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A Solitude é um engodo

27/03/2014

Não há pior solidão do que a de um doente. É muito triste a sua solidão. Estamos ali, quase tão vulneráveis quanto um bebé, solitude-5sozinhos com a nossa dor, as nossas várias dores, nas costas, nas pernas, de cabeça, de ego, a maior de todas. Nada como uma gripe matadora para nos obrigar a pôr os pés no chão e a pensar a sério na vidinha. Os pequenos demónios vermelhos aproveitam o ego em modo sleep e dançam na sala, tapando os dentes com a mão, para não os ver rir, aos cochichos, a ver se me impressionam. O Master demónio só assiste, já mandou uns carrascos soprarem-me umas coisas ao ouvido, mas mantém-se na dele. E a pessoa ali estendida, sem forças sequer para se levantar, pernas de gelatina, a pensar que o que é importante nesta vida é alguém que te faça festas na cabeça enquanto tu deliras de febre, te traz sumos de laranja, porque é a única coisa que te apetece ingerir, isso e água, nada mais. Comida zero, uma sopa ou outra. Te orienta os comprimidos e certifica-se de que não tens uma overdose, aproveita e administra o frasco do xarope, adoro xarope, que comprei ontem e já vai a mais de meio. Raramente tomo químicos, mas depois do estado em que adormeci no domingo e acordei na segunda-feira, desconfiei que só lá ia na base de tratamento estalinista. Que não se importe de te abraçar, mesmo que tenhas suado horrores por causa dos ilvicos e não tenhas conseguido tomar banho. Sabendo que há coisas bem piores… O amor também é isso, na javardice e na higiéne. Que te ponha vick vaporub no peito e tu ponhas um bocadinho em cada narina só pra dar aquela brisa básica e conseguires voltar a respirar, de preferência que te traga aspirinas com açúcar, que era o melhor de estar doente, as aspirinas do meu pai.

O amor é aquela cena do Brad Pitt no Babel. E é a nossa megalomania cerebral com pretensões de imortalidade que nos impede de o ver. Festinhas na cabeça, só isso.

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