Livre

A magia da vida simbólica

08/12/2016

Um dos temas que mais me encanta no Jung é a possibilidade de uma vida simbólica, de a ver como se fosse mágica. Por enchê-la de poesia e de beleza, fazendo da realidade um espaço menos mau onde se viver.

No primeiro episódio de The Affair, um jovem universitário dizia que agora até tinha medo de abordar uma rapariga não fosse ser acusado de qualquer coisa, por causa do exagero feminista que por aí anda, pelos vistos, no mundo todo. Uma das moças, meio feminazi, dizia: porque não lhe perguntas [se ela quer]? Ao que o moço responde: porque não é sexy… Quase levantei as mãos para o céu em júbilo.

Como boa introvertida gosto e dou espaço a que a fantasia faça parte da minha vida de todos os dias, pessoal e profissional. Houve fases em que a usei para fugir da experiência, mas nunca deixei de lhe reconhecer a função criativa que desempenha. Sem a possibilidade da fantasia, jamais conseguiria escrever, não haveria arte, cinema, literatura. Sem magia, a existência não tem graça.

A pergunta da moça em The Affair põe uma dose de racionalidade e de pé no chão à situação que pode muito bem impedir que o envolvimento se dê. Pensar é uma fuga à vivência, sempre. Pôr o ego ao serviço e no leme do que quer que seja é fugir à possibilidade de deixar que as coisas aconteçam além da lógica, da razão, da frieza, da realidade pura e dura. Do medo, do preconceito, das nossas limitações, questões e outras perturbações. É mais ou menos como cozinhar de forma prática e objetiva e de forma criativa. O prato básico alimenta e cumpre a função, mas não tem piada alguma, quase não preenche, todos os espaços, pelo menos…

Uma vez, moço artista, por quem nutro certo apreço e muito carinho, dizia-me que tinha de haver magia. Na época, aí há um ano, achava que havia demasiada fantasia no meu mundo. E que precisava de alguém que tratasse das coisas práticas. Hoje, se o cavalheiro não for tocado por uma certa magia, apenas por razão pura, não o aguentaria um mês. Não me interessa minimamente a cabeça de alguém única e exclusivamente racional, frio, calculista e prático, apesar de me dar imenso jeito para lidar com o mundo lá fora, que me enche de tédio.

Um dos livros que ando a ler versa sobre a temática homens e mulheres, feminino e masculino psíquicos. E a influência que o masculino não integrado nas mulheres e o feminino não integrado nos homens tem num relacionamento. Foca sobretudo no relacionamento amoroso, mas dá perfeitamente para transpor para qualquer outro. Entre um homem e uma mulher, sejam pais e filhos, amigos e amigas, colegas e conhecidos. Onde há relacionamento entre duas pessoas, há masculino e feminino a dobrar.

Diz o autor a certa altura que sabemos que estamos perante uma projeção quando nos fascinamos por alguém. E que precisamos de recolher a projeção, reconhecendo em nós a característica projetada. É para tomarmos contacto com partes nossas que desconhecemos que as pessoas vão aparecendo e desaparecendo da nossa vida.

Houve tempos em que fui apologista incondicional dessa apropriação, fosse a projeção negativa ou positiva. Proporcionava-me uma sensação de segurança, de controlo sobre a situação, as minhas emoções, comportamentos e sentimentos, fazendo de mim mais completa. Hoje, o que me deixa leve e solta é esse estado de encantamento, fascinação, independentemente de gostar de me saber livre e independente. Ao mesmo tempo que me fascina a possibilidade de não deter poder algum sobre uma situação.

É como ouvir Diana Krall até aquelas duas ou três músicas em que parece a Amy Winehouse deixarem de me surpreender. Ou a melodia me entediar. Ou comer o mesmo prato até descobrir outro que me puxe. O puzzle, tenha ou não consciência, ficou completo, quando passo dessas micro-obsessões para outras. O que quer que seja que simbolizavam psiquicamente está devidamente enraizado, integrado, no seu lugar.

A diferença quando entra outra pessoa na jogada é que são duas cabeças a decidir e não apenas uma. A ruptura acontece sempre antes que o nosso frágil ego se sinta capaz de sobreviver sem aquela fantasia. O que já não tem assim tanta graça, apesar de conter em si uma certa beleza e até alguma poesia…

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