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Snob*

25/02/2006

Ontem pedia um ambiente acolhedor. A mim particularmente não me apetecia ir para lado nenhum onde tivesse de gritar para me fazer ouvir, por que toda a gente fala alto, os empregados gritam os pedidos e está uma barulheira permanente e horrível de talheres e pratos a bater. Este é mais um barulho que não aguento. De uma forma pouco normal, deixa-me irritada até à exaustão e só me apetece desatinar e desatar também aos gritos para acabarem com aquela barulheira toda.

Passamos no Príncipe Real, e se fossemos ao Snob? Olha, não conheço, ‘bora lá.

Já conhecia. Tinha lá estado apenas uma vez a beber copos ao balcão. Lembrava-me que tem mais ar de bar do que de restaurante. Que as duas salas são pequenas, as mesas são baixas e as cadeiras e sofás são confortáveis, de forma a que se possa aí permanecer umas boas horas. Tudo menos pretencioso, nada, nada elitista, tinha ideia de que o espaço era o preferido dos jornalistas, de algumas figuras conhecidas e do comum mortal. Por que o ambiente não afasta ninguém independentemente de quem lá esteja dentro. É tranquilo, fala-se baixo, do melhor.

No Snob a porta está fechada porque é suposto tocarmos à campainha e alguém no-la vir abrir. O tratamento é do mais personalizado que pode haver. O senhor abre-nos a porta, dizemos que queremos jantar, levam-nos até uma das mesinhas, na última das duas salas que compõem o espaço, e trazem-nos a lista.

O senhor que nos atende enverga o uniforme da praxe. Calças pretas e camisa branca, com gravata. É do mais simpático que há, sem ser excessivo. Atencioso como não vejo em mais lado nenhum, sem ser melga.

No Snob comem-se bifes. Por opção deixei de comer carne vermelha há uns largos meses mas já não consegui sair dali. O ambiente continua tranquilo, a musiquinha está baixa, o aspecto é do mais acolhedor que há. Tudo de madeira, sofás confortáveis e um silêncio delicioso. Está frio lá fora, chove copiosamente e eu fico já aqui e é um bife se faz favor. Com tudo a que temos direito. O bife era gigante. O senhor ameaça-nos que se não comermos tudo vamos ter de lavar a loiça. É carne vermelha, pesadíssima para o meu organismo que já se desabituou a comer alarvemente ainda pra mais à noite. Como tudo até ao fim, não por ter medo que me mandem para a cozinha mas porque estava delicioso. O molho, as batatas – cortadas, e não congeladas, e fritas como deve ser, sem serem praticamente cozidas nem totalmente esturricadas – e o próprio bife, que quase de derretia na boca. Até o café, que sem ser expresso, sabia maravilhosamente.

Lisboa encanta-me por isto. Por ainda conservar lugares como este, com empregados como este, com uma cozinheira de mão cheia. Por haver sítios onde somos bem atendidos, com simpatia e atenção natural, sem que para isso tenhamos de pagar uma fortuna. Onde nos sentimos bem. Sem medo de nos mexermos não vá partirmos um copo. Sem pressões nem pressas.

Ficamos horas à mesa depois de jantar. A beber Bohémias sem que ninguém nos chateie, nos olhe de lado e nos faça sentir que já estamos ali há tempo demais. Somos tratados do princípio ao fim com uma simpatia e um cuidado que só vendo.

No Snob há gente a jantar sozinha. É o local para isso. O empregado já conhece os clientes habituais, trata-os por Sr. Dr., pergunta-lhes pela saúde e pelo Benfica.

Não me faz confusão nenhuma que as pessoas jantem sozinhas. Certamente não é porque queiram mas sim por força das circunstâncias. Há muita gente que simplesmente não janta nem almoça sozinha, seguramente por entender que isso dá pena. Eu não tenho pena porque não encaro como solidão. O que me dá verdadeiramente pena são as pessoas que se embebedam sozinhas. Que acabam a refeição e mandam abaixo meia garrafa de whiskey. Que pedem vinho e o bebem até ao fim, independentemente da refeição já ter acabado e de não terem companhia que justifique ficarem mais tempo à mesa. Fazem-me pena por que esses sim, não só estão sozinhos como me parece que foram deixados ao abandono, sendo que o senhor velhote que os serve acaba por ser a sua única companhia. A única fonte de calor que terão naquela noite.

Ficamos tempo demais. Já aparecem os primeiros bebedores de copos depois do jantar. O ambiente continua tranquilo até aparecer um grupo de pessoas para jantar que depreendemos serem de um conjunto ou grupo ou orquestra ou o que fosse que tivesse a ver com música. Riem-se alto demais, falam de um canto da mesa para o outro e pior, há um com necessidade extrema de protagonismo. Grita mais do que os outros, fala por cima dos outros todos de forma a que toda a sala o possa ouvir. Diz as maiores barbaridades alto e bom som, manda bujardas umas atrás das outras.

Não aguento gente que tem de ser o centro das atenções a todo o custo. Incomoda-me e irrita-me de uma maneira que me deixa nervosa. Vamos embora! E fomos…
*Na rua do século, do lado esquerdo de quem desce.

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  • Dia 25/02/2006 at 23:00

    O Snob tem um blogue: http://oblogdosnob.blogspot.com/
    E eu gostei muito do texto e cheia de vontade de ir comer um bifinhooooo
    beijos, linda

  • ISA 26/02/2006 at 13:46

    Obrigada Dia.

    aquele molho… ai aquele molho!!!

    bjs

  • maria 27/02/2006 at 01:28

    a última vezque lá estive foi na noite do concerto dos U2…eram quase 3:30 da manhã quando terminei um prego no pão. O dia de calor, o concerto, uma noite de copos sem igual (estava a meio das férias e por isso de muitas noites de copos) antes do concerto…acho que o meu cansaço só era comparável ao dos empregados que nunca serviram tantos bifes:)
    Mas pelas férias e pelos U2…as

  • ISA 27/02/2006 at 09:53

    Mas n gostaste? ou tavas tão cansada que nem te lembras? bjs

  • maria 27/02/2006 at 11:28

    Gostei, mas não foi o melhor dia para ir lá, porque nem eles tinham muito tempo para ti, tal era o número de pessoas que lá estavam:)

  • bonifaceo 27/02/2006 at 15:17

    Parece ser um sítio impecável. Também odeio bares com a música demasiado alta, leva-me a quase não falar porque para mim simplesmente não dá… nem oiço bem os outros e nem consigo falar muito tempo alto, começa-me a dar catarro… enfim.
    Beijo.

  • ISA 28/02/2006 at 04:38

    é fixe Boni. mas o que me encanta mais mesmo é o tipo de tratamento. e aquela musiquinha caia que nem ginjas. às vezes gosto de música alta. oiço milhares de vezes a música aos berros mas é pra poder cantar à vontade sem me ouvir muito… bjs

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