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REMORSOS

28/04/2005

Quem fala do que não sabe, normalmente faz figuras bem tristes. E quem critica atitudes sobre assuntos ou pessoas que não conhece, faz figuras ainda piores.

A professora de espanhol da minha amiga Susana comentou com os alunos que nós, os portugueses, estamos sempre a falar de dinheiro. Materialistas, pensou mas não disse.

A hermana iria ficar com esta opinião dos portugueses se apenas estivesse cá ficado por um fim-de-semana. Como ficou por mais tempo teve oportunidade de contactar mais de perto com os portugas. Teve a possibilidade de ver por ela própria como é a realidade em Portugal. No dia em que teve de alugar uma casa, fazer compras e pagar serviços constatou que os portugueses só falam de dinheiro não porque só pensem no dito mas porque ele não lhes chega. Porque alugar uma casa em Lisboa é o escândalo dos escândalos, porque os preços são completamente proibitivos quando comparados com Madrid, não vamos mais longe, onde, para ajudar, os salários são mais altos. Porque as contas brotam na caixa do correio qual cogumelos, porque ao ritmo que a gasolina aumenta vou ali e já venho, porque os preços aumentam todos os santos anos e os salários também não, porque para quem tem crianças então é preciso ser-se mágico para conseguir vesti-los, dar-lhes de comer e pô-los na escola e porque, para o português médio, chegar-se ao fim do mês com dinheiro é motivo para fazer uma festa.

Euzinha aqui falo muitas vezes do que não sei. E critico mais ainda. Parece-me que é atributo dos portugas em geral, de qualquer forma não há desculpas e nem sequer me estou aqui a tentar escusar.

Se o excesso de materialismo já me vai aos nervos, o culto da imagem, do mostrar-se o que não se é, e principalmente a pose irritam-me tanto que não me contenho. Dou por mim muitas vezes a criticar os parolos que não têm onde cair mortos mas têm um telemóvel último modelo ou uns ténis Nike, que custam para mais de 30 contos, €150. A criticar os bimbos que ostentam o óculo Prada e a t-shirt DKNY originais. As peruas de cachuchos nos dedos, de pingarelhos nas orelhas e de água oxigenada em excesso no cabelo. De sapato a reluzir e mala a condizer.

E que direito tenho eu? E porque é que hei-de achar que o dinheiro serve para enriquecer a mente, viajando por esse mundo fora. Para comprar livros e mais livros. E uma roupita ou outra, de quando em vez? Porque é que não há-de servir para comprar o téni da moda se me dá uma alegria tremenda? Porque é que não hei-de ter um telemóvel que tira fotografias se me mato a trabalhar, mal tenho dinheiro para fazer o que gosto, e ao menos graças a este telefone implanto um sorrisinho de satisfação durante uns meses? Ando de peito feito com um orgulho do caraças no meu téne novo?

Porque é que não hei-de gastar 40 contos nuns chinelos Prada se posso fazê-lo? Ainda para mais quando levei uma vida inteira de contenção para chegar onde cheguei? O que consegui foi à custa do meu trabalho, desde puto, por não ter tido a felicidade de nascer em berço de cultura ou civilização. Porque é que não hei-de mostrar ao mundo que consegui. Que tive sucesso? Se há tanta gente por aí a mostrar tanta coisa, salvo seja? A mostrar que sabe então é o que mais há. Ao menos eu mostro e tenho, já a cultura exige um esforçozinho maior para se chegar à conclusão se se tem ou não.

O nosso mal é esse mesmo. Opinar demais sobre os outros e olhar de menos para nós próprios. É achar que a nossa moral é que vale. Que tudo o resto é pouco digno, é o que é.

[E amanhã já estarei a criticar o labrego que está com o rádio do Tigra aos berros e a capota aberta, faça calor ou frio. Porque é assim mesmo, não temos emenda. Nem ilusões…]

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  • Teresa 28/04/2005 at 17:04

    Essa é que é essa!! :)

  • Tyler D 28/04/2005 at 17:22

    Escrevendo textos comfundo moral sua escrita fica ainda mais fantástica. Não esqueça de seu livro! :)

  • ISA 28/04/2005 at 19:27

    Tô corando já… Mas para moral não tenho muita moral… Cê sabe né, sou apenas humana… Beijo e mais uma vez valeu mesmo!

  • Tyler D 29/04/2005 at 01:22

    Que é isso IsaBELA, você merece. Um beijão.

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