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(27 Jan.)

08/02/2006

De: A Estrada dos camiões
Para: Lisboa
A NH17 é uma estrada com direito a separador central ocasional, que nos leva de Goa a Palolem. Passamos ao largo do Margão, de onde o Alexandre nos havia safado de uma seca monstruosa aquando da nossa chegada ao Sul. Jantamos num boteco de beira de estrada onde comemos que nem alarves e pagamos uma ninharia.

O cozinheiro era um artista. Adoramos. Temos pena de não ter podido ficar a beber uma buja com um goês que falava português.

Seguimos no jeep encarnado, o verdadeiro enxerto de porrada, que nos leva 3 horas para fazer 50 quilómetros, por amor de Deus… Sem costas e de cabelos ao vento, lá vamos nós NH17 fora até à Maria Guest House que nos espera em Palolem.

Os chamuças são loucos. Aquela estrada é um pesadelo, com curvas e contra-curvas – que entretanto o separador central já era e aquela merda, a NH17, virou um caminho que se assemelhava mais a um acesso que outra coisa, e já vi acessos melhores, – o próprio do filme de terror, com os camiões a 20km/h a pastar à nossa frente. E outros parados na berma, metade de fora, metade de dentro da estrada. Que nem divisórias tinha com os anormais dos monhés a trocar pneus nas curvas mais apertadas. Triângulo é coisa pra ficar dentro dos camiões, em cima do tablier. Troncos, à frente e atrás dos brutos camiões, servem para sinalizar a paragem do monstro numa estrada que não tem um candeeiro sequer. Há também a variante pedras, autênticos calhaus, em vez dos troncos. Criativos, os locals… Os animais conduzem de máximos permanentemente ligados. A viagem foi feita em silêncio, com umas buzinadelas ocasionais. O André, imbuído do espírito monhé, adoptou por completo de Indian way of driving. Lindo de se ver.

De norte a sul, os camiões são verdadeiros espectáculos de luzinhas e cores. Cheios de Shivas e Ganeshes e a porra toda, por todo o lado. Altares nos tabliers é mato. Do mais kitch que pode haver. Mais decorados, até, do que as casas dos próprios donos, estou em crer, a avaliar pela pobreza da indumentária do macho monhé. Os monhés enfeitam tudo, até as cabras, que se passeiam por todo o lado de fitas de Natal na cabeça e nos cornos. De Norte a Sul, tudo o que é estabelecimento comercial nos deseja bom Natal e feliz ano novo. Até hoje. Só luzinhas a piscar por todo o lado. Estes gajos são de uma infantilidade que chega a ser comovente. De cada vez que me lembro deles na praia, por amor de Deus… Diz-me que eles se comportam como se tivessem 15 anos e agem com o mar como se tivessem 6?…

Chegamos finalmente à guest house da Maria.

Para quem viveu três meses numa casa com telhado à vista e duas lagartixas na parede da sala, mosquiteiro é coisa pra meninos. Partilho o quarto do segundo andar com a amiga-Rita-valente-que-reage e que inclusivamente agarrou numa centopeia com as próprias mãos, em vez de lhe dar com um chinelo, que era o que eu faria, e só me falou nisso depois de atirar a dita pela janela.

O Nantzy, o miúdo nepalês que trabalha no bar da guest house, é a coisa mais querida.

Não hei-de morrer sem ir ao Nepal. E ao Tibete. E descobrir Karnataka e Kerala. Talvez começasse por Calcutá. E desse um salto até às montanhas em busca da espiritualidade perdida. Encerraria no sul a minha Indian experience of a lifetime.

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  • Nando 08/02/2006 at 03:06

    Isa!
    Foi tudo muito lindo, tudo muito bom, mas preciso de algum tempo para me preparar melhor para as “nossas” próximas viagens. Isto porque (talvez não tenhas percebido!) eu não tenho mais idade (e nem saúde!) para certos improvisos. Valeu, linda!
    PS – Ainda a aguardar as novas tiras a a edição completa com fotos maravilhosas como a do post abaixo.

  • bonifaceo 08/02/2006 at 03:47

    Bem vinda isa!
    Arrepiei-me a ler que a tua amiga pegou numa centopeia… que nojo, e só de escrever o nome voltei-me a arrepiar… isso é bicho venenoso…
    Beijos.

  • Mipo 08/02/2006 at 10:02

    ah pois… a gente acaba uma viagem e só quer é continuar a viajar! Bem vinda!

  • ISA 08/02/2006 at 12:30

    sim, Nando, conto acabar os relatos desta autêntica experiência de vida. Beijos e obrigada por seres tão querido!

    Boni: a amiga Rita segurou a centopeia com um guardanapo que a moça é esperta e sabe que o bicho é venenoso. Beijos

    Confesso Mipo, que preciso de descanço apesar do meu espírito inquieto. A Indian experience sugou-me a energia toda. Tenho de digerir um monte de

  • maria 08/02/2006 at 12:54

    Olá Isa, benvinda a este mundinho e sobretudo a este friozinho:)…
    Acho o máximo que a guest house se chamasse Maria IOL
    Beijos

  • ISA 08/02/2006 at 13:32

    Em Goa em particulae e no Sul em geral há n referências a Portugal e aos portugueses. Nomes portugueses de hoteis e guest houses são mato. beijos e obrigada. O frio esta-me a matar…

  • Martha Nader 08/02/2006 at 13:59

    uma centopeiazinha de nada??? o povo daí é mal acostumado… ;-)debaixo do deck do meu jardim mora um lagarto, de 1 metro de comprimento. Vem dar bom dia todas as manhãs. Sei que parece conversa de mentiroso, mas é verdade! Fora as aranhas, piolhos-de-cobra, lagartixas, besouros, e coisa e tal. O Gonça vai se acostumando ;-)
    Isabel, mil beijos, e muitas saudades – as suas sobrinhas estão tão

  • ISA 08/02/2006 at 15:20

    quero vê-las!!!

    sim, no Brasil há mta bicharada, é verdade. eu confesso que odeio insectos. pronto, metem-me nojo. excepção feita às aranhas que até me dão arrepios. mas gosto dos serelepes que invadem o vosso jardim. até tirei uma foto a um nos imensos jardins do Taj Mahal de tanto revivalismo, tantas saudades… Beijos mil a todos.

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