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A verdade da mentira

19/01/2016

A mentira é uma incapacidade de quem mente de lidar com algo seu, que não aguenta, de que não gosta, com o qual não se identifica, que não cabe na frágil concepção que tem de si mesmo. E ainda que ninguém goste de se sentir enganado, a mentira e a traição são, portanto, um problema de quem mente e trai, não de quem é enganado e traído.

Independentemente do que leva à traição ser eventualmente da responsabilidade de ambos, a ação fica com quem a pratica, já que há sempre alternativas à mesma. Já a mentira, pode simplesmente ser um modo de vida. Serve de proteção, a de quem mente e a de quem é enganado, mas fica sempre, sempre como um peso na mente de quem mente.

Não é despicienda a importância que o coletivo, a nossa persona, a nossa personagem e condição públicas, têm na nossa vida, independentemente de nos importarmos ou não com o que os outros pensam da forma como levamos a nossa vida e com o que dizem de nós nas nossas costas. E essa pessoa pública é algo que devemos proteger e manter, no alto, sob pena de vir a influenciar tudo o resto e fazer de nós umas marionetas nas mãos dos outros. Mas não é de todo aconselhável que seja ela a ditar as regras. Até porque o que ela quer é o que agrada ao mundo coletivo, que está longe de nos preencher de verdade. E nenhum relacionamento se sustenta com base na persona e no ego, simplesmente não tem pernas para andar, não se estabelece vínculo, sem o qual não há relacionamento possível.

Diz-se da mentira que tem perna curta, que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Como também sabemos que, independentemente disso, o envolvimento emocional que temos com alguém que mente é, para muita gente, mais forte do que tudo o resto, seja ele baseado no que for. E que enquanto estivermos emocional e psiquicamente envolvidos e comprometidos, não há descoberta de mentiras que nos salvem, se o outro se mantiver presente. O envolvimento emocional só acaba quando a pessoa morre no nosso coração, e o envolvimento psíquico, quando eventualmente recolhemos a projeção. Depois disso, podemos escolher ficar ou partir, dependendo do vínculo que estabelecemos, mas o nosso comprometimento, a nossa dedicação, nunca, nunca mais serão os mesmos.

Quem se sente diminuído além da conta pela mentira alheia está, à partida, a reagir de acordo com uma identificação exacerbada da sua identidade total com o ego e a persona, que, como já estamos cansados de saber, são uma ínfima parte da nossa identidade total. Quem está de coração num relacionamento pode apenas lamentar e até sentir uma certa compaixão por quem mente. E decidir o que fazer com isso, permanecer até deixar morrer ou ir embora e aguentar o sofrimento sozinho.

Apesar da mentira ser uma espécie de traição, a quem mente e a quem é enganado, a traição implica algo mais, implica perda de confiança emocional que, como sabemos, é a base de qualquer relacionamento, ainda que continue a ser um problema bem maior para quem trai do que para quem é traído. Quem é traído tem de arranjar forma de fazer as pazes com o seu ego, quem não aguenta a traição, e com o seu coração, para que possa voltar a confiar de novo.

Mas se quem é traído pode, com tempo, paciência, confiança e entrega, voltar a ser feliz, quem trai e mente como forma de estar na vida não tem quaisquer hipóteses. O peso, a culpa, vão sempre ser maiores do que tudo o resto, independentemente da pessoa que tenham ao lado, saiba ela ou não do seu passado.

Quem é enganado e traído, mais tarde ou mais cedo, percebe que o problema não é exclusivamente seu, cansa-se e vai à sua vida. Quem trai e mente tem de lidar com isso para o resto da vida. É a nossa cabeça que não nos vai deixar em paz, é ela que nos vai punir, é em nós que a coisa pesa, nos determina os passos, nos condiciona as ações, nos permite ou não entregarmo-nos de corpo e alma às experiências que a nossa psique como um todo nos obriga a viver. Sob pena de nos afastarmos cada vez mais de quem somos na verdade e na essência e nos tornarmos cada vez mais um produto dos nossos traumas, dos nossos desgostos, das nossas tristezas, do nosso sofrimento. E não há maior peso, maior desperdício de vida do que esse.

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