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Autoconhecimento

14/04/2015

Na sexta-feira passada, no governo sombra, o Ricardo Araújo Pereira dizia, com a humildade e a graça que lhe são características, que “era melhor não mexer”, referindo-se ao autoconhecimento e à eventualidade de umas consultas de terapia, para o caso é indiferente o tipo de linha a que se referia, por medo de perder o sentido de humor e a inteligência, dizendo: “vai que se me acaba o ganha-pão”.

Este é o medo de muita gente em relação ao autoconhecimento. Medo do que vamos encontrar, não é nada que não estejamos preparados para conhecer, é nosso, só o vamos tirar da sombra, dar-lhe um bocadinho de luz, para que o possamos controlar, para que não nos controle a nós; medo de deixarmos de ser quem somos, o que não acontece nunca, ao Ricardo ninguém lhe tirará o que é dele, é dele, isso não muda, e medo do nosso eu futuro, que desconhecemos, e do que será a nossa vida sem a neurose que nos faz companhia há tantos anos.

Bom, não existe um eu futuro, existe um eu, passado, presente e futuro, é o mesmo, é um só e nada, nada do que é verdadeiramente nosso se perdeu pelo caminho, muito menos irá perder-se com o autoconhecimento, antes pelo contrário, vai firmar-se até que se fixe de um jeito que jamais voltaremos a duvidar. O que acontece com o autoconhecimento – que é um processo para toda a vida, o que não implica que não avancemos no caminho, antes pelo contrário, e há que confiar no processo, que é sem volta, e isso é o melhor de tudo, o que seria da vida se fosse sempre igual, uma chatice sem tamanho – é permitir-nos decidir que rumo tomar, o que fazer, como e quando, e agir de acordo com a nossa vontade, os nossos interesses, o nosso propósito, o nosso objetivo de vida, que é pessoal e intransmissível. E não com o que algo exterior a nós decida, defina, dite.

O autoconhecimento também não é a desresponsabilização absoluta em relação aos compromissos que assumimos, connosco e com o coletivo, é, precisamente, a redefinição desse compromisso, individual e coletivamente, de uma forma mais profunda, que se prende não com o ego, mas com o Self, a alma.

O que mais acontece com a grande maioria de nós é vermo-nos numa situação em que achamos que não há o que mudar, muito menos como, tendo em conta os compromissos que assumimos, o emprego para o resto da vida, os filhos para criar, a casa para acabar de pagar. Depois dos filhos criados e orientados, arranjamos outro motivo igualmente válido para ficar no mesmo lugar. Acabando nós por nos dedicarmos a uma atividade para o resto da vida, que a certa altura já não nos preenche, satisfeitas as necessidades que se prendem com as exigências do mundo coletivo e as nossas necessidades mais básicas, nomeadamente, pagar contas, comer e vestirmo-nos. Deixando-nos inclusive frustrados, chateados e já não tão produtivos assim, ao mesmo tempo que nos sentimos presos a ela, sem bóia de salvação, horizonte ou satisfação de qualquer espécie. Caindo na tentação de que “a vida é assim” e “não há nada a fazer”.

E aqui estou eu pra vos dizer que nós mudamos de vida a qualquer momento, em qualquer idade. A qualquer momento e em qualquer idade podemos, e devemos, fazer o que quer que seja que nos complete, nos deixe felizes, nos faça esquecer do dia lá fora, das horas, até de comer. Todos nós temos uma atividade da qual gostamos e que nos faz sentir assim, e que se prende com o nosso propósito de vida. Descobrir qual ele é, como podemos vivenciá-lo em pleno, e eventualmente ganhar a vida com isso, se for esse o nosso desejo, é o grande objetivo do autoconhecimento, e o único e verdadeiro sentido da vida.

E deixo-vos com uma citação desse grande mestre Joseph Campbell, que prova que não deixamos de ser nós, que é falso que não tenha valido a pena, que é mentira que o nosso tempo tenha passado em vão, que prova que apenas nos ajustamos para melhor atingirmos o nosso propósito e descobrirmos o real sentido da vida de cada um de nós:

Descubra onde ela está, e não tenha medo de persegui-la. Pondo-se no encalço da sua bem-aventurança (Bliss, no original), você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem de viver é essa mesma que você está vivendo.

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