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As saudades que já tinha do Inverno

03/12/2006

Mais precisamente destes dias cinzentos e chuvosos em que o bom humor impera. E começa logo pela manhã que não há melhor forma de começar bem o dia. O autocarro que nunca mais vem e a boa disposição a aumentar a olhos vistos. O ponto alto da manhã acontece quando se é alvo da condução cuidadosa de quem circula em Lisboa que, de tanta concentração, acaba por molhar todas as pernas que apanha pelo caminho, peões e peoas de calças e saias encharcadas e um frio de morte da água gélida das poças que, em pleno mês de Outubro, já se formam nesta Lisboa de sarjetas sempre tão limpas. É preciso gastar as energias acumuladas durante o sono e nada melhor que um insulto à boca cheia em português do mais vernáculo que nos conseguimos lembrar, ao condutor menos atento.

Ao fim de meia hora, 45 minutos lá vem o autocarro. Atulhado até à porta. É vê-los cheios de frio a empurrarem-se uns aos outros com os guarda-chuvas a pingar o tornozelo do utente mais aconchegadinho, já sentado há horas. Pontas de casacos de fora da porta, janelas todas fechadinhas e vamos embora que já é tarde. As travagens que fazem balançar todo e qualquer desgraçado que vai de pé são do melhor para quem gosta dos ânimos exaltados. Mais impropérios contra “o c&%$# do motorista que andam sempre com pressa estes f&%$$”. Com um bocado de sorte há quem arranje facilmente um lugar ao colo de quem já está sentado, que para gáudio da populaça, é sempre mais enfezadinho do que o mastodonte que invariavelmente lhe cai no colo.

Hora de almoço e a chuva que não pára.

E o que eu gosto de ver os insistentes que persistem em manter aberto um guarda-chuva que faz de tudo menos proteger da dita, com a ventosga que se tem feito sentir ultimamente. É vê-los quais heróis dos mares a puxar daqui e dali, varetas tortas e bamboleantes, guarda-chuvas a metros de proteger estes transeuntes que, certamente por gostarem de uma boa luta que nem a parca hora de almoço os demove, insistem em mantê-los abertos. A chuva apanham-na na mesma, a irritação cresce à medida que ela vai entrando nos ossos: “mas se trouxe o guarda-chuva ai vou usá-lo que não ‘tou para me constipar.” E mais vale insurgirmo-nos contra ele: “bela merda que afinal os gajos na feira bem que me enganaram!”

É linda a gincana nos passeios estreitos desta cidade secular com pessoas apressadas num sentido e noutro, de guarda-chuvas para cá e para lá, ora agora passas tu ora agora passo eu.

6 da tarde e aí está ela de volta, a nossa boa disposição. Ele é os transportes que não aparecem a horas; um trânsito insuportável; buzinadelas a torto e a direito; mais palavrão bravio: “sua besta então não está a ver que este c&%%$# ‘tá parado e tenho de me desviar? Não viu o pisca, c%#%$#&?”; carros que se espetam a cada 5 minutos; outros tantos que não param nos sinais vermelhos e muito menos nas passadeiras e aqui é ver finalmente a verdadeira utilidade dos guarda-chuvas e a atitude de um peão ou peoa mais aguerrido: “toma lá meu f&%$#.” E tunga, paulada no tejadilho “que é para aprenderes a parar nas passadeiras.”

E pronto, finalmente lá se chega a casa tarde e a más horas com o jantar por fazer e a roupa que não seca.

Mais uns dias desta chuvinha jeitosa e é ver as estradas cheias de verdadeiras crateras no alcatrão, jantes de carros a rodar mais do que os ditos, pneus furados, queixas e mais queixas contra Deus e o mundo e boa disposição para dar e vender, que é o que se quer.

Quero lá saber da agricultura e das barragens. Eu gosto é de ver a minha cidade alegre.

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