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FREUD EXPLICA

03/04/2005

Oiço os pés a arrastar, observo os movimentos lentos da multidão. Ordeira, quase silenciosa, que caminha sem olhar para o lado. Que se arrasta [pela vida] sem dar por isso. Oiço os lamentos, as lamúrias, os queixumes.

Deixo-me ir. Dou por mim a arrastar os pés, a multidão quase me leva ao mesmo tempo que o meu sorriso se vai desvanecendo.

As minhas feições são agora de pânico. Tento voltar para trás, correr. Ir contra a corrente. A multidão não me deixa. Impassível à minha vontade, forma, sem se dar conta, uma corrente intransponível. Procuro um espaço, uma falha, não encontro.

Volto-me para a frente e sou novamente conduzida pela multidão. Quanto mais vou andando mais convencida estou que não é aquela a minha direcção. Os pés arrastam levemente.

Pânico!

“Não, não. Deixem-me. Não é isto. O meu lugar não é este. O meu caminho não é este. A minha vida não é esta.”

A multidão continua, lentamente, indiferentemente, a mover-se. Com passos pequenos. Os pés parecem presos com correntes, uns nos outros. De modo a permitir passos pequenos. Sem correria. Eu não tenho correntes mas estou no meio da multidão.

As paredes de pedra, feitas de pequenos tijolos, começam a sufocar-me. Reparo agora que o túnel é mais estreito do que me parecia. O tecto, pintado com tinta de areia, é baixo. Não há uma falha nos pequenos tijolos. Todos encaixam uns nos outros.

A multidão continua. Olho em volta, tudo igual.

Não me lembro como vim aqui parar. Ou se me trouxeram.

Olho em frente. Tudo igual. Não olho para trás, não vale a pena.

Tento manter a calma, quase não consigo. Sem um vislumbre de luz, sinto-me cada vez mais parte da multidão, lamurienta, toda igual.

Resisto. Não sucumbo. Não sei quanto tempo mais vou aguentar.

As paredes são iguais, o tecto permanece baixo demais. O horizonte, igual. Sempre o mesmo. Muita gente. Ao fundo tudo é negro. Sem uma única luz. Tudo igual. Sempre.

Como é que vim aqui parar? Lembro-me vagamente de me sentir arrastada. Sem violência. Gentilmente alguém me pegou pelo braço me levou para o meio daquela multidão. Devia estar numa espécie de torpor porque me deixei levar. Permanecemos de braço dado. O meu braço, inerte, conduzido. Era seguramente conduzida.

Lembro-me de ir andando, arrastando os pés, olhando em frente, os olhos vítreos, sem ver, sem pensar. Sentia a minha cabeça vazia.

E antes?

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