E agora, quem vai pôr-me na ordem assim?

01/11/2016
Ainda o pão por deus*…
Ontem, o meu pai disse-me que não se lembrava de nada, quanto às tradições de 1 de novembro, acrescentando que: Lá no “extremo norte” não existiam, que me lembre, quaisquer tradições infantis “meio folgazonas” relacionadas com o culto dos mortos.
Eu, na minha arrogância, respondi-lhe que era dia de todos os santos, o de finados é dia 2.

Agora, quando cheguei a casa, tinha uma resposta dele, que era esta:

…quando, há 55 anos – em 1957 – cheguei a Coimbra, contactei pela 1ª vez com as tradições relativas aos “fieis defuntos” ou “santos”.  Eram ranchos de miúdos entre os 7/8 e os 13 anos  que ao cair da noite pediam à porta das casas cantando:
      “bolinhos bolinhós
       para mim e para nós
       e p’ra dar aos finados
       que’stão enterrados
       aos pés da bela  cruz
       para sempre Amén Jesus”
 
depois recebiam as dádivas habituais – frutas, às vezes doces e, mais raramente, algum tostãozinho.
 
E é só disto  que me lembro para além, claro, na minha infância, em (…), das animadas visitas aos cemitérios com as correrias do coveiro atrás dos rapazes que se entretinham a tocar furiosamente numa sineta junto à capela. As pessoas, em geral, comportavam-se com respeito e decoro. Excepto os ciganos que invadiam o cemitério em grandes grupos e junto às campas dos seus defuntos, manifestavam o seu desgosto com se tivessem acabado de morrer. Homens e mulheres soluçavam em alta gritaria por entre o som da sineta e as correrias dos rapazes perseguidos pelo coveiro.
 
Admiro-o por muitas e muitas qualidades, mas talvez a que mais lhe admiro seja a humildade, que se reflete em muitas coisas, nomeadamente na capacidade que tem de jamais, jamais, se pôr em biquinhos dos pés quando corrige alguém. É preciso ser-se muito inteligente, e muito humilde, para saber pôr uma pessoa no lugar dela sem a diminuir, sem se pôr em bicos dos pés, sem se sentir superior.
*7 de novembro de 2012
  • Su 07/11/2012 at 20:34

    De facto, em Coimbra, existe a tradição dos bolinhos e bolinhós. Imagino que o pão por Deus seja o seu equivalente em Lisboa.
    Mas também tenho que admitir que as saudades da blogosfera pelo pão por Deus devem ser iguais ao fenómeno bola de berlim na praia no Verão. De repente, todos os bloggers, independentemente de onde sejam, cresceram nas mesmas praias e com as tradições.
    A minha

    • Isa 07/11/2012 at 21:03

      Boa, Su, nem mais :)

    • Isa 09/11/2012 at 01:43

      Ah, esqueci-me de te dizer, a mim era a Graça dos Bolos, da praia de Carcavelos, podia escolher um diferente todos os dias, normlmente escolhia o maior :D

  • Renata 02/11/2016 at 15:55

    Adorei a história. E seu pai. :)

    • Isa 02/11/2016 at 15:59

      é uma referência sem igual na minha vida e difícil de a imaginar sem ele, que me punha na ordem sem nunca me agredir… Obrigada :)

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