Antes e depois de Chappelle

29/08/2021

Há o Stand Up Comedy antes e depois de Dave Chappelle.

Via o nome com frequência, evitei até não poder. Ouvi outro stand up comedian a referir-se a ele, de forma elogiosa. Humorista esse bem doido, do estilo que gosto, sem medos. Mesmo que não concorde, muitas vezes me incomode, há verdade no que diz, nem que seja só a sua. E, mesmo assim, ignorei.

Todas as obsessões têm um propósito.

Representam um símbolo, uma forma de conexão, mesmo quando autodestrutivas. E o Stand Up, neste momento da minha vida e do mundo, e da minha posição face ao mundo, mesmo que este se esteja borrifando para que eu viva ou morra, não é diferente.

Sempre que não se transformam em vícios, as obsessões são temporárias. Permanecem enquanto o símbolo nos fala à alma, mesmo que a consciência não perceba.

Simplesmente obedece, rendida a um propósito maior.

Também têm o seu tempo de gestação no inconsciente. Até o ego estar preparado para as ouvir e integrar. E uma língua própria, para o rei da consciência não se assustar e fugir, rejeitando o próximo degrau no processo de individuação.

Houve humoristas que, apesar de saber por que vi, não sei como aguentei.

Como o Anthony Jeselnik, que é completamente alucinado. Mas tem uma voz incrível e uma maneira de falar muito cativante, o tom, o sotaque, a postura. Apesar de parecer um psicopata, às vezes. Dei por mim fascinada a olhar para a boca dele, encantada com o som da sua voz. Fiquei um bocadinho preocupada com o poder que aquele tipo de masculino ainda exerce sobre mim. No primeiro Stand Up dele que vi, não sorriu uma única vez…

Até ver Dave Chappelle

Com ele percebi o que me encanta no Stand Up. Para além do óbvio, os Stand Up comedians estarem a falar diretamente connosco. E eu gosto disso. Identifico-me imenso com essa forma de comunicar, é o que faço sempre que escrevo.

E do que têm em comum com todos os artistas, o pensarem profundamente nas coisas que os fascinam – mesmo que sejam completamente idiotas – os atormentam, apavoram, e quererem ser ouvidos em relação às mesmas, perderem a vergonha de se expor, fazerem-no da forma mais construtiva e criativa possível, pela arte. Com o riso como bónus.

Essa é a minha única curiosidade em relação às pessoas

A todas as pessoas. Saber o que as fascina, encanta, lhes toca profundamente. O que as move, de verdade.

O que me encanta nos bons humoristas de Stand Up, os verdadeiros artistas, é a honestidade, a coragem com que falam a verdade. Às vezes apenas a sua, muitas vezes a verdade do mundo, que todos conhecem, sentem, intuem, mas ninguém tem coragem de fazê-lo. Ou fá-lo de forma tosca. Mesmo com a política de cancelamento. A verdade, nada é mais importante do que a verdade, a dignidade.

E o maior de todos é o Dave Chappelle.  

Um oásis num mundo cada vez mais chato, ofendido, vitimista, cheio de direitos e com muito poucas obrigações.

A grande diferença entre ele e os outros é o lugar de onde parte. 

Lugar esse que não é de ressentimento, amargura, vítimização, frustração, medo. Sequer projeção. De alguém que se calou quando queria ter falado, que engoliu o que não deveria ter engolido. Que sabe exatamente quem é.

O que faz toda a diferença na forma como comunica.

E no sucesso que tem. Mesmo depois de 12 anos afastado, continua a ser o rei do Stand Up Comedy americano. Recebendo, por isso, o prémio Mark Twain, no pun intended. Prémio esse o mais alto a que um humorista pode almejar.

A gente pode não saber o que é e onde toca, mas todo o nosso ser sabe-o. Até que a consciência o identifique e lhe consiga dar um nome.

Símbolo devidamente constelado, mensagem entendida.

Longa vida a Dave Chappelle.

error: Content is protected !!