Uncategorized

GONÇALO MENDES RAMIRES

13/03/2005

Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fia à sua ideia… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
– Quem?…
– Portugal.

In: “A ilustre casa de Ramires”, Eça de Queiroz.

Não só acho esta descrição de génio, sem surpresas tendo em conta o autor, como irritantemente me identifico, uns dias mais do que outros, com quase tudo o que aqui está descrito. Quase.

You Might Also Like

  • CA 14/03/2005 at 17:15

    É incrível como é intemporal.
    E é incrível como ‘aquele todo de Gonçalo’ é simplesmente aquele todo…

  • error: Content is protected !!