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À DISTÂNCIA

29/09/2005

A decisão fora-lhes difícil. Semanas que pareceram meses e meses a fio de considerações positivistas para tornar a coisa menos dolorosa. Felizmente não havia filhos à espera ao fim-de-semana. A ser, seria agora. Um salário generoso, carro gasolina e telemóvel pagos, o empréstimo da casa a pesar nos orçamentos de ambos, e o braço da balança pendeu para o prato da razão, sempre tão prática e materialista, em detrimento do das emoções. Foi a custo que se despediram pela primeira vez. Até para a semana, meu amor. Não te esqueças de ligar quando chegares.

O Amor sobrevive à distância. O Amor sobrevive à distância. Era a frase com que se bombardeava como que para se desculpar de não ter abdicado do contrato permanente na editora onde trabalhava. Não que o trabalho fosse o ideal, antes pelo contrário. As capacidades intelectuais que entendia que tinha e os 4 anos de universidade pediam mais estímulo mas já se sabe, isto está difícil e temos mesmo é de entrar seja lá para onde for e aguentar até à promoção e ao aumento que consideramos digno tendo em conta o nosso desempenho e as nossas capacidades. As coisas andam devagar. Um ano e meio e nada.

5 anos de convivência são tudo. O Amor sobrevive à distância. A coisa é segura e quem vive 5 anos vive uma vida. O e-mail, o msn e o telemóvel ajudam a encurtar os 200km que os separam. Seis meses. Há 6 meses que vivemos separados e nunca houve surpresas. Os encontros são à hora marcada, de sexta a Domingo, com a vida a correr lá fora e o tempo que passa lentamente, sendo cada segundo vivido e sentido ao mais ínfimo pormenor.

Ao princípio sofre-se por antecipação. Os fins-de-semana são curtos para matar tanta saudade. Depois a rotina instala-se e a casa vazia já não assusta nem deprime. Afinal, é o nosso espaço que nunca nos é estranho, por mais que lhe mudemos os sofás e os móveis.

As semanas passam, os meses seguem-se-lhes e uma vida comum transforma-se rapidamente em duas vidas separadas. O dia-a-dia que não se vive, a falta de paciência para os relatos de dias sempre iguais, afinal temos mais e melhor para fazer com o escasso tempo que nos resta, os programas que deixam de ser conjuntos, a falta de momentos partilhados, tudo o que não se vive, o que não se sabe, o que se duvida deixa-se para outra hora qualquer que não as 48 do fim-de-semana. Essas servem para matar saudades.

A rotina instala-se porque não tem quem lhe dê luta. Sim, é hoje. Vou-te fazer uma surpresa. Almoço rápido e A1 fora, há muito caminho por percorrer.

A porta não está trancada, que bom que é viver no campo. O silêncio incomoda, apesar de natural.

Porta do quarto encostada. Barulho. Não, não pode ser. Com a razão a sobrepor-se mais uma vez ao coração, assim sem dó nem piedade, espeta-lhe a seta da certeza. Os barulhos ninguém lhos tira mas a memória atraiçoa-nos nas alturas piores e por isso há que evitar a todo o custo voltar a usar a desculpa: eu não posso jurar porque não vi.

Roupa interior feminina no chão. É quanto baste.

Então o Amor à distância é isto… Lembra-se de pensar enquanto as lágrimas lhe escorriam silenciosa e copiosamente pela cara abaixo.

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  • Martha Nader 29/09/2005 at 17:13

    Ainda bem que no meu caso eu tinha de avisar quando pegava o avião ;-)

  • bonifaceo 29/09/2005 at 18:49

    Parece tirado dum livro, pelo forma como está escrito, principalmente pelos últimos parágrafos. Não há nada como a traíção, acho que é um misto de ódio, pela pessoa que a fez, e tristeza por ter acontecido…

  • ISA 30/09/2005 at 00:19

    obrigada bonifaceo. mas acho que poderia estar melhor. e é o que tentarei ir fazendo.

    sim, é isso que é péssimo. e o desespero subsequente.

    bjs e thanx anyway.

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