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A dar descanso à bolha

09/09/2016

A aplicação para os primeiros 5km é boa, a dos 10 uma boa merda. Ontem, preparada para correr pela primeira vez 18m, mais 18, mais 18, ou seja, quase uma hora, começo em velocidade de cruzeiro, cautelosa, atenta a todos os sinais do corpo, vou ouvindo a senhora da Nike+ dizer que já corri 1km, depois outro, em x tempo, e começo a fazer contas à vida no sentido de saber quanto faltará para a senhora da outra aplicação me autorizar a andar o minuto que me ajuda a recuperar para os próximos quase 20. Nada. Nada, nada.

Não posso estar constantemente a pegar no telefone para ver o que quer que seja. A música está escolhida, as apps selecionadas, os starts dados e siga. O momento da corrida é o momento da corrida, é concentração total no meu corpo e no ambiente em volta, para não atropelar ninguém, porque não dá para parar. Olhos longe, ego focado em não desistir, não parar, não me distrair do objetivo, não sair de um estado mental meio fora meio dentro da consciência. 

Não havia meio de a mulher me dizer que era chegada a hora de parar e andar. Peguei no telefone e reparo que a gaja me dizia que eu tinha corrido apenas 5 minutos, quando tinha corrido pelo menos 15. Aquela falsa informação dessincronizou-me o cérebro, começa logo a irritar-me porque me baralha o esquema e a gestão de esforço. E se já estou cansada – canso-me logo ao fim dois minutos, depois passa tudo, é só até entrar no modo velocidade de cruzeiro, é mesmo esta a expressão que me ocorre para definir o estado da minha mente quando corro – tenho de me controlar imenso para não atirar com o telefone ao mar, ou contra uma parede, não sem uns palavrões avulsos, e acabou a concentração, porque tenho de ser eu a decidir quando paro e para isso tenho de olhar constantemente para o telefone. Ainda que a Nike+ me ajude, porque me informa a cada km, o tempo que levei para tal, acumulando o de todos os km percorridos, e a média em minutos de cada km. E, vendo mais ou menos onde estou, sei que já percorri um x número de km. Como conheço a minha média, o cálculo de tempo que passou entretanto é muito fácil de fazer. Mas não me resolve o problema, tenho de olhar à mesma para o relógio para saber quando passou o minuto concedido. O que me obriga a voltar à realidade, ao contacto com a dor, às limitações físicas e mentais, a sair daquela semi-consciência. Além disso, gosto de aproveitar esse minuto para me esticar, me endireitar, relaxar um pouco, não para me stressar, ficar a olhar para um ecrã cheio de tentações. E só consigo correr determinado tempo de seguida porque sei que vai haver um momento em que vou parar, andar, caso contrário, é tudo muito mais difícil, demorado, dolorido. Se sei que alguém me vai dizer para abrandar, distraio-me, olho a vista, penso na vida, ou abstraio-me de tudo e entro naquele modo de comunhão com a natureza, as pessoas e os animaizinhos, que é maravilhoso. Ou seja, posso confiar e relaxar, fazer o que me compete, o melhor que puder e souber, empenhada, porque sei que a recompensa vem. Caso contrário fico tensa, focada no que não devo, o momento em que acaba, a pensar que nunca mais chega, em vez de curtir a viagem. Saio daquela semi-consciência e caio na realidade, no concreto, que é sempre um lugar onde é raro apetecer-me estar.

Já sabia que a app tem de estar sempre ativa, ou seja, não pode estar lá atrás, e faço questão de a pôr à frente e apertar o botão do ecrã escuro, mas ontem nem assim.

Depois daquele contratempo e apesar do nervoso, não desisti, não me deixei voltar por completo, certifiquei-me de que estava ativada e continuei a correr. Volto a olhar para ela passado algum tempo e nada, dá a sensação que fica nos 15 para 5, passam 15 minutos, ela regista como se fossem apenas 5. Irritei-me de tal maneira que comecei a andar, a olhar para o telefone, a responder a mensagens e não corri mais. Depois olhei para o mar, que estava particularmente bonito e inspirador ontem, e lembrei-me da vontade que tenho, há que tempos, de dar um mergulho de cabeça, dos que lavam a alma. Nem hesitei mais, não fiquei na sombra, na frustração, já não tenho idade nem nervos para isso. Peguei nestes meus ricos pezinhos de princesa, descalcei-me e fui a andar até casa, pela água, que estava deliciosamente fria. Um prazer imenso, uma calma indescritível. Prometendo a mim mesma que haveria de vencer a preguiça e ir, no dia seguinte, tratar de lavar a alma.

Desconfiei que fosse das meias, sempre é mais barato comprar meias do que ténis, mas estou cá desconfiada que a bolha gigantesca que me atrapalhou muito a vida ontem, e me demoveu também de continuar, tem origem nos ténis, que agora criaram um vinco duro precisamente no sítio da bolha. Daí que talvez pare por uma semana ou assim, continuando a fazer exercícios de força, mas dando descanso aos joelhos que me andam a matar, principalmente o esquerdo. A idade não perdoa, temo no entanto que não seja só isso. É capaz de ser um aviso, para segurar o ego e parar de ser competitiva e louca, e curtir, correr, desafiar-me, mas só até ao limite do que me faz bem, sem noiar demais. Ou então são artroses, remanescências dos tempos em que voava em cima de um step. Espero que seja só o ego, este meu Peter Pan ainda um dia me há de matar.

Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. E eu temo sinceramente pela minha vida. Se aos 40 estou assim, pronto, 44. OK, quase 45, imagino aos 50, 55. Faço o quê, ando de muletas, numa cadeira de rodas, contrato uma grua para me levantar?

Independência ou morte, meu deus, já tenho idade para ter juízo…

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  • Diana 13/09/2016 at 17:51

    Para a frente é o caminho!!!!
    :)

    • Isa 14/09/2016 at 01:05

      muoto fixe, Diana, valeu :)

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