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FREUD EXPLICA 3

03/04/2005

Aos poucos vou deixando de sentir a cabeça vazia. Aos poucos começo a olhar em volta. Apercebo-me do espaço. Lúgubre, cinzentão. As paredes são meio cinzentas meio amareladas.

Os tijolinhos parecem terra. Toco-lhes, desfazem-se. Não são assim tão resistentes quanto isso. Pelo contrário, parecem-me facílimos de destruir. Com as mãos consigo desfazer um, dois, três. Não sei quantos mais há, qual a grossura destas paredes.

Estou sozinha de novo. Não me deixam parar. Sou levemente empurrada para a frente. Como se instigada a seguir o caminho da multidão.

Não, não quero. Arranjo maneira de me colar à parede e começo a desfazê-la. As pessoas seguem em frente. Olham-me, os olhos sem expressão. Não consigo ler neles qualquer sinal. Seguem o seu caminho.

Continuo a destruir a parede, que literalmente se desfaz ao meu toque. Aproveito as duas mãos e continuo. Com mais energia. Totalmente concentrada. Olho para o lado. A multidão não tem fim. Não lhe vejo o fim por mais que olhe em ambas as direcções, para trás ou para a frente. Continuo. Ninguém parece interessado no que faço. E muito menos em juntar-se a mim. Continuo, também indiferente ao que se passa à minha volta. O meu objectivo, a minha prioridade é descobrir o que está para além daquela parede, que se desfaz à minha acção. Os tijolinhos são cada vez mais amarelos. De um amarelo suave.

O céu. O céu está azul! De novo! Finalmente vejo-me livre dos tijolinhos. Saio cá para fora. De pé. Não olho para trás. Curiosamente não sinto ninguém atrás de mim. Ninguém me seguiu.

Há muito movimento. É necessariamente uma cidade. Grande. Estou no meio de uma praça. Há um cruzamento. Semáforos. Tudo segue o se curso. Observo. Ninguém me observa. Ninguém dá por mim.

Olho à volta, vejo edifícios feitos de tijolinhos. Não sei o que são. Não são tão altos como prédios nem tão baixos como casas. Os tijolinhos são cor de tijolo. Quentes.

Gosto dos edifícios. Não desgosto da praça. Tem movimento mas é ordeiro. As pessoas parecem civilizadas. Nada me é familiar, apenas os tijolos cor de tijolo.

Ainda estou parada. Ainda observo. Não sei que direcção seguir mas estou tranquila.

[E do nada, qual sonho, apareces. Cumprimentamo-nos e seguimos o nosso caminho.]

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