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As casas dos avós

19/12/2005

Sempre achei deprimentes aqueles miúdos cujos pais e avós eram de Lisboa, por não terem, como eu, duas alternativas de casas para onde ir no Verão.

As casas dos avós são aquela coisa. Tive a sorte de ter uma no Ribatejo, com uma horta a sério, um jardim do qual a minha avó cuidou até morrer, com poço, dois tanques, porcos, vacas, coelhos, galinhas, cabras, uma mula, um cão – que ladrava sem parar e é até hje, ele e o meu irmão mais velho, responsáveis pelo meu semi-medo de cães -, etc, etc, incluindo uma nora. A lareira era na cozinha, de chão. Com direito a panelas penduradas nas paredes e tudo. Lembro-me de tomar banho no Tejo e de a minha mãe nos esconder os ovos da Páscoa e de termos de os encontrar. Os tanques faziam de piscina e o que eu gostava de passar o segundo tanque, aproveitar e beber a água mais fresca da minha vida, molhar os pés, passar a nora e girar os algerozes e correr pelo Tapadão fora, amarelo até perder de vista.

A outra era no Norte, com o Cávado por baixo, onde aprendi a nadar e a boiar. Com o portão de lanças e aquele pátio cheio de pedrinhas, que me parecia gigante e hoje não passa de um quadrado mínimo, com as uvas a cair dos ferros enferrujados, que os meus irmãos subiam enquanto eu os contemplava com um inveja tremenda por não ter o mínimo jeito pra macaco. Para subir a coisa teria de ter reentrâncias ou os meus braços não eram fortes o suficiente para me içar. Era uma festa. Do outro lado a rua da casa da ponte havia um parque infantil onde eu e os meus irmãos passávamos parte das tardes, enquanto não podíamos ir para o rio, andar de barco ou nadar até terra, meter os pés no lodo e descansar até termos fôlego para voltar.

A loja grande por baixo da casa tem os nossos nomes, dos primos que havia na altura em que ainda se lá podia entrar dentro sem correr o risco de a casa nos cair em cima, escritos na parede. Com datas. Lembro-me de andar de triciclo e de carrinho lá dentro. De espreitar pelos buracos no chão, directamente para o Inferno, nada mais do que uma adega/cave, onde tinha um medo de ir que me pelava. Acho que nunca lá pus os pés. Lembro-me de descer pelo corrimão e de me dizerem que o meu primo Z já lá tinha ficado preso por um pé, pendurado cá pra baixo. Lembro-me de me contarem que a S ligou o carro com a primeira metida e por um triz não foi ela e o carro parar lá a baixo, onde as mulheres lavavam a roupa. Que o T enfiou um braço pela porta de vidro adentro e cortou-se todo. Lembro-me do meu avô, a quem tinhamos de pedir autorização para nos levantarmos da mesa, e de se apanhar TV espanhola… Dos lanches intermináveis em casa das Primas, onde aprendi a andar de bicicleta, e da mansão que é a casa dos SL, com direito a fantasmas e tudo.

Uma delas já se foi e faz-me uma confusão do cacete que a outra esteja entregue aos bichos e, pior ainda, que vá parar a outras mãos que não as da família que a viu nascer ou as dos descendentes, que a associam aos verões em que o tempo simplesmente não passava.

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