Uncategorized

QUEM É? É O PRETO DA GUINÉ!

12/03/2005

O roubo de telemóveis banalizou-se de tal maneira que em 2004 foi o objecto mais roubado. É fácil, o pessoal põe-se a falar na rua, passa um larápio, arranca-nos o dito da mão e desata a correr e pronto, já foi. Esta é a forma mais básica. Mas há outras.

A história que lhe vou contar passou-se com uma amiga minha, poderia ter sido comigo ou até mesmo consigo. Leia até ao fim para aprender a lidar com o roubo de telemóveis da forma mais saudável.

A Susete* ia a entrar no Metro e eis que sente um empurrão, deve ser um daqueles que tem pressa e medo que as portas se lhe fechem a meio do percurso ou assim, pensa. Olha para trás e só vê um vulto cinzento. Põe a mala para a frente e constata que tem o fecho aberto. Olha de relance lá para dentro, vê que não lhe falta nada e assume que se esqueceu do fecho aberto, fecha-o e não pensa mais no assunto.

Ao chegar ao pé da mãe, com quem ia ter para tratar de um assunto qualquer, constata que não tem o telemóvel. Pede à mãe que ligue para o dito, pode ser que se tenha esquecido dele no escritório ou assim.

– Toma filha, que estão a atender.
– ‘Tou, esse telefone é meu.
(Sotaque de preto**)
– Esse telefone é meu.
– Ai sim, e qual é o número?
– É o número que a senhora ligou.
– Ladrão, esse telefone é meu!
– Não é não, eu tenho esse telefone há dois anos.
– Mentiroso, é seu e não sabe o número. Ladrão!

Entretanto a mãe pega no telefone e tenta convencer o ladrão a vir devolver o telefone:

– Olhe, a miúda não tem dinheiro para comprar outro telefone. É muito feio o que o senhor fez, venha lá devolver o telefone.
– Mas onde é que a senhora está? E ri-se…
– Aqui, no Metro do Areeiro. Venha lá ter ao quiosque onde se vendem os bilhetes, vá lá.

Mãe e filha descem até ao quiosque e à visão de tudo o que é preto que passa por elas, a mãe trata de piscar o olho, acotovela a filha e diz: é este! Agora é que é. Depois de uma eternidade à espera que o preto viesse devolver o telefone, sem sucesso, decidem ir à vidinha delas. A Susete já tinha entretanto pedido uma segunda via do cartão e já tinha arranjado outro telefone.

Toca o telefone. Era o Vitorino:

– Ouve lá, mas onde é que tens andado que te liguei e atendeu-me um preto?
– Nem sabes, roubaram-me o telefone e o gajo está farto de atender as chamadas que vêm para mim.
– Ai é, espera que eu já lhe digo.

Toca o telefone outra vez. Era a Soraia, a irmã mais nova da vítima.

– Mas ‘tas parva? Quem é o preto que me atendeu o telefone há bocado?
– Sei lá, roubaram-me o telefone e o gajo deve ser mesmo estúpido porque atende as chamadas todas.
– Ai sim, já vais ver como elas lhe mordem.

Enquanto a Susete ia tratando da vidinha, a Soraia e o Vitorino tentavam tratar da saúde do ladrão descarado que para além de andar a roubar telefones ainda se dá ao desplante de atender as chamadas. Seguem-se as ameaças do amigo do Vitorino ao ladrão. Verdadeiramente imbuído do espírito, o Miquelino faz de PJ exemplarmente. Duríssimo, como convém!

– Olhe eu estou a falar da Polícia Judiciária e é só para lhe dizer que nós vamos localizá-lo não tarda nada e portanto é melhor o senhor devolver o telefone. É que já está em curso um processo-crime e pode crer que nós o vamos descobrir.

A Soraia, obviamente solidária com a irmã, trata também de pôr o preto nos eixos.

– Olhe o senhor roubou-me o telefone e portanto vai agora… Onde é que está?
– Eu estou na IC19.
– Então vai voltar para trás e vai à esquadra de Benfica devolver o telemóvel que me roubou.
– Mas eu não roubei telemóvel nenhum.
– Vai agora à polícia! Eu estou lá à sua espera.

O Dionísio, cunhado da vítima, resolve também entrar na onda de solidariedade e telefona, fazendo-se igualmente passar por um PJ:

– Ouve lá pá, já estás a caminho?
– …
– Ri-te, ri-te, que vai ser por pouco tempo. Já está a correr um processo-crime em teu nome. Já te localizámos e não tens hipóteses. O melhor é devolveres essa merda se não é pior para ti.

Entretanto a Susete fala com a TMN para se queixar que as chamadas continuam a ir parar ao ladrão, o que é estranho porque quando se pede uma segunda via do cartão é suposto ficar-se com o mesmo número.

– Só um momento, minha senhora. Já lhe ligo.
– …
– Realmente, eu liguei para o seu número e atendeu-me um senhor.
– Pois, é o ladrão!
– Mas é muito estranho… A senhora fez algum reencaminhamento no telefone?
– Eu não, nem sei como isso se faz…
– É que o telefone está reencaminhado para um número que não tem nada a ver com o seu…

Silêncio…

– Ahhhhhh… Então foi o verdadeiro ladrão que reencaminhou o telefone para o número deste senhor que não fez mais nada a tarde inteira senão atender o PRÓPRIO telefone com chamadas de gente a insultá-lo e a ameaçá-lo…

Coitado, pensou a Susete, vou-lhe ligar a pedir desculpa…

– Olhe… – Alguém atende e desliga do outro lado.
– Desculpe… – Alguém atende e desliga de novo.
– Eu só queria… – Trás! Desligado.

Bom, não vale a pena. Susete decide pedir a Solange, a irmã mais velha, para ligar e tentar pedir desculpa ao senhor.

– Boa tarde, eu sou irmã da Susete e queria pedir-lhe desculpa.
– Eu ‘tou muito ofendido com a sua irmã. Eu saí mais cedo do trabalho para ir à polícia e ela não estava lá.
– Pois é que foi um engano.
– A Polícia Judiciária ameaçou-me. Tem um processo no tribunal contra mim. Eu não fiz nada.
– Mas foi um engano e eu só queria realmente pedir-lhe desculpa por ela…
– Eu trabalho nas obras nas Galinheiras. Eu trabalhei para comprar este telemóvel. Eu quero encontrar-me com a sua irmã. Para ela ver que não fui eu o roubador. Eu sou negro, da Gunié, sou grande… Não fui eu. Eu tenho 1 metro e 97, não é possível eu roubar alguém. Toda a gente ia reparar…
– Pois é, desculpe.
– Eu quero encontrar-me com a sua irmã para ela ver que não fui eu.

Moral da história: antes de acusar alguém, pense duas vezes!

*Os nomes foram propositadamente alterados para protecção das vítimas.
** Numa situação destas ninguém no seu perfeito juízo diria um negro ou, pior ainda, uma pessoa de cor. Além disso o racismo está, na maioria das vezes, em quem interpreta e não em quem profere os termos eventualmente insultuosos. Deixemo-nos então de merdas e assumamos, sem caraminholas na cabeça, que é assim que as coisas se passam.

You Might Also Like

error: Content is protected !!