Uncategorized

A questão da autoridade

16/04/2012
Quando uma pessoa que nos é querida é estúpida connosco, não nos considera, e nós não nos sentimos capazes de responder, o que estamos no fundo a fazer é a dar-lhe poder para decidir por nós. Endeusamos o outro, desconsiderando-nos. No fundo, achamos que o outro sabe o que é melhor para nós, conhece-nos melhor do que nós mesmos, comportando-nos como se não tivessemos escolha, como se o outro fosse dono da razão… Nós temos sempre, sempre escolha. Quem acha que não tem escolha é quem adota um comportamento de vítima**, esquecendo-se que pode sempre, sempre trocar a lente, ver as coisas através dos seus olhos e não apenas dos olhos do outro.

Na grande maioria das vezes não nos apercebemos, sentindo apenas que a coisa não nos cai bem,. Não queremos responder na mesma moeda, porque isso nos causa desconforto, não achamos certo, dói-nos que aquela pessoa que achamos que gosta de nós nos trate de uma forma que não merecemos, sem amor, cuidado, carinho, a base de todas as relações afetivas. No entanto, não responder também nos deixa mal. Quando nos cansamos dessa atitude, repetida uma e outra vez pela mesma pessoa, e nos afastamos, por falta de solução melhor, o que estamos na verdade a fazer é a tentar recuperar o nosso poder pessoal. Com ele totalmente recuperado, ou seja, com a nossa individuação bem resolvida, o outro [e todos, absolutamente todos os outros, o padrão já se quebrou] pode berrar o que quiser que nós somos perfeitamente capazes de lhe responder, de uma forma civilizada, de uma forma que não o agrida, mas que faça com que nos respeite na nossa individualidade*. Caso isso não aconteça, normalmente acontece, ele não espera uma reação tranquila e equilibrada, problema do outro. É sinal que essa era uma relação de poder, nós não queremos mais isso e o outro não está preparado para encarar o nosso novo eu. Está tudo certo em virar as costas e darmo-nos ao direito de sermos felizes, sem guerra, sem culpa, sem martírio mental. Deixando espaço ao outro, um adulto como nós, para que continue nessa infelicidade absurda e sem sentido ou faça alguma coisa por si, já que nós não conseguimos fazer nada por ninguém que não queira verdadeiramente melhorar de vida. Que acha certo e normal desatar aos berros por tudo e por nada. E a única vida que temos obrigação de melhorar é a nossa, só a nossa… 

*Isto sim, é o verdadeiro poder, onde não cabe gritaria, insulto, ofensa, agressão,  imposição e todas as outras formas de dominação pela força. Este tipo de poder não pretende dominar, pretende chegar a um único caminho: liberdade, a verdadeira…

**Comportamento de vítima, não vítima de facto, que as há, nomeadamente as de conduta criminosa…

You Might Also Like

  • Diana 16/04/2012 at 13:31

    Caramba. Revi-me tanto neste texto que fiquei impressionada.

  • Simone 16/04/2012 at 17:00

    Obrigada por isto.

    • Isa 16/04/2012 at 17:03

      you're so very welcome

    error: Content is protected !!