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Acolhimento

23/08/2013
Se partirmos da premissa de que temos um bocadinho de cada pessoa com quem nos relacionamos, até mesmo virtualmente, mesmo que seja uma relação de alguma forma unilateral, no sentido de apenas o lermos sem que necessariamente interajamos – e isso poder ser verdadeiramente assustador (projeção negativa) e por outro lado maravilhoso (projeção positiva) – vale lembrar que nem toda a gente com quem nos relacionamos serve para a mesma coisa. 
Há amigos pra copos, pra discutir a metafísica, para resolver os problemas da civilização ocidental, pra falar de assuntos comuns aos intervenientes, pra sair pra fazer desporto… E há amigos, e são muito, mas mesmo muito poucos, com quem podemos falar do que nos apetecer, nomeadamente o mais difícil, as nossas fragilidades. Gente que goste verdadeiramente de nós, acima de tudo, independentemente do que nos une (identificação ou compensação), gente bem formada o suficiente que não só não vai andar a divulgar as nossas fragilidades por aí, como não se aproveita delas para se tornar mais forte, ou para fugir de si mesmo… Reconhecer quem dos nossos círculos é capaz de simplesmente nos acolher, nos abraçar, nos olhar com empatia, sem querer resolver o nosso problema, sem querer viver através de nós…, contribui certamente para uma melhoria dos nossos relacionamentos. 
Não se trata aqui de querer que o outro nos diga o que queremos ouvir, mas de acolhimento. No sentido em que entendemos empaticamente o outro, mas confiamos e acreditamos nele o suficiente, mesmo que ele não confie e não acredite, que é perfeitamente capaz de resolver o problema ou a questão que o atormenta. 
Mudando a lente, cabe-nos a nós perceber os motivos escondidos que nos levam a comunicar da forma que comunicamos. Talvez o mais difícil seja isso mesmo, a forma mais ou menos honesta como o fazemos. E quando falamos de honestidade estamos longe da conotação que lhe foi atribuída, em que nos arrogamos o direito de ser umas bestas uns para os outros… A honestidade de que falamos aqui é emocional. 
A nossa comunicação com os outros é feita de várias formas. Uma é o que dizemos, outra é a nossa linguagem corporal – que nos diz exatamente qual é a atitude do outro (e a nossa…) em relação ao que nos está a dizer e ao que está a ouvir – e a outra, e é aqui que mora o monstro, é o nosso inconsciente, que comunica o tempo todo com o do outro, sem que sequer nos demos conta. 
Se inconscientemente nos pomos numa posição de inferioridade (ou superioridade, o complexo é exatamente o mesmo) a resposta do outro vai ao encontro do que estamos a comunicar inconscientemente. O que normalmente dá um péssimo resultado… 
Da mesma forma, quando o objetivo da comunicação é emocionalmente desonesto, no sentido em que queremos apenas manipular o outro, usá-lo, para servir apenas os nossos propósitos e as nossas neuroses, o inconsciente dele também percebe. E é aí que a resposta sai ao lado do que queremos ouvir, frustrando os nossos objetivos e provocando uma reação muitas vezes intempestiva da nossa parte. É aí que sabemos que acertámos na mosca… 

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  • Bocagiano 25/08/2013 at 01:46

    Começo a ficar fascinado com estas interpretações do quotidiano. :)

    • Isa 25/08/2013 at 02:02

      :)

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