Livre

As palavras que o vento não leva

11/12/2015

Não vale tudo nessa nobre arte da conquista. Ainda que as palavras, sem as ações correspondentes, pouco valham e quase nada signifiquem, não podemos ser levianos com elas. Não quando as usamos da boca para fora, desonestamente, sem as sentirmos, apenas para convencer quem quer que seja a gostar de nós, principalmente se não soubermos o que fazer com isso. As palavras que o vento não leva são as que mexem com os sentimentos dos outros, com a sua capacidade de se encantarem, de se apaixonarem, de se abrirem para a intimidade e eventualmente para o amor. As palavras que o vento não leva são as que vão ao encontro das feridas mais profundas e as amenizam, as protegem, as cuidam. E se não forem verdadeiras, sentidas, se servirem apenas para um propósito vil como ter um escravo emocional aos nossos pés, para nos sentirmos os maiores da nossa aldeia, ainda que não passemos de conquistadores baratos, são mal empregues, mal usadas, desperdiçadas, quase um abuso de um recurso cada vez mais escasso. E os recursos escassos são para ser usufruídos com parcimónia, não para ser deixados ao deus dará, usados de forma leviana. As palavras que o vento não leva são as que ficam presas a sentimentos que com coragem expressámos e que não foram tidos em conta como devem ser, mas sim usados para o mais vil dos propósitos, o do poder e o do controlo sobre as emoções alheias, sobre a capacidade de amar alheia, sobre a entrega alheia. E não há pior do que estimular a entrega do outro e não se entregar também, aproveitando-se da vulnerabilidade, do desejo, da fragilidade alheios em benefício próprio. As palavras que o vento não leva ecoam no nosso coração e na nossa cabeça por tempo demais. As palavras que o vento não leva têm o poder de nos fazer desacreditar, mesmo quando forem sinceras. É esse o poder das palavras que o vento não leva, deixarem-nos vazios, com os sentimentos adormecidos, até que consigamos voltar a acreditar que é possível que as palavras correspondam às ações.

Quem gosta de ti, quem te ama, não te confunde. Pode não saber, pode não ter certezas nenhumas, pode até estar confuso, mas não te confunde. Não se serve de ti e te usa contra ti mesmo, nunca.

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