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A auto-ajuda ofende-me

17/01/2014

No outro dia fui convidada para uma cena. Numa das mesas da sala onde ia acontecer o evento, estava um livro chamado: Por que os homens amam as mulheres poderosas? Peguei nele e comecei a ler. Rapidamente percebi que era de auto-ajuda, mas continuei, por causa da palavra mágica que apareceu logo nos primeiros parágrafos: boazinha. 

Apesar das botas de salto altíssimo da capa, li-o todo, pasme-se, e se houve algumas coisas que fizeram sentido, nomeadamente o alerta para comportamentos que às vezes adotamos, dos quais não nos damos conta, e que se prendem com o adjetivo “boazinha”, a generalidade do livro ofendeu-me profundamente. Também me deprimiu um pouquinho…

O livro é escrito por uma mulher, que se propõe falar sobre mulheres supostamente poderosas, alimentando, o tempo todo, um machismo verdadeiramente repugnante, retratando os homens como se fossem de cristal e as mulheres como se fossem feitas de aço, aconselhando-nos a sermos homens, a adotarmos comportamentos tipicamente masculinos. Avisando-nos que os homens, coitadinhos, não sabem lidar com os sentimentos. Como se isso fosse bom… 

Para masculinidade já me basta a minha, o que eu e a grande maioria das mulheres ocidentais precisa, e os homens, já que falamos nisso, é de resgatar o feminino, de o integrar na sua personalidade racional, de aprender a lidar com ele, a valorizá-lo, a aceitá-lo. E a solução para isso não é ignorar seja o que for, muito menos os nossos sentimentos.

Pois é isso que ela faz, praticamente aconselha a que sejamos controladoras, ou das nossas próprias emoções ou das situações. Pior que isso, em momento algum sugere espontaneidade, em momento algum abre espaço para ela. Ora a espontaneidade, a autenticidade, revelam alguma liberdade, alguma segurança, para expressar opiniões, mas também sentimentos, desagrado, alegria, entusiasmo, raiva e, porque não, insegurança.  

Se há coisa que não se deve esperar de uma mulher é que ela seja constante, e bem, basta pensar na analogia arquetípica: feminino – lua, masculino – sol. Além disso, parece-me que o grande objetivo é sermos cada vez mais e tanto quanto possível nós mesmos. Com tudo a que temos direito, simplesmente porque somos humanos, não máquinas. E aprendermos a gostar de nós assim mesmo, em todos os momentos. Ou pelo menos a respeitarmo-nos.

O livro também me deprimiu, este tipo de literatura tem o péssimo hábito de dar a mesma receita para toda a gente e de querer fazer crer que a coisa funciona por osmose, garanto que não funciona. Já para não falar na frustração que um livro destes pode gerar: que chatice, não consegui ser racional, carinhosa, segura, autêntica, verdadeira, independente e auto-suficiente. Ou seja, em vez da mulher gostar mais e mais de si, não…

O que me ofende nesta gente que escreve livros de auto-ajuda é a leveza e a irresponsabilidade com que o fazem, dando a ideia de que é fácil, de que somos todas iguais, de que uma receita serve para toda a gente, de que todas queremos o mesmo, precisamos do mesmo. O que me chateia é a falta de espaço para deixar que a mulher seja ela mesma, e não um homem, um robô ou uma mulher igual a todas as outras, apesar de a autora insistir, até à exaustão, na valorização de nós mesmas. 

Além disso, o grande problema destes livros é que desconsideram os motivos pelos quais as mulheres agem assim e assado. E esses motivos são de cada uma, não adianta fingir que não existem, não adianta tentar controlá-los, abafá-los, já sabemos o que acontece com algo que abafamos…

A única forma de nos tornarmos poderosos é descobrir e entender de onde vêm determinados comportamentos. Reprogramar o cérebro, nos casos em que der para o fazer, aceitar, nos casos em que não houver nada a fazer. A única forma de nos tornarmos poderosos é não precisarmos de poder algum, é não sentirmos necessidade alguma de controlo, por nos conhecermos o suficiente ao ponto de sabermos discernir o que nos serve e não nos serve, seja com a cabeça seja com o coração, que a autora pura e simplesmente ignora, sendo que é mulher. 

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  • Espiral 03/11/2012 at 15:15

    Concordo totalmente. Tenho alergia a livros de auto-ajuda que nós fazem sentir mal por não conseguirmos ser aquilo que eles querem que nós sejamos.

    • Isa 03/11/2012 at 22:52

      pior do que isso, não te "deixam" ser tu mesma…

    • Espiral 04/11/2012 at 01:24

      Sim.

      Como se tivéssemos que ser daquela maneira, formatados, optimistas em 10 lições, felizes em 10 lições, realizados em 10 lições.

      Irrita-me =/

    • Isa 05/11/2012 at 01:30

      :D exato!

    • Auto-colante 22/11/2012 at 14:45

      "A única forma de nos tornarmos poderosos é não precisarmos de poder algum." All said!
      <3

  • Elaine 18/01/2014 at 10:11

    Isa, esse livro também caiu nas minhas mãos há um tempo atrás não me lembro exatamente como. Não consegui ler, logo notei que era “auto-ajuda” das piores. Vou só fazer uma ressalva quanto a isso – algumas vezes coisas absolutamente líveis são injustamente classificadas como auto-ajuda. Mas o ponto é – o teu último parágrafo diz tudo. E além disso, o poder corrompe. Em todos os níveis e em todas as áreas, eu venho dizendo isso há algum tempo, ao contrário da “boazinha”, apetecem-me algumas maldades aqui e acolá – e watch me falando com sotaque, você é contagiosa. :-) Um brinde às maldades inocentes. E às nem tanto.

    • Isa 18/01/2014 at 13:10

      Sim, a sede de poder é o diabo… E sim isso do boazinha também já não me tenta. Let’s toast to that, às inocentes e às outras ;)

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