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TU PARA UM LADO, EU PARA O OUTRO.

20/10/2005

A família, essa instituição em decadência, supostamente uma união de sangue, de almas, de vidas e convivências. Uma comunhão que acaba por ser apenas a comunhão do espaço.

Já não nos cumprimentamos ao fim do dia, ocupados com as crianças por cuidar e o jantar para fazer. Cruzamo-nos nos nossos míseros metros quadrados e já nem nos olhamos. As crianças distraem-nos, servem-nos como desculpa para não nos enfrentarmos. Tu para um lado, eu para o outro. Tu com gosto a mais pelo que fazes, dentro e fora do trabalho, com hobbies que te preenchem os dias, eu com as crianças, dentro e fora do trabalho, que me ocupam o pensamento vinte e quatro horas por dia.

Cansada, estás sempre cansada. E tu, sempre apático. Sim, a TV que me embrutece o espírito, as novelas que me distraem, que me ajudam a adormecer para descansar de um dia igual aos outros. E tu? Que me deixas aqui, sozinha, e andas por aí, com as tuas distracções, sejam elas quais forem? Vivemos assim, os dois, a fingir que ignoramos que estamos cada um para seu lado. Aparentemente e só aparentemente, vivemos assim, sem pensarmos, sem questionarmos, sem assumirmos as quase certezas de que isto já não é nada. NADA. Custa-nos admitir, porque é sempre mais fácil culparmos o outro, que não fizemos nada por nós. Não é por ti nem por mim, mas por nós.

Antes não era assim. Tínhamos tudo a ver um com o outro. Não sei explicar porquê, não sei dizer quando. Sei que adormeci e quando acordei vivia ao lado de um estranho. Um estranho que conheço por dentro e por fora. O amor da minha vida que de repente não encontro. Dias e dias, meses e anos, como é que não nos demos conta. Como é que não nos apercebemos e de repente acordamos, na mesma cama e tu estás virado para o sol e eu para a lua?

E assim continuamos, a arrastarmo-nos pela vida, cada um para seu lado, sem nos querermos dar conta de que acabou. Seja lá o que for, acabou. Não. Não. Porque eu gosto de ti e tu de mim. Não pode acabar assim. Mais um esforço, mais uma conversa igual a tantas outras que já tivemos Mais uma tentativa: sim, eu vou melhorar. Sim, eu vou tentar. Dia seguinte, mesmo filme, mesmas paranóias, mesmas desculpas.

Agora é tarde. E optámos assim. Será que optámos mesmo ou que nos deixámos ir. Que nos vimos soltarmo-nos um do outro para nunca mais nos podermos voltar a unir, de corpo e alma e não fizemos nada. Que assistimos de ânimo leve ao pior dos pesadelos e não fizemos o mínimo esforço para acordar. Que preferimos viver o pesadelo. Porque poderíamos sempre ter optado. Temos SEMPRE poder de escolha. Escolhemos viver assim. Tu para um lado, eu para o outro.

Agora sabemos que deveríamos ter posto um fim a isto há mais tempo. Evitávamos dissabores, evitávamos gritaria, poupávamo-nos aos insultos. Evitávamos que agora não nos pudéssemos ver um ao outro. Temos dois filhos. Somos os pais deles. Deixemo-nos de merdas e assumamos de uma vez que não estamos juntos por eles. Que já não sabemos bem se gostamos um do outro se nos habituámos de tal maneira um ao outro que já não distinguimos o que é o quê. Tu dizes-me o que dizes, não posso gostar de alguém que me diz o que me dizes. Não estou para isto. Vamos tentar viver. Andamos pelos 30, temos uma vida inteira pela frente. As crianças aguentam. Aguentam muito melhor uma separação do que este ambiente de merda que lhes criámos. Do que os gritos falados baixo. Do que as lágrimas de uma mãe, do que a indiferença dos dois.

Façamos alguma coisa por nós, enquanto é tempo.

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  • Bock 20/10/2005 at 15:01

    Bom, perante um post desta natureza, assim a modos que a dar para o pesadote, estava a ver se não o inaugurava, porque convém dizer alguma coisa de jeito :)Mas enfim, já que ninguém se atravessa, adiante e cá vai disto: Nesta vida já vi de tudo, e com base nisso percebe-se que em situações como a que descreves no teu post, e que são muitíssimo frequentes, umas mais graves que outras, nunca é

  • Bock 20/10/2005 at 15:02

    Bom… ‘já vi de tudo’ é mentira.

    Ainda não vi muita coisa. E ainda bem.

  • ISA 20/10/2005 at 15:20

    Concordo com praticamente tudo o que dizes. Só acho que nos deveos deixar de desculpas esfarrapadas e assumir e enfrentar as coisas. a vida mudou para toda a gente. o ritmo é acelerado para toda a gente. há os casais que se aguentam à bronca e os que n se aguentam. há os casais para os quais o casamento é uma festa e os que acham que o casamento é para o resto da vida e fazem por isso.

  • bonifaceo 21/10/2005 at 02:02

    Só não concordo numa coisa bock, a 100%, que são os referidos valores morais cristãos, isso da monogamia e do “não divórcio porque quando se casa é para toda a vida” só está mesmo presente em algumas mentes mais antiquadas, penso eu.
    Mas de resto, tens razão, as pessoas devido ao trabalho ou o aparecimento dos filhos ficam por vezes saturadas e as coisas deixam de ser o que eram, infelizmente

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