Alimentar os autores vivos

19/12/2016

Ontem de manhã estava no facebook e aparece-me um post do Bruno Vieira Amaral, autor, com um link para um artigo sobre os melhores e os piores livros de 2016. Por curiosidade e porque gosto dele, fui ver.

Deparei-me com uma série de cronistas a quem com certeza foi pedido o mesmo artigo. Qual não foi o meu espanto quando lá vejo gente a falar de autores como Proust, Lispector, Orwell, Nelson Rodrigues – Portugal descobriu-o este ano, porque a Tinta da China editou uns dois ou três livros dele, a preços de autor nacional vivo, quando o homem já morreu há uns anos valentes -, Dickens… E lá percebi finalmente que eram livros editados ou reeditados. Não necessariamente lançados este ano. O que me parece um pouco triste, ligeiramente preguiçoso e um bocadinho pelo seguro. Apesar de valer o que vale. E de estar plenamente convencida de que mais de metade das pessoas que diz ter lido Proust não o ter lido de todo.

Depois, lembrei-me que paguei 25 euros pelas obras completas de Ricardo Reis, sendo que já passaram 70 anos sobre a morte de Pessoa, daí que os direitos de autor já nem sequer vão para a família, e pior fiquei. Independentemente da edição ser linda, tudo aquilo já existe. Há anos…

Vale lembrar que os direitos de autor são 10% do preço de capa, quando não 5%… Que o livro do Ricardo Araújo Pereira esgotou no dia em que foi lançado e só deus sabe se haverá e para quando uma segunda edição. Espero que seja para amanhã…

De resto, dá-me ideia que os cronistas se centram nos últimos três meses do ano, mas não posso jurar…  

Se puderem ser nacionais, tanto melhor.

Por conta das festividades, estive na FNAC para comprar um livro por causa da única corrente em que entraria, de livros. Era para trazer Hermann Hesse, nomeadamente o Lobo das Estepes, a instrução era para oferecermos o nosso livro preferido. À última da hora, lembrei-me de oferecer o melhor livro que li este ano. É a segunda vez que o faço. E não sei quantas pessoas já o compraram por referência minha, sei que foram algumas. Por ter sido lançado este ano, ser de um autor português, vivo, e que, por mim, vivia da literatura. Por isso lhe compro os livros, porque gosto dele e quero que escreva o mais que puder enquanto cá estiver. Se deus quiser, há de ser até aos 90 e tal anos.

Felizmente para mim, porque de Hermann Hesse só havia o Siddartha e o Narciso e Goldmundo.

Estive uma boa meia hora a olhar para a literatura lusófona. Lá vi tudo e mais alguma coisa de Eça de Queiroz, edições novinhas. Dois do Nelson Rodrigues e fiquei com a sensação de que havia lá muito mais mortos do que vivos.

Chateia-me esta valorização dos mortos depois de serem não tão valorizados assim em vida. É em vida que precisam de pagar contas, de se sentir amados, queridos, valorizados.

Ainda mais por causa de uma campanha que me passou à frente dos olhos no facebook e que mostra de forma inequívoca o modo de vida [selvagem] de um autor e os malabarismos que tem de fazer para escrever e comer.

E chateia-me esta ditadura do mercado, de andar uma população inteira à mercê do que as editoras querem vender e não necessariamente do que o público quer consumir. O mercado parece-me uma boa desculpa para se mandar e desmandar na liberdade das pessoas de lerem o que quiserem. Já para não falar, outra vez, no convite que é à pirataria.

E é por estas e por outras que talvez nunca chegue muito longe. Mas isso é tema para outro artigo.

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