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Por amor aos bens materiais,

05/07/2005

Por amor aos bens materiais, por uma esperança de voltar a viver, por pena, porque nunca se sabe o dia de amanhã, porque pode sempre dar jeito, porque sim, porque temos espaço, agarramo-nos a tudo e mais alguma coisa e guardamos eternamente lixo que não nos faz falta nenhuma.

Aquela roupa que não vestimos há 5 verões mas não vá o diabo tecê-las, deixa cá guardá-la. Os sapatos que calçamos de 3 em 3 anos mas que são assim e assado e são os únicos que temos, o melhor é arrumá-los num canto bem escondido para nos esquecermos completamente que os temos e quando precisamos de uns do género compramos e pronto. Os não sei quantos livros que nos oferecem, que lemos e nem sequer nos lembramos já da história mas que mantemos a ganhar pó nas estantes mal sabemos porquê. Ou então que nem chegamos a abrir porque quem nos ofereceu conhece-nos tão bem como conhece o arrumador do bairro e portanto só não vão directamente para o lixo porque não se deitam livros fora. O isqueiro que trouxe não sei de onde; a caixa que me deu já não faço ideia quem; os postais de pessoas que nunca mais vi, tenho de puxar pela memória para saber de onde raio conheço esta mulher, este, aquele e mais aquela, que nem sequer sei se estão vivos; os bilhetinhos que trocava nas aulas e que nunca mais voltei a ler; a recordação daquelas férias espectaculares e inesquecíveis não sei onde, nem com quem e muito menos porque raio é que guardei isto tanto tempo; a quantidade de merdas que guardamos porque afinal foi um presente e não se deitam presentes fora ainda que não nos sirvam para rigorosamente nada e acabamos com divisões e mais divisões que não nos chegava o palácio de Buckingham para guardar tanto lixo.

A psicologia ou a astrologia devem ter uma explicação para os ataques de desprendimento que me dão de vez em quando, de largar tudo e limpar espaços de coisas que não servem para nada a não ser para dar trabalho e apanhar pó. Não quero nem saber de explicações. Nem tenho mais pena da tia não sei quê que me deu este livro ou da caixa de barro que me deu não sei quem. E muito menos da fase não sei que mais em que comprei uns livros que nem sei como os consegui ler até ao fim. Os que li… Não sei nada. Sei que me faz cá um bem do caraças que parece que desfazendo-me do que não me aquece nem me arrefece, antes me aborrece, me liberto de amarras, de recordações e de passados dos quais já nem me lembrava. E olho para a frente.

Se há uma boa quantidade de livros dos quais não me consigo desfazer embora me custe a crer que os volte a ler, outros há que dou de bom grado até porque não tenho espaço para eles e nem sequer servem para mostrar aos amigos quão culta sou.

Os isqueiros estão todos no lixo, a roupa que não visto pelo menos há três anos está num saco para dar, as pequenas trivialidades que abundavam nas prateleiras estão devidamente encaixotadas para mandar ainda estou para saber para onde.

Porque olhar para trás só vale a pena quando estivermos a morrer e não há objecto que nos valha, quando os anos passam e a memória escolhe lembrar-se apenas do que é de facto relevante. Para o bem e para o mal.

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  • CA 05/07/2005 at 12:18

    Também sofro deste mal…guardo, guardo, guardo, depois tenho acessos de limpeza e desprendimento e deito quase tudo fora.

    Li uma vez “Só o que não esqueci vale a pena ser lembrado”…e é mesmo isso.

    Beijo.

  • Apenas, o cidadão 05/07/2005 at 15:13

    Excelente. subscrevo.

  • ISA 05/07/2005 at 16:55

    É isso, CA. ‘Brigada cidadão!

  • nuno 09/07/2005 at 16:19

    a mim também me custa fazer arrumações e deitar tudo fora, mesmo que as coisas não sirvam para nada! beijos e continuação de um bom fim de semana

  • ISA 10/07/2005 at 22:01

    Custa enquanto temos alguma espécie de ligação com as coisas. Quando deixamos de ter, e a falta de espaço é muita, começamos a pouco e pouco a desfazermo-nos delas. Porque afinal são apenas coisas, não é?

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