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A jato

28/02/2014

O meu cabelo está a irritar-me. Está muito direitinho, sem jeitos nem formas, com volume a mais 010805070611-HyFish-fronte personalidade de menos. Daí que vou cortá-lo. Mas queria ver se aguentava mais uns meses. Sofro de uma espécie de toc, às vezes e com algumas coisas. Como enfiei, no Brasil não se pode dizer meter, na cabeça que só cortava o cabelo de seis em seis meses, e como ainda não passaram seis meses, fico aqui a sofrer até poder cortar o cabelo outra vez. Mas só em maio é que faz seis meses, apesar de antes dessa vez ter aguentado apenas um mês, mas foi porque sonhei que cortava o cabelo, porque não me identifiquei mais com o corte comprido, e por isso dos sonhos e dos símbolos andar a mexer cada vez mais comigo. Daí que pode ser que corte antes, nomeadamente na semana que vem. A minha guru dos cabelos vai perguntar-me o que quero mudar. Apetecia-me responder-lhe: olha, quero mudar de cabeça, rola?

Ontem quase dei PT na balada. Tenho 42 anos e já não tenho idade pra isto, pra me descontrolar, ceder à compulsão e  quase dar PT na balada. Mas dei. Apesar de saber perfeitamente que não posso fazer misturas. Já tinha bebido umas brejas e estava alegrinha, aquele tipo de alegria em que a pessoa já está muitíssimo alegre e nem percebe, daí que olha, foi isso. O meu problema é não beber durante muito tempo. Daí que quando o faço descontrolo-me um bocadinho, porque está calor e a heineken desce que é uma beleza. E faz mais calor, e continua a descer que é uma beleza. Depois chego àquela fase em que acho que posso tudo, que aguento, na verdade nem me passa pela cabeça, não dou por nada, a não ser que fico mais sorridente e ainda mais luminosa do que é costume, e a coisa só vai que vai. Daí que achei que não fazia mal puxar um, mas só um bocadinho, esquecendo-me que aqui é que nem em Cuba, purinho e por isso mais forte, mais condensado, que nem o leite… Ontem quase dei PT na balada, depois de ter ouvido a Susana Travassos no Ó do Borogodó, que é só o melhor lugar de samba de gafieira de São Paulo, onde uns gajos tocavam instrumentos de sopro que era uma maravilha, um sax e um trompete. Ouve tempos em que as cornetas me irritavam imenso, agora não. É impressionante o que eles conseguem fazer com os dedos, só naquelas 4 bolinhas do trompete, que estão muito juntas e não sei como é que os dedos deles não tocam em duas ao mesmo tempo. O gajo do sax soprava o dito e saía cuspo pela boca do sax, era um bocadinho nojento, mas ele bufava no sax que era uma maravilha, e por isso dá pra fingir que não vemos o cuspo no chão. A Susana Travassos é portuga, canta samba com sotaque português e está-se borrifando se os brasileiros percebem ou não. Acho lindo. Queria perguntar-lhe se era parente do jogador de futebol mas esqueci-me, só lhe dei os parabéns por cantar em português. Fiquei feliz que acabasse o show com uma música portuguesa, apesar da heresia dos brasileiros presentes, que sobrepuseram as suas conversas à voz maravilhosa da Susana Travassos, só porque não percebem nada do que ela diz. Os japas não percebem um corno de português e mesmo assim os Madredeus enchiam salas no Japão, mas o Ó é um bar e no bar as pessoas falam. Eu sei que os brasileiros pagam um tributo à música melhor que ninguém, em silêncio, como deve ser. Ontem quase dei PT na balada e, apesar de só ver estrelas, percebi que estava a pregar um enorme cagaço ao meu amigo Rafa, que me disse depois: ela morreu e eu preciso avisá-la; ela morreu, mas ainda fala. Era só uma quebra de tensão e eu sabia que ia passar logo, logo. Mas estava branca que nem a cal da parede e ele não acreditou. Apesar de o ver envolto em estrelas brancas e lindas, consegui perceber na cara dele que estava apavorado, e fiquei preocupada com ele, mesmo estando ali que nem podia e só a rezar para que o ventinho do ventilador ficasse mais um bocadinho a apontar-me pra cara. Ele não sabia o que fazer, só me perguntava de que é que eu precisava. Não havia chocolates no Ó, lá fora, na rulote do tio, também não, mas havia fanta uva, que ele me trouxe só para eu não morrer ali à frente dele. Não gosto muito de fanta uva – sabor a uva só nas ditas e no vinho – mas ele foi um querido e eu bebi-a até ao fim, e fez-me muito bem, porque era doce. Depois disse-me que se eu parasse de falar agarrava em mim tipo saco de batatas e levava-me ao hospital. Mas não foi preciso, passou, depois voltou um bocadinho, e depois passou outra vez, e continuámos exatamente do ponto onde estávamos. Pareceu-me que o impressionei nesse quesito, mas a conversa era importante e eu adoro o tema. Acho que teve medo que eu morresse pelo caminho, apesar de termos ido comer, de eu andar pelas minhas próprias pernas e de manter um discurso lógico e coerente. Ou talvez só não lhe apetecesse que eu esperasse por um taxi, daí que, depois de vários acho que não, acabei por ficar em casa dele e foi o que fiz de melhor. Esqueci-me que hoje a mulher que me compra os shampôs da natura estava cá em casa às dez da manhã. Só me lembrei disso às 5 e tal, já enroscadinha nos lençóis, sem me poder mexer muito, quando um gajo se deita parece que fica mais tonto ou assim, apesar de estar um calor do cacete. Que se lixe, pensei, não é o fim do mundo. Ando a treinar isso de primeiro o prazer depois o dever. Agora não me apetece explicar, mas juro que não é tão mau quanto parece… Hoje deixou-me no metro, e pedi-lhe desculpa, a rir, sem vergonha nenhuma, não por quase ter dado pt na balada, ando a treinar isso das fragilidades e confio nele o suficiente para me poder permitir expô-las, mas por o ter assustado. Ele sorriu e agradeceu-me por ter ido ao show. Achei bonito.

Estive a ler  Mónica Marques, e quando leio a Mónica Marques apetece-me escrever assim, de jato. A Mónica Marques não é a dona da escrita a jato, até porque o que ela escreve parece mais resultado de uma moca descomunal do que de outra coisa qualquer. E não deve editar os textos depois, ou a coisa na cabeça dela deve ser mais ou menos como na minha, em que os assuntos vêm aos borbotões e é o diabo pra travar isto. Ela não volta aos assuntos, deixa-os em suspenso, e não chega a conclusões. É por isso que acho que escreve com grandes mocas. Ao contrário de mim, que estou mais sóbria que sei lá, em que tudo o que escrevo tem uma conclusão, mesmo quando chego à conclusão que não cheguei a conclusão nenhuma. A escrita a jato chama-se voz autoral e é uma das características do jornalismo literário, categoria na qual sou pós-graduada e por isso posso usá-la, à voz autoral, tanto quanto quiser. Escrever de jato é a minha forma preferida de escrever, são os textos que me saem melhor. E ninguém escreve como eu, porque ninguém é igual a mim, nem eu escrevo como os outros, porque isso seria não ser eu. E eu quero, posso, devo e gosto cada vez mais de ser eu.

O Message in a Bottle foi escrito praticamente todo a jato, mas depois foi revisto e editado mil vezes. E ainda o mandei para uma revisora que foi minha professora de revisão e edição de texto na Católica, porque confio nela e na sua capacidade de usar vírgulas. Ela acabou por cortar um bocadinho esse efeito, o da escrita a jato, inventou imensos parágrafos novos e pode ser que o livro tenha perdido o efeito desejado. Mas deixei, porque facilita a leitura e sei que o meu público já não vai pra novo. O problema dos revisores é que são meros técnicos e não percebem muito bem de criação literária. Arrependi-me imenso de substituir padrões por linhas, porque a frase oficial é: com que linhas me coserei, e eu tinha dito padrões. Sabia o que estava a dizer e era exatamente padrões que queria usar, até porque tem duplo sentido, padrões mentais, aos quais me referia, e padrões de tecido e não sei quê, que aludiam às tais linhas. Deixei “linhas” e arrependi-me. Maneiras que já sabem, na frase: apesar de não saber com que linhas me coserei, deverá ler-se: com que padrões me coserei. Mas, como foi o meu primeiro livro, serve de aprendizado, para a próxima já sei. Além disso, ontem, depois do show na casa de francisca, tive uma conversa com o Rafa que me tranquiliza sempre imenso nisso de fazermos o que é nosso. Que é pra isso que servem os amigos, para nos acolher, não para nos foder ainda mais a cabeça. E, quando é mesmo nosso, bem pode vir o Graça Moura, que é das pessoas que mais respeito em Portugal, dizer que está errado, que eu sou pessoa pro mandar à merda. Quem é o Graça Moura pra dizer que eu sou errada? Se você não entende, acredite, a errada não sou eu. É como aquelas pessoas que perguntam: porque é que escreves em inglês, devias escrever em português, que é a nossa língua e não sei quê. Em vez de irem aprender a falar inglês…

girassóis

Algumas pétalas do girassol grande estão murchas. Murchar devia ser proibido, qualquer tipo de murchar. Como nasceram três girassóis pequeninos, e havia uma folha que estava a ficar amarela, achei por bem apontá-los pro sol, só pra garantir, ficando o outro virado cá pra dentro. Mas como a janela é de vidro, achei que ele apanhava um bocadinho de sol também. Sei que os girassóis não se aguentam muito tempo, por isso também sei que não é culpa minha que as pétalas do grande estejam a murchar. Ainda pra mais porque estou impressionada ao ver a vida a pulsar na minha janela e decidida a mantê-la pulsante o mais que puder, de maneira que rego o girassol todos os dias e nem me aflige nem nada.

Assusta-me qualquer tipo de dependência, por isso é que não quero ter filhos, nem animais nem mesmo plantas. Mas cuidar do girassol, que foi dado com todo o amor do mundo, não me aflige, apesar de depender de mim para sobreviver.

Também ando a treinar a delicadeza, o acolhimento e o amor, mas desta vez é comigo e em relação a mim, que é muito melhor e surte mais efeito do que praticá-lo com os outros. Os outros não percebem um caralho do que é o amor e a delicadeza e confundem-nos muitas vezes com uma porta aberta para qualquer tipo de barbaridade e de uso e abuso da “liberdade de expressão”. Liberdade de expressão é boa… Pior que liberdade de expressão é o poder dar opinião. Só se tiveres 5 anos, nenhum adulto bom da cabeça pode permitir-se confundir liberdade de expressão com liberdade para dizer e fazer todo o tipo de merdas que lhe vêm à cabeça. Quanto às opiniões, em relação a nós ahahah, só deviam ser dadas quando pedidas. Também ando a treinar isso, e muito sem paciência pra adultos sem noção.

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  • Isadora 28/02/2014 at 11:09

    Eu gosto da sua escrita a jato. O que é “moca”? “(…) o que ela [Mónica Marques] escreve parece mais resultado de uma moca descomunal.” Juro que pesquisei nos dicionários. Pesquisei nos em linha, pois não estou com um bom de papel à mão. Beijos!

    • Isa 28/02/2014 at 12:29

      :D estar mocado é estar chapado ;)
      Bjo, gracias ;)

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