha muito mais piada comer a massa, bebíamos copos, fumávamos que nem uns cavalos, víamos filmes uns atrás dos outros, devorávamos as VHS do Herman – que o pai da P religiosamente gravou e mantém em VHS até hoje – vezes sem fim, riamos mais ainda e jogávamos ao verdade e consequência, que eu simplesmente odiava. Sempre fui dada à privacidade, embora ninguém desconfie, e aquela história de termos de nos desbroncar sobre tudo e mais alguma coisa incomodava-me um bocadinho. Pela parte que me toca, e sempre que jogava, o que era raro, havia muito mais consequências do que verdades. Enfim, vivíamos a adolescência como sabíamos e podíamos. Felizes e contentes. Adormecíamos cada uma pra seu canto, até ao dia seguinte, em que, com luz do dia, voltávamos para casa de autocarro, sem medo dos ladrões, ou não, ou ficávamos a bezerrar mais um dia na santa casa da misericórdia em que a M, a dona do albergue, era seguramente a mártir. Quando não era eu, que nunca fiz nenhum, e acabava por ter sempre de untar a forma ou limpar uma merda de um ovo que aquelas cabras insistiam em partir de propósito só para me obrigarem a trabalhar.

A coisa durou uns anos valentes. Mais esporadicamente quando entrámos todas para a universidade, muito menos quando cada uma arranjou o seu próprio poiso.

Hoje cada uma tem a sua vidinha, com filhos ou não, com gajo ou não, com trabalhos de que gostam mais, menos ou nem por isso.

Hoje em dia já não há reuniões do clube do tupperware. Nem somos aos montes. Conseguimos mantermo-nos 5, do mais fiel que há. Volta e meia aparecem mais duas, mas essas não faziam parte do clube do tupperware original, do do liceu. O melhor liceu de Lisboa, temos de reconhecer… Na maior parte das vezes que nos juntamos todos, somos mesmo todos. Homens, mulheres, crianças, cães e gatos.

Hoje em dia o máximo que conseguimos é fazer umas laides naites, aka: uns jantares de mulheres, fora ou numa das casas disponíveis, o que é sempre muito melhor. A convivência continua a ser do mais saudável que pode haver. Embezanamo-nos que nem umas doidas, fartamo-nos de dizer disparates, falamos pelos cotovelos mas vamo-nos atropelando cada vez menos. Não jogamos ao verdade ou consequência porque praticamente já não temos necessidade de provar nada a ninguém e por isso mesmo perdemos a vontade de esconder coisas umas das outras. Estamos naquela fase em que já nem precisamos de falar. Os sorrisos ou as olheiras já nos denunciam. Conhecemo-nos há tempo demais, opinamos muito mais sobre as vidas umas das outras do que propriamente sobre nossas, às vezes dá-nos pra chorar, na maior parte das vezes continua a dar-nos pra rir. Muito. Contamos histórias recentes, revivemos histórias antigas e ainda nos rimos com elas. Com algumas delas, só nos rimos, mesmo… Não vemos filmes porque nos apetece mais falar até à exaustão. Gostamos sempre muito destas reuniões cada vez menos frequentes. Nem sempre é possível expulsar os homens. Nem sempre eles estão para isso. Nem sempre temos tempo ou disponibilidade mental.

Vai-me aos nervos que cada vez que fazemos um jantar de mulheres – assim à razão de uma vez de 6 em 6 meses, dizemos sempre que temos de fazer isto mais vezes e tal e coiso, pelo menos uma vez por mês, até combinamos que cada uma cozinha à vez, cada casa de sua vez – e depois fica tudo por isso mesmo. Não sei se é por que avisei logo que quando fosse a minha vez comíamos pizza… Não sei. Sei que sinto falta de nos juntarmos mais vezes. E que gosto de jantares em geral, de jantares de mulheres em particular, porque sabe muit’a bem dizer os disparates que nos apetecer, aos gritos, durante horas, e adoro jantares de gajas, laides naites, com as minhas gajas. ADORO!

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  • rita 08/03/2006 at 13:13

    Ai o clube do tupperware… q “sódades”… : D
    Gosto muito de me lembrar como nos divertíamos mas gosto muito mais de constatar que, apesar das diferenças entre nós e dos respectivos percursos, continuamos amigas, sem pudores e a divertirmo-nos MUUUIIIITO juntas.
    Olha q, pelo q tenho visto, isto ao fim de 15 anos é um verdadeiro feito! Mas é como a cara amiga costuma dizer, não é p quem

  • Anonymous 08/03/2006 at 14:12

    Minhas queridas manas!

    Temos que pensar só nas coisas boas da vida, e esta é uma delas!
    Podemos andar às “turras” mas o amor está sempre entre nós.
    Quem disse que a Robertona é filha única? Tem 4 irmãs lindas!

    Odete a sopeira

    PS: Parece piroso mas é do coração

  • ISA 08/03/2006 at 14:31

    Beeeeeeeeemmmmmmm quanta honra maria odete… e n te preocupes com o ser ou n piroso, é verdadeiro e de coração e isso basta!

    e olha, mta sorte tem a robertona, que a família n se escolhe e a ela calharam-lhe 4 belas manas na rifa. giras, inteligentes e amigonas! essa é que é essa!

    mai nada amiga rita, mai nada!

    bjs pra vcs as duas e para as outras duas porcas que não

  • bonifaceo 09/03/2006 at 14:59

    Muito bem, assim é que é. Gostei do que li.
    Também tenho assim um grupinho (de rapazes) com jantares todos os meses, mas não era da escola, conhecemo-nos no tempo em que andávamos num grupo de jovens. Mas já me fartei um pouco deste grupo (a tal disponibilidade mental de que falas), e felizmente o grupo do liceu ressurgiu a meio gás.
    Beijinhos.

  • ISA 09/03/2006 at 15:45

    desde que se queira, Boni, e desde que nos sintamos bem uns com os outros, pq temos histórias em comum ou pelo que calhar, estes jantares são do melhor e do mais saudável que há. nos meus acabamo-nos de tanto rir, juro! a amiga Rita tá aí que n me deixa mentir!
    Bjs

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