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O CULTO INTENSIVO DA RASQUIDÃO

22/04/2005

Que o ser humano é abjecto, capaz do pior para com desconhecidos, colegas de trabalho ameaçadores [muitas vezes apenas e só nas nossas cabecinhas], comparsas de ginásio, das aulas de inglês, do curso de sushi ou do cacete; que as pessoas conseguem ser verdadeiros monstros para a família, namorados, amantes, maridos e afins, filhos e enteados e até mesmo para os amigos, não é novidade. Temos crises de cegueira momentâneas, move-nos a inveja, a mesquinhez, a insegurança… Somos assim, com muitas fraquezas, benza-nos Deus.

A vida é assim mesmo e nós somos piores ainda mas que remédio temos senão viver com isso, lutando para sermos cada vez menos maus. Naturalmente esta não é uma condição da qual nos deveríamos orgulhar. Pelo contrário, deveríamos envergonhar-nos. Escondê-las o mais possível, de preferência de nós mesmos, que assim poderia ser que, por um milagre qualquer, tamanhas falhas não fossem visíveis ao mundo e desaparecessem da condição humana como que por magia. Como se bastasse a nossa vontade para fazer com que se erradicassem para sempre do universo.

Mas, não sei com base em que lógica, não só não escondemos estas nossas maleitas como nos orgulhamos delas, expondo-as na praça pública através de, por exemplo, um canal de televisão sempre disponível para deixar que nos enxovalhemos a troco de meia dúzia de tostões. A nós e a quantos membros da família quisermos.

Em vez de procurarmos a excelência tratamos de preservar, cultivar e fazer brotar em cada um de nós o culto intensivo da rasquidão.

As revistas ditas do coração dão uma enorme ajuda neste culto, expondo detalhes mais ou menos sórdidos, pormenor sem qualquer importância: verdadeiros ou não, sobre a vida dos famosos, tantas vezes com a ajuda dos mesmos. Mas na verdade, não me lembro de melhor veículo do que a TV. Desde os Reality Shows, com conhecidos ou desconhecidos, aos programas que se dizem de humor, passando pelo Herman Sic, há um mundo de lixo televisivo por onde escolher. Se acaso isto não for suficiente, for demais para si ou passar a horas tardias, pode sempre ver o telejornal que, ao melhor estilo: os fins justificam os meios [quaisquer que sejam], põe sempre ao dispor um jornalista ou dois encarregue de chafurdar na vida das pessoas até onde as próprias quiserem e deixarem. E o pior é que deixam, até à exaustão. Não é à toa que os programas mais vistos são os que são.

Enfim, é este o país que temos. O país do Camilo de Oliveira, dos Malucos do Riso, do Levanta-te e ri e dos sem número de reality shows que ainda abundam na TV portuguesa, cuja receita não há meio de entrar em declínio para que possa ser finalmente exterminada das nossas vidas já de si deprimentes qb.

Enquanto isso não acontece, e porque todo este lixo televisivo tem honras de horário nobre, haja olhos e ouvidos suficientemente atentos para que os nossos filhos não cresçam alimentados pelo culto cada vez mais intensivo da rasquidão.

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