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SENSIBILIDADE E BOM SENSO

24/03/2005

Situação 1:
Uma pessoa é operada. Não interessa a quê. Apenas que é com anestesia geral e obrigatoriedade de repouso nos dias que se seguem. Coisa simples que nos dias que correm é-se operado por dá cá aquela palha e já agora dá cá também uma fortuna para pagar a operação que preciso de um carro novo. No dia seguinte, dois dias depois consegue-se alta. Próxima paragem: casa. Não há como o conforto do lar que estamos frágeis e sensíveis e os hospitais, por mais hotéis de luxo que possam parecer e tratamentos 5 estrelas que nos possam dar, são sempre impessoais. Finalmente em casa mas com uma anestesia geral no bucho, atordoada, portanto. Já para não falar nas dores no sítio da facada. Para ali estamos, totalmente inertes, dependentes da disponibilidade da família. Para tudo. Enfim, é temporário mas não deixamos de nos sentir presos. A uma cama, a uma pessoa ou duas. Irritados, fartinhos de tudo e mais alguma coisa. Só queremos é que nos deixem em paz e sossego. Dormir tanto quanto a nossa cabeça nos pede e o nosso corpo nos exige. Não, não tenho fome. Nem sede. Tenho aqui a garrafa de água mesmo à mão, não te preocupes. Não preciso de nada. Apaga a luz, fecha a porta e se eu precisar de alguma coisa far-te-ei saber. Obrigada. Muito obrigada. Adeus.

Situação 2:
A casa do doente vira uma central telefónica. O telefone toca de manhã à noite, sem parar. Em alternativa, e em estéreo, é o telemóvel do doente que tilinta a cada 5 minutos, se por acaso nos esquecemos de o desligar. De o silenciar. Há ainda mais uma campainha que toca. A de casa! Porque as pessoas, o resto dos mortais, ocupados com a vidinha, não se lembram de nada melhor do que telefonar. Aparecer. Para quê? Estão à espera de falar com a pessoa que está na cama, sem se mexer, cansada, sem paciência nem para si mesma quanto mais para os outros?

E o pior é que não é por causa da pessoa que foi operada. Não é por ela. É por si. Para que a pessoa saiba que eles ligaram, estiveram lá, perguntaram. Para que não se sintam mal. São raros os casos em que a pessoa que procura quer apenas e só saber do doente. Deixa-me cá ligar, quero lá saber se está a dormir ou não, quero lá saber se está podre de cansada e não se pode mexer, desde que fique bem com a minha consciência.

Mandem postais, e-mails ou sms. Não incomodem quem já está incomodado quanto baste. Deixem mensagens de voz que a tecnologia é amiga de quem está doente e sem paciência para pensar quanto mais agarrar no telefone e ter de FALAR…

Como é que estás? Como é que há-de ser? Olhe, apetece-me saltar e pular de tanta alegria e vitalidade.

A sério, os recados serão entregues. A pessoa há-de saber que você se preocupou tanto que até deixou melhoras. E acredite que agradece. Agradece o seu bom senso. A sua sensibilidade. A sua noção das coisas. O seu sentido de oportunidade acima de tudo.

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