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Farmacêuticos

24/05/2005

Eu, com o poder que me foi conferido de defensora dos fracos e deprimidos, directamente averbado pela minha cunhada e homologado pelo meu irmão varão, venho agora em defesa dos farmacêuticos.

Na revista da especialidade, diz-se que os preços dos medicamentos aumentam assim que a sua venda for alargada a outras superfícies que não as farmácias. Diz-se também que não são as farmácias que determinam os preços dos medicamentos. Em interesse próprio, é natural que se digam coisas destas e outra ainda piores.

Não me parece economicamente lógico que os preços aumentem, abrindo-se o mercado à concorrência. Não sei até que ponto será verdade que não são as farmácias que determinam os preços dos medicamentos, sendo que já vi o mesmo produto, em farmácias diferentes, a preços diferentes. Curiosamente, quanto mais longe do centro de Lisboa, mais caro. Incluirá o preço dos transportes? Não faço ideia. Quanto mais pequeno é o espaço, mais caro. Terá a ver com a quantidade que se compra? Ignoro. Seja como for, não condeno nem sequer critico. O ganha-pão das pessoas que trabalham numa farmácia é a venda de medicamentos e todos nós, até mesmo os farmacêuticos, precisam de um ordenado ao fim do mês, que lhes sai verdadeiramente do pêlo, como nunca supus.

Eu que pensava que só na minha farmácia havia um tratamento especial? Que por as preferir, entre as 6 farmácias que tenho disponíveis num raio de meia dúzia de metros, só a mim é que as minhas amigas farmacêuticas, já são umas três…, me davam amostras dos cremes que compro, me faziam arredondamentos dia sim, dia sim. Me presenteavam com os brindes que os laboratórios oferecem, mesmo que não compre os 10 produtos necessários para obter a oferta. Me aconselhavam, e aconselham que eu, como a grande maioria das pessoas, sou só não vou à minha farmácia de eleição se não puder, sobre o que quer que lhes pergunte.

Não há como viver experiências para poder falar com alguma propriedade. Não há como conhecer outras realidades para conseguirmos ver para além do nosso umbigo. Pelo que tenho podido constatar no fabuloso mundo da medicina e dos remédios, os farmacêuticos são os que menos lucram nesta história toda. É conhecido o escândalo dos médicos em relação à preferência de medicamentos do laboratório-embora-aí-ao-Brasil-que-aqui-tá-um-frio-do-cacete-e-o-verão-não-há-meio-de-chegar. Ou da empresa-toma-lá-umas-coisas-porreiras-para-ti-e-para-a-tua-mulher. É famoso o despotismo-não-autorizo-a-prescrição-de-genéricos-e-quero-que-tu-e-a-tua-reforma-miserável-se-lixem. A falta de paciência dos médicos para os doentes, as filas intermináveis nos centros de saúde, o tratamento VIP 5 estrelas nos mesmos centros de saúde e demais hospitais por esse Portugal fora, que só falta é baterem nas pessoas, as horas e horas de espera por uma consulta. A escandaleira que é os produtos naturais não serem comparticipados. As consultas dos homeopatas, dos naturalistas, dos macrobióticos custarem uma fortuna e quem quiser que pague porque subsídios nem vê-los. [Mas somos muita porreiros porque até mandamos os remédios para os hipermercados.]

Na era Minipreço, Dia, ou qualquer outro supermercado-do-povo, mais-barato-não-há, Pingos Doces ou Continentes, Jumbos ou a mercearia da esquina, nas esquinas onde ainda as houver, as pessoas continuam a comprar as coisas mais corriqueiras nas farmácias, desde: preservativos, pastas e escovas de dentes, frascos de álcool, tampões, pensos rápidos e lentos etc, etc, etc. Mas por meia dúzia de horas a mais, faz-se um chinfrim do tamanho do mundo para ter um punhado de aspirinas e outros tantos benurons à venda nos hipermercados.

A verdade é esta: os farmacêuticos têm muitas vezes a paciência que nem as próprias famílias dos doentes, quanto mais os médicos, têm. Justiça lhes seja feita, os farmacêuticos fazem todos os dias, a qualquer hora o papel de médicos, enfermeiros, confidentes, amigos, professores, conselheiros para tudo e mais alguma coisa. Estão ali disponíveis para recomendar o remédio tal, porque aquele que o senhor doutor prescreveu foi retirado do mercado. Estão ali para ouvir as maleitas, as dores e as queixas de quem muitas vezes não sabe ler nem sequer assinar a receita, que agora é obrigatório, e que conta com a boa vontade do farmacêutico da vila, que já lhe conhece a história de vida. Estão inclusive dispostos a deixar facturas e mais facturas penduradas, esperando o tempo que for preciso, sem pressas, sem exigências, sem cobranças, até que venha a reforma, para que os pensionistas possam saldar as suas dívidas com as notas de euro ainda quentes nas mãos.

Os farmacêuticos fazem o papel que mais ninguém quer fazer. Não me parecem ser os monstros hediondos que nos querem fazer crer.

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  • Teresa 24/05/2005 at 09:42

    Pronto!
    Quando toca a farmácias, tenho sempre que dizer qualquer coisinha. :)
    Neste caso, só uma mesmo.

    Os preços dos medicamentos não variam entre Farmácias. Esses preços são fixados pela Indústria Farmacêutica e alguns até já vêm impressos na cartonagem.
    O que pode variar são os preços de tudo o que não é medicamento, mas que também é vendido na Farmácia.

    Com tudo

  • CA 24/05/2005 at 10:42

    Os preços dos medicamentos e correspondentes % de comparticipação são fixados pelo INFARMED.

  • Martha Nader 24/05/2005 at 11:50

    Pelo visto, não só dos fracos e deprimidos, mas também dos frascos e comprimidos.

    Bjs

  • Frederico 24/05/2005 at 18:43

    Apetecia-me responder-te à letra mas fico calado.
    A indústria farmaceutica é o segundo maior lobby nacional e é responsavel por boa parte do défice.
    Apenas porque funcionam em oligopólio e impondo a todos nós exagerados custos com fármacos.
    Para além disso deveriam, como todos os outros sectores, funcionar em livre concorrência. Qualquer farmaceutico poderia abrir uma farmácia onde

  • ISA 24/05/2005 at 21:58

    Começando pelo fim e só para ser do contra, n percebi essa dos advogados. Ninguém te impõe coisíssima nenhuma. Vai a medicinas alternativas se não estás para pagar remédios químicos a preços elevados. Uma farmácia n é um supermercado. Acho bem que n se abra em qq lado como acho que n se devem abrir vagas para medicina à toa. n relaciono, nem percebo a relação, do défice com as farmácias mas tu

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