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9 fases de desenvolvimento do ego propostas por Loevinger*

22/04/2013
A primeira fase é a fase pré-social e simbólica. É a fase típica em que o ego se encontra durante a infância. Um bebé tem um ego-id que é muito focado em satisfazer necessidades imediatas. Tende a estar muito ligado a quem cuida dele, frequentemente a mãe, e, ao mesmo tempo que a distingue entre todas as outras pessoas, tende a experienciar uma confusão cognitiva e uma fusão emocional entre quem cuida dele e o ele. O entendimento desta fase é mais especulativo do que das outras, porque como os bebés não falam, não podemos usar o que dizem, apenas podemos basear-nos em observações.

A segunda fase é a fase impulsiva. Ao mesmo tempo que esta é a fase característica das crianças que começam a andar, as pessoas podem ficar nesta fase por muito mais tempo e, de facto, uma minoria permanece nesta fase a vida toda. Nesta fase, o ego continua focado nas sensações corporais, impulsos básicos e necessidades imediatas. Não sendo bons em satisfazer estas necessidades por conta própria, são dependentes e exigentes. Estão demasiado imersos no momento e nas suas próprias necessidades para pensarem ou se preocuparem com os outros; ao invés, experienciam o mundo em termos egocêntricos, como as coisas me afetam. Se alguma coisa ou alguém vai ao encontro das minhas necessidades, é bom, se alguém ou alguma coisa frustra as minhas necessidades, é mau. Assim, o seu pensamento é muito simplista e dicotómico.

A terceira fase é a de auto-proteção. Ao mesmo tempo que esta fase é especialmente comum no início e no meio da infância, alguns indivíduos permanecem nesta fase a vida toda. O ego auto-protegido é mais cognitivamente sofisticado do que o ego impulsivo, mas ainda usa a consciência da causa-efeito, das regras e consequências, para conseguir o que quer dos outros. Assim, tende a ser explorador, manipulador, hedonista e oportunista. O objetivo é simplesmente “conseguir o que quero sem ser apanhado”. Presumindo que os outros são como eles, são cautelosos quanto ao que os outros querem. É auto-protegido no sentido em que põe a culpa no externo, culpando os outros quando algo corre mal. Indivíduos que permanecem nesta fase durante a adolescência e a fase adulta, tendem, a não ser que sejam muito espertos, a meter-se em trabalhos. Pesquisas feitas através de testes Loevinger mostram que uma elevada percentagem de delinquentes juvenis e presidiários estão nesta fase de auto-proteção. 
A quarta fase é a fase conformista. Tendemos a ver esta fase emergir por volta dos 5, 6 anos, e é a fase mais comum durante a escola primária e o ciclo. No entanto, várias pessoas permanecem nesta fase durante a vida. Os conformistas investem muito em pertencer e em obter aprovação de grupos de referência importantes, nomeadamente dos seus pares. Tendem a ver-se e a avaliar-se e aos outros pelo externo, como nos vestimos, que música ouvimos, que calão adotamos, os papéis que as pessoas assumem para mostrar em que grupo se encontram e que estatuto têm dentro do grupo. Vêem-se, e aos outros, de acordo com estereótipos: generalizações amplas sobre como são os membros de outros grupos. Ao mesmo tempo que estes indivíduos parecem superficiais ou falsos, eles não se vêem assim porque a identidade do grupo é a sua própria identidade. De uma forma mais geral, tendem a ver o mundo de forma simples, convencional, certinha e moralista. O que é certo e errado é claro para eles, nomeadamente: o que o grupo acha certo e errado é o que eles acham também. Os seus sentimentos tendem a ser simples e regulados por regras, no sentido em que há situações em que nos sentimos felizes e noutras em que nos sentimos tristes. Ao mesmo tempo que Loevinger tenta evitar descrever as fases como sendo melhores ou piores que outras, usa termos de alguma forma pejorativos como “banal” e “clichê” para descrever a forma conformista de entender sensações. Ambas as sensações de felicidade e vergonha tendem a chegar ao topo nesta fase. Vergonha porque estão tão preocupados com a aprovação do grupo que a ameaça da vergonha é uma ferramenta poderosa que os grupos usam para controlar o indivíduo nesta fase. Por outro lado, desde que o seu lugar no grupo não esteja ameaçado, os egos conformistas são de certa forma felizes, mais do que os egos das fases seguintes, em que a distinção entre o que é certo e errado nunca mais será tão clara e simples.

A quinta fase é a fase auto-consciente, a mais comum entre adultos. O ego auto-consciente mostra uma consciência maior, mas ainda limitada, quanto a questões mais profundas e às suas vivências internas, bem como às dos outros. O questionamento: o que penso, em oposição ao que os meus pais e os meus pares pensam sobre questões como: Deus e religião, moralidade, mortalidade, amor e relacionamento. Estão num ponto em que não chegaram a grandes resoluções quanto a estas questões, mas estão a pensar nelas. Também são mais conscientes de que eles e os outros têm sentimentos e motivos únicos, diferentes dos que podem ser prescritos  em filmes, livros e noutras pessoas. Reconhecem que só porque se é parte de um grupo, não significa que tenhamos sempre de sentir ou pensar da mesma forma que outros membros do grupo e isso é igualmente verdadeiro em relação a outras pessoas e grupos. Resumindo, apreciam-se a si mesmos e aos outros como únicos. A consciência crescente dos sentimentos e motivos únicos de cada um cria tensões entre o meu eu real e o que esperam de mim, que pode levar a conflitos maiores entre família e pares. Por último, esta habilidade de nos perguntarmos se a nossa família ou os nossos pares estão certos sobre o que é certo e errado, de nos questionarmos se temos estado certos sobre o que é certo e errado pode levar a uma auto-crítica maior.

Na sexta fase, a fase da consciência, esta tendência para a auto-avaliação e a auto-crítica continua. O ego consciente valoriza responsabilidade, realização e prossecussão de ideiais elevados e de objetivos a longo prazo. A moralidade é baseada em princípios avaliados de forma pessoal e o comportamento é conduzido por padrões de auto-avaliação. Consequentemente, violar os próprios padrões induz à culpa, o que difere da fase conformista, em que a tendência é sentir vergonha. A vergonha advém de não correspondermos às expetativas dos outros, a culpa advém de não correspondermos às nossas próprias expetativas. Um maior auto-reflexo leva a uma complexidade conceptual maior, experienciar o eu e o mundo de forma mais complexa; E isto inclui experienciar os próprios sentimentos e motivos de forma mais precisa e diferenciada e expressá-los em termos mais únicos e pessoais. Por fim, com uma consciência crescente em relação à profundidade e unicidade dos sentimentos e motivos dos outros vem a preocupação crescente em relação à comunhão e empatia nos relacionamentos.

As fases anteriores, conformista, auto-consciente e consciente, são as mais comuns e há muito poucas pessoas nas fases que vamos descrever abaixo. Além disso, Loevinger sugere que todos temos dificuldades em entender as fases que estão um degrau acima da fase em que estamos. Daí que para muitos de nós que estamos nas fases do meio será difícil entender na totalidade as fases acima.

Na sétima fase, a fase individualista, o foco nos relacionamentos aumenta e apesar de ainda se valorizar a realização, tendemos a valorizar mais e mais os relacionamentos. O ego individualista revela a tolerância por detrás de uma mente aberta e o respeito pela autonomia do eu e dos outros. Mas um desejo de dar autonomia ao outro para ser quem ele é pode entrar em conflito com necessidades de vínculo e de intimidade. O elevado sentido de individualidade e de auto-entendimento pode levar a formas únicas e vivas de expressão do eu, bem como a uma consciência maior quanto a conflitos internos e paradoxos pessoais. Mas esta é uma consciência incipiente quanto a desejos, pensamentos e sentimentos em conflito, para aproximação e distanciamento, para realização e aceitação, e por aí fora, mas é pouco provável que haja qualquer resolução ou integração destes conflitos internos.

Na oitava fase, a fase da autonomia, há um respeito maior pela própria autonomia e pela dos outros. O ego autónomo acalenta a individualidade e a unicidade e a auto-atualização; os caminhs únicos e inesperados são fonte de alegria. E estes caminhos independentes não são mais vistos em oposição à dependência em relação ao outro; os relacionamentos são apreciados como sistema inter-dependente de apoio mútuo; por outras palavras, é preciso uma aldeia inteira para sustentar e manter um ego autónomo. Há também uma tolerância maior em relação à ambiguidade. Em especial, conflitos internos e conflitos entre pessoas são valorizados enquanto expressões inevitáveis da natureza fluída e multi-facetada das pessoas e da vida em geral e aceites como tal, encaramo-los e lidamos com eles de uma forma mais fácil. Por fim, a consciência elevada e perspicaz do nosso espaço interno é clara quando expressamos sentimentos de forma viva.

Na fase final, a fase de integração, o ego mostra sabedoria, empatia ampliada em relação a si mesmo e aos outros, e uma capacidade que vai além da consciência dos seus conflitos internos, como na fase individualista, ou da tolerância em relação aos conflitos internos, como no ego autónomo, a de reconciliar vários conflitos internos e ficar em paz com as questões que ficarão por resolver e com as experiências que ficarão por concretizar. O ego integrado tem finalmente a sensação de identidade, do que é e nesta fase procura entender e atualizar o seu próprio potencial e alcançar a integração de todos os aspetos multi-facetados de si mesmo, que se tornaram mais e mais vivos, à medida que atravessámos as três fases anteriores. Segundo as pesquisas de Loevinger, apenas menos de 1% dos americanos atinge esta fase.
*Via (tradução minha)

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