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A sorte proteje as pessoas boazinhas

21/08/2007

– O Ambrósio não tá bem a ver o que me aconteceu ontem…
– ?
– Eram 5 da manhã, estava a vir pra Lisboa, acabara de passar a última rotunda mesmo antes da A5, e eis que vejo o ponteiro da temperatura a subir anormalmente. Felizmente há uma bomba. Abro o capot e vejo que o depósito do líquido do radiador estava vazio. Largo 5 euros por uma garrafa daquele líquido anti-congelante, abro o depósito, deito lá pra dentro, fecho e ligo o carro. O ponteiro desata a subir a uma velocidade anormal outra vez.
– Ó Senhora, tou besta com os seus conhecimentos… Não é a Deus que tem de os agradecer pois não?
– Mais ou menos, Ambrósio, devo esta lição sobre radiadores e líquidos, ponteiros e ventoinhas ao meu queridíssimo amigo B de quem tenho muitas saudades.
– E depois Senhora.
– E depois deito o resto do líquido e largo mais 5 euros por outra garrafa. Aquela merda desaparece em três tempos, outra vez… Começo mesmo a ver a minha vidinha a andar pra trás… A Senhora da bomba diz-me pra ver se não terá sido a cabeça da junta trálálá que queimou. eram 5 da manhã, Ambrósio…
– E depois?
– Depois é que foi lindo, tive a sorte de haver dentro da bomba um homem que devia ser mecânico, que estava de folga e que fez questão de mo dizer 3 ou 4 vezes. Desta vez foi a água que é mais barato. A merda do tubo do radiador estava solto ou assim. E ele pr’ali a dizer que estava de folga e que não costumava fazer isto. E eu à toa, a ver-me ir de taxi pra Lisboa.
– Era por ser uma senhora, não?
– Quais quê, ainda por cima diz-me quase aos gritos, estava a ver que ainda levava uma chapada, que não gostava de mulheres. Estive pra lhe perguntar se era gay mas achei melhor não… Parece que não gostava de mulheres porque tinha 5 em casa… Cheio de sorte, a maior parte dos homens só tem uma…
– Ai Senhora, e depois?
– E depois perguntou-me a que velocidade é que eu estava a pensar ir pra Lisboa. Respondi-lhe que iria à velocidade que pudesse. Que puder não, não vai a 200… Perante isto e porque a ajuda deste homem:estou-de-folga-não-costumo-fazer-isto-
não-gosto-de-mulheres-ora-agora-a-minha-vida-era-só-o-que-faltava me estava a ser preciosa, achei por bem não dizer nem mais uma palavra, nem mesmo para o relembrar que foi ele que de livre vontade me veio ajudar. A verdade é que o homem refilou todo o santo tempo, sem resposta, resmungava e grunhia mas resolvia o problema. A senhora da bomba foi uma querida, ainda lhe respondia, toda bem disposta, ainda me deu mais uma garrafa cheia de água pró caminho. Depois de apertos e desapertos do tubo, ande com o carro prá trás e pare, aperta daqui e dali, ainda por cima isto está quente e tal, o homem vai-se embora e já ia a 500 metros de mim quando me disse: pode ir-se embora e vá a 80.
– Há pessoas assim, Senhora, bufam bufam mas está-lhes no sangue. Têm de se queixar pra serem felizes, pobre homem. Mas, a 80, Senhora?
– Pois é, Ambrósio, e se não fosse ele ainda agora lá estava… Sim, a 80, Ambrósio, nunca aquele caminho me pareceu tão longo. Atenta ao ponteiro da temperatura e lá fui eu. Um pesadelo, Ambrósio, um pesadelo…
– Mas teve muita sorte, Senhora, muita sorte.
– Foi Deus, Ambrósio, foi Deus…
– Deus o tanas, Senhora, foi o Amigo B em primeiro lugar, a mulher da bomba em segundo e o homem mal disposto, que ainda estou pra perceber o que é que fazia ali às 5 da manhã se estava de folga, em terceiro.
– Fale a sério, Ambrósio, foi Deus, isto não pode ser só sorte. Só de pensar onde é que isto me poderia ter acontecido até tremo…
– Tá bem, Senhora, é como a senhora quiser. Eu acho que é porque merece.
– Pois mereço, Ambrósio, que sou muito boazinha. Mais boazinha do que eu só mesmo a Maria Barroso ou a Manuela Eanes.

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