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PEIXES E MÁQUINAS

05/03/2005

Pois é, a esta altura do campeonato ou foi despedido e expulso de casa, ou tem uns colegas que são uns santos e uma família com um lugar garantido no céu, ou é patrão, sorte sua e azar de quem trabalha para si, ou então começou a fazer desporto a sério, verdade?

Assim sendo – e no caso de ter optado por um desses ginásios modernos que proliferam pelo país fora, com este frio acho que é mesmo a melhor opção, pelo menos enquanto a Primavera chega e não chega – já está mais do que familiarizado com as máquinas e as aulas, não? Há-de me contar que tal corre.

Pois olhe, pela parte que me toca, pela boca morre o peixe e eu, apesar de estar aqui vivinha da Silva, tenho de dar o braço a torcer e assumir de uma vez para consigo que: sim, rendi-me às máquinas. É verdade.

Não sei se se lembra mas fiquei de fazer um treino personalizado com uma das pequenas que trabalham no ginásio.

Pois muito bem, no dia combinado lá fui. Eis que me aparece uma rapariga para o gordinho. Não que eu tenha alguma coisa contra, antes pelo contrário, os gordinhos que tenho conhecido por esta vida fora têm-se-me manifestado uns bem-dispostos, mas para alguém que passa a vida num ginásio não sei se será muito favorável… Ainda para mais querendo eu perder peso, olhe lá com quem me fui meter… Mas isto acaba por ser um preconceito porque a constituição física dela é assim e a coitada não pode fazer nada contra. Ao que me pareceu, nem sequer se importa muito. Eu muito menos porque não há de ser a constituição física que lhe vai toldar o cérebro e muito menos a capacidade de preparar treinos, afinal esse é o trabalho dela…

O treino personalizado implica uma série de perguntas sobre o passado, o presente e o futuro do desportista em causa. Com tanta pergunta sobre doenças e incapacidades estive a pontos de virar hipocondríaca, não fosse dizer-lhe que tinha deixado de fumar, e portanto precisava de qualquer coisa para poder expandir a genica que me invadiu e tomou conta do meu corpinho de há uns dias para cá, e de emagrecer, que se para engordar não é preciso muito esforço já para emagrecer demora para mais de uma eternidade.

Obviamente não foi pelos meus lindos olhos que a miúda me telefonou. O objectivo destes treinos personalizados é vender o servicinho, da própria, como Personal Trainer. Acho muito bem que ela tenha tentado, que tentar ganhar a vida de uma maneira honesta é muito digno e eu cá estou para a louvar.

– “E um Personal Trainer, nunca pensou nisso?”

– “Não. Para já não gosto de máquinas e depois, qual é a diferença entre um PT e o que você me vai fazer?” – Ela ia preparar-me um plano de treino, repito.

– “É que um PT ajuda-a a alongar e está consigo o tempo todo e é, como o próprio nome indica, pessoal.”

Nesta altura ainda pensava que lhe fazia a vontade e conhecia as máquinas mas que me ficava por aí porque não tinha mesmo paciência para aquilo e além disso as aulas chegavam-me.

– “Como lhe disse não gosto muito de máquinas e por isso acho que o melhor é vermos que tal corre e depois logo se vê.”

É isso, fico-me mesmo só pelo louvor porque pagar a um gajo, ou gaja, para me bajular é coisa que não me passa pela cabeça. É que pelo que me foi dado a ver, os PT ajudam a alongar, acredito que saiba optimamente mas não sou inválida e portanto posso bem fazê-lo sozinha, estão o tempo todo a rir-se para nós e a bajular-nos. O pessoal gosta de ser bem tratado e eu também mas bajulanços não obrigada. Além disso não tenho paciência para andar com um gajo atrás de mim o tempo todo. Até porque para corrigir posições e esclarecer dúvidas estão lá os outros que não estão de PT. Ainda bem que há quem goste e quem opte pelos PT, que são uma simpatia e precisam de ganhar a vida, desde que não mos imponham.

Mas voltando à vaca fria. Depois do questionário lá fomos, ginásio fora, à descoberta das máquinas.

Ele há as de exercício cardiovascular, que são 5, e as de pesos, um monte. Os treinos englobam as duas modalidades e são compostos conforme a necessidade das pessoas.

Cada máquina de pesos moderna, para além das barras dos quilos, tem umas imagens do corpo humano com os desenhos dos músculos que estamos a exercitar. Vou-lhe dizer que é estimulante. Sempre que estou a pontos de largar tudo e fugir dali tão rapidamente quanto as minhas pernas bamboleantes me permitirem, olho de lado para os desenhos e vem me logo uma força extra, deve ser do Além porque das pernas não estou a ver como, e lá acabo a série. Para além das pernas, a Joana mandou-me exercitar o abdominal e os braços. 2×15 repetições em cada máquina e já está. Num total de 5 aparelhos, mais um minuto e meio de prancha, é bom para os abdominais e para a bunda, tudo isto não demora mais do que 20 minutos, se tanto, porque ainda falta meia horita de cardiovascular.

As máquinas de cardio que me soavam vagamente familiares eram: a passadeira, a bicicleta, ao largo da qual passo muito depressa, desde a minha experiência RPM que fujo das bicicletas como o diabo da cruz, e a de remo. Há ainda a Elíptica e o Stepper. Bom, a minha primeira experiência com as duas últimas fez-me jurar que nunca mais lá voltaria a pôr os pés. A Elíptica, que diz que é uma natural runner, de natural é que não tem nada. É como se corrêssemos mas sem correr. Podemos acompanhar o movimento com os braços, estou verdadeiramente convencida que só deve servir para o desequilíbrio, ia caindo para cima da rapariga, ou agarrarmo-nos lá a umas pegas que depois mostram o nosso batimento cardíaco nos monitores à nossa frente. É bom agarrarmo-nos mesmo a qualquer coisa e tendo em conta que é um sítio público, o melhor mesmo são as tais pegas. O Stepper foi ainda pior. Pus os pés lá em cima e os degraus desceram e ficaram no chão, os dois. Ainda tive esperança que pudesse ser só aquilo mas aí a Joana explicou-me que eles tinham de ficar em cima. Aí apoiei-me com as mãos e fiz muita força. Os degraus ficaram de facto em cima e eu com umas dores nos braços da força que estava a fazer para que eles não descessem… Vendo bem aquela máquina é para exercitar as pernas e não os braços… Ela lá me explicou como é que aquilo funciona, é tal e qual como subir escadas, mais entusiasmante é impossível…, e evidentemente não me convenceu. Assim que a apanhei de costas, fiquei-me pela passadeira e pelo remo, um quarto de hora em vez da meia hora e já não é mau.

E foi assim que arranjei mais sarna para me coçar. Agora não tenho mais desculpas para me baldar ao ginásio. Sempre que não haja aulas que me convençam, há sempre as minhas amigas máquinas, cheias de quilos e batimentos cardíacos para cumprir (140-160, recomendado) à minha espera.

É isso, antes morrer pela boca, como o peixe, do que obstinada ou teimosamente deixar de experimentar com base numa experiência, da qual já nem me lembro, que me dizia qualquer coisa como as máquinas “são todas uma seca”.

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