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A baixa autoestima é o novo: tens é inveja

02/10/2013
A coisa que mais me irrita nas modas é a repetição, seja no discurso, seja no vestuário. Cansa-me. Cansa-me a banalização, ver tudo igual, a pasmaceira generalizada. Tenho um medo do Procusto que me pélo…
Se o argumento para qualquer coisa era, até aqui há bem pouco tempo, tens é inveja, agora a moda parece ser a falta de autoestima. Aliás, a palavra autoestima anda a irritar-me tanto quando a palavra empreendedor. 
Ah e tal, caí na rua: isso é baixa autoestima; o meu chefe é um filho da mãe, baixa autoestima; o meu cabelo parece um espanador, baixa autoestima; dei cabo de uma unha, baixa autoestima; não consigo fazer contas de frações, baixa autoestima; não entendo física quântica, baixa autoestima. E por aí vai, qualquer coisa é baixa autoestima, a baixa autoestima is the new black. Parem com isso.
Da mesma forma que quem anda por aí a gritar que é feliz, lindo, maravilhoso, o máximo, não sofre de elevada autoestima muito menos é feliz, sofre de algo muito mais grave, inflação do ego e de um complexo de inferioridade gritante. Já para não falar numa necessidade infantil de ser constantemente o centro das atenções, que pendure uma melancia no pescoço, expressão brasileira de que gosto muito, que pode ter a certeza que toda a gente vai olhar para si. Adler diz que se prende com necessidade de controlo, enquanto estão todos à minha volta, tenho-os na mão. O que tanto serve para o síndroma do desgraçadinho quanto para o síndroma: sou o maior. 
Não só me irrita porque é básico e repetitivo, como é falacioso. Fora que é estúpido e não leva a lado nenhum. Dizer a alguém que a pessoa sofre de baixa autoestima é chamar-lhe todos os nomes e não assumir, desde burra, feia, gorda, incapaz, a sei lá eu que mais. Já para não falar no fatalismo. Se a raiz dos problemas das ssssoas fosse baixa autoestima, a coisa resolvia-se rápido. Roupa nova, cabelo novo, make up, massagens, operações estéticas e já está, curados para sempre. Ó faxavor, era pra mudar tudo. Pronto, problema resolvido, vamos agora, que já estamos novos e lindos, ser felizes, conseguir o trabalho com o qual sempre sonhámos, o gajo com o qual sempre nos imaginámos, a casa, o carro, as jóias e o apartamento na Quarteira. E mais os gatos, os cães, o jardim de relva aparada, os filhos felizes, como num anúncio de comida pra cães, a brincar lá fora, protegidos por uma cerca branca. 
Lamentavelmente, não é tão fácil nem tão barato. A baixa autoestima é uma consequência, e não a origem, de algo muito mais profundo, normalmente vem de um sentimento de rejeição, ao qual está ligado um sentimento de não ter valor, não merecer amor. Juntamente com essa rejeição, vem a crítica e a cobrança. E a sensação de não ter valor, outra vez. 
Não basta entender os motivos pelos quais fomos rejeitados, isso satisfaz racionalmente mas não resolve emocionalmente. Também não adianta perdoar, entender, fingir que aceitamos. Isso serve para não nos sentirmos mal em relação a nós mesmos e talvez nos faça sentir um bocadinho superiores. É preciso entrar em contacto connosco, mesmo, o que é mais doloroso e nos sai mais caro do que qualquer operação plástica com o top of the pops dos cirurgiões plásticos, e ver de onde vem, de que forma isso nos afetou, como e quando. E os resultados disso na vida de todos os dias. A vida de todos os dias é que é o diabo. Os comportamentos que se repetem, o gatilho que é sempre o mesmo, as reações que se lhe seguem, as coisas que “nos acontecem”, o tipo de gente que nos atrai. É começar no hoje e ir andando para trás. É descobrir o que realmente está por de trás da famigerada baixa autoestima, o que levou a que nos víssemos como nos vemos, a que nos comportássemos como nos comportamos, a que nos sabotássemos como nos sabotamos. E resolver o que houver para resolver. A baixa autoestima é a forma como nos vemos, não como somos. E só descobrindo quem somos, verdadeiramente, no fundo e à superfície, a resolvemos, e a tudo o resto. Podemos até vestir exatamente a mesma roupa, usar o mesmo corte de cabelo, não nos maquilharmos nem pintarmos as unhas, e sentirmo-nos bem connosco. 
A solução é de dentro para fora, não de fora para dentro. Essa funciona sensivelmente um dia, para tudo o resto, há mastercard, use-o para se auto-conhecer, é aí que está a chave. 

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  • xilre 02/10/2013 at 21:10

    Eu abria uma exceção para a Física Quântica. A Teoria das Cordas é tramada, mesmo para quem tem grande autoestima.
    Não acredito que haja satisfação racional, mas isso sou eu, que concordo com Damásio e acho que Descartes bateu com os burrinhos na água. De resto, sim, de dentro para fora, mas o mapa é complexo e a maioria das pessoas não faz ideia como encontrá-lo — está escondido como um

    • Isa 02/10/2013 at 21:37

      ask for help ;)

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