Uncategorized

Até sempre #Prince

22/04/2016

Fazia-me imensa confusão como é que alguém tão feinho e tão baixinho, que nem voz de homem digno desse nome tinha, fosse considerado sex symbol. Foi o que me afastou da genialidade de Prince por um bom tempo, juntando-se-lhe o facto de o achar um bocado javardo. Uma prima minha, fã incondicional, dizia inclusive que era lindo. Não conseguia entender, achava-a meio doida e talvez um bocado ceguinha. Até à faculdade, acho que ao primeiro ano. Uma amiga, grande apreciadora do baixinho feinho, disse-me que, depois desta música, a minha opinião iria mudar. Foi assim que conheci Sometimes it Snows in April. A partir daí, não ouvi outra coisa durante um bom tempo, cantando o Get Off e o Darling Nikki em alto e bom som. Entre mim e o meu irmão mais velho, contamos com uma boa coleção de discos. O último álbum de Prince que ouvi, e que tive, presente de Natal do meu irmão, chama-se Rave un2 the joy fantastic e é um som incrível. Antes disso, tinha comprado o Emancipation, contra o qual os veteranos de Prince reclamavam, dizendo que tinha perdido a piada toda agora que estava apaixonadinho e só falava de amor. Não me juntei ao coro dos saudosistas de Get Off, Emancipation, quanto mais não fosse por Betcha by Golly wow, por the most beautiful girl in the world, por one of us, tinha a garantia de que Prince continuava o mesmo, que o amor não lhe tinha toldado a noção de ritmo muito menos acabado com a sua natureza. Essa garantia estava em The Human Body.

“Produced, arranged, composed and performed by Prince.” Compositor, letrista, cantor, tocava todos os instrumentos e mais alguns, rei da performance, em palcos gigantes, o músico franzino de 1,60m era um génio, um artista completo, fiel a si mesmo e a tudo quanto lhe ia na alma, aceitando todos os desafios psíquicos e transformando-os em arte, executando-os com uma mestria única. Prince não se confunde com ninguém, abraçou vários estilos sem nunca se trair nem se vender – rebelando-se inclusive contra a indústria da música, numa guerra corajosa contra a ditadura das editoras, a Warner Brothers está aí para prová-lo – imprimindo a sua marca, do Blues ao rock passando pelo POP e o eletrónico, em tudo quanto fez, sendo ímpar nas suas composições e abordagens, voz incluída, instrumento único, que ia do feminino, quase falsete, ao grave. E macho, macho pra ninguém botar defeito.

Chegou tarde ao concerto de Lisboa, da tour de Emancipation, porque se tinha distraído a bater umas bolas de basket antes do show. Todos lhe perdoámos o delírio, foi um concerto memorável. Consegui finalmente entender, e ver, porque Prince era por muitas e boas considerado sex symbol, o carisma, os movimentos, a postura, o que fazia com a voz eram mais que suficientes para quebrar a figura baixinha e fisicamente sem graça de Prince, chegando esta quase a passar despercebida, tal era a sua magnitude.

Andei doida à procura do Sometimes it snows in April em vídeo, não há uma versão decente, Prince bloqueou tudo em nome dos direitos de autor, e só me apercebi disso agora, tudo o que ouço de Prince foi comprado. Fez ele muitíssimo bem. As pessoas menosprezam a arte, desvalorizam os artistas, o trabalho artístico e intelectual, acham que cai do céu, que não se dá o sangue, todo o tempo, que temos e não temos, a dormir e acordados, na rua e em casa, com os amigos e sozinhos. O trabalho artístico é permanente, não tem folgas nem feriados, o processo criativo é constante, seja de incubação, seja de execução, seja de aprimoramento, seja de finalização, sai do corpo todo, da cabeça e do coração, das pontas dos dedos, das emoções, de todas as terminações nervosas e muito, extremamente solitário. Mas o povo acha que o pessoal só se diverte. E desvaloriza, em absoluto. Principalmente tendo em conta a proporção da transcendência, do encantamento, da poesia, da beleza, do que a arte faz com todos nós, o que é pena. Sem artistas a serem pagos para fazer o que fazem, desde que se goste, bem entendido, artista nenhum quer favores, só quer ser reconhecido e apreciado pelo que lhe sai do couro, não há arte. Sem arte, a vida é uma chatice sem tamanho.

Manda um abraço ao Bowie, outro ao meu pai e nem precisas de me dizer que está a maior festa aí no céu, começa a estar-se melhor aí do que aqui, vontade de me juntar a vocês, só te digo.

victor

You Might Also Like

error: Content is protected !!