A meio do caminho

16/09/2021

A meio do caminho, e já com coisas para deitar fora programadas até ao dia 22, posso dizer que o desafio me tem trazido mais liberdade do que ansiedade.

Quando falei nele a algumas pessoas, responderam-me que iria ficar sem nada.

Ledo engano. As pessoas menosprezam a nossa imensa capacidade para acumular coisas de que não precisamos, não nos fazem falta, das quais nem nos apercebemos. Pelo menos conscientemente.

Nunca fui acumuladora.

Pelo contrário, sou muito mais desapegada. Tanto que não me resta assim tanta coisa da qual me desfazer. O que aconteceu logo nos primeiros dias. Muito porque me desfaço de coisas com alguma facilidade e relativa regularidade.

Ainda assim. É muito o que acumulamos.

Em gavetas que não abrimos, armários que não visitamos, prateleiras às quais não chegamos.

Na falta de coisas, revemos depósitos antigos, resquícios de memórias esquecidas em objetos empoeirados e amarelecidos. E encontramos muita coisa à qual nos apegámos por motivos vários, porque foi cara, porque nela fomos felizes, por termos esperança de com elas voltarmos a contar.

O desafio dá o empurrão de que precisamos para delas nos livrar.

A meio do caminho, decidida a avançar, voltei a ouvir CDs antigos, no único sítio onde ainda consigo fazê-lo: o carro. E, mesmo tendo uma entrada USB onde posso ligar uma pen com zilhares de bytes de música, dei por mim a adorar ouvir os EBTG sem interrupções. De vozes ou dos meus dedos, a quererem andar com as músicas para a frente.  Sem controlar o processo, só a desfrutar do mesmo.

Para o dia 30, guardei tudo o que posso vender.

As coisas materiais, por ocuparem espaço, são mais óbvias de identificar. No entanto, o desafio aqui é outro. Não só o de libertar espaço físico, mas, e acima de tudo, espaço emocional.

Para os dias 25 a 28, tenho reservada a tarefa de re-visitar emails que acumulei, no caso de ter de um dia me defender. Com o intuito de os mandar todos fora, sem medos.

Não preciso de provas materiais para me defender de ataques emocionais.

Se não aprendi à primeira nem à segunda, talvez precise de uma terceira. E não é o acumulo de emails que me vai safar. Por outro lado, se deles me libertar, pode ser que me livre também da emoção que me fez a eles apegar. Essa parte de mim que sente necessidade de se defender e proteger de ameaças, tantas vezes imaginárias, fantasistas, ilusórias.

O apego a uma parte de mim que se calhar já nem existe, porque entretanto cresceu e já não precisa de recorrer ao material para justificar o emocional. Sedimentando a sabedoria intuitiva e instintiva que, quando somos novos, precisa do racional para se validar.

A meio do caminho, temos de voltar ao passado para poder aguentar o presente avançar em direção ao futuro.

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