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Bastidores x Luzes da Ribalta

20/10/2012

Conhecemos várias, Donald e Kiefer Sutherland, Elis e Maria Rita, Glória e Cleo Pires, Gonzagão e Gonzaguinha e tantas, tantas outras “duplas” famosas do mundo das artes, sendo que é no cinema e na música que estão os melhores e mais conhecidos exemplos.


Quando se tem uma mãe como a Elis ou como a Glória Pires, duas divas da arte brasileira, cada uma na sua especialidade, e se resolve fazer carreira na mesma área profissional, as comparações são inevitáveis. E o filho ou filha tem sempre duas opções, ou se distanciar, romper o cordão umbilical com o progenitor, para achar o seu caminho sozinho e, depois então, ser livre para inclusive interpretar coisas do pai ou da mãe, ou colar-se à imagem do progenitor e viver disso. Em ambos os casos, há frustração. No primeiro porque demora para conseguirmos viver da nossa arte, é difícil conquistar um lugar na área que escolhemos para atuar, porque os tempos não são os mesmos, os recursos muito menos e o espírito da época nos exige coisas diferentes das que eram exigidas no tempo em que os nossos progenitores construíram a carreira deles, não querendo de forma alguma dizer que a vida deles foi mais ou menos fácil, simplesmente foi diferente, e tem de sê-lo necessariamente, os tempos não voltam, mesmo, para trás e os filhos, apesar da genética, são outras pessoas. No segundo porque, vivendo à sombra do progenitor e mesmo conseguindo algum sucesso, a frustração vem de não se fazer nada seu.


Muitas vezes o filho de alguém já famoso que resolve ingressar na mesma carreira tem a vida bem mais dificultada por causa do peso da referência externa que carrega e carregará consigo o resto da vida, se não conseguir desvincular-se do modelo. Às vezes acontece o contrário, como no mito de Dédalo, que não quis dar o lugar aos mais novos, foi contra, anulou o outro, em vez de o deixar seguir o seu caminho e, eventualmente, unir esforços lá na frente, se essa for a vontade de ambos, se ambos forem resolvidos ou descolados o suficiente para o fazer.


As comparações são inevitáveis, mas dispensáveis, se, por parte dos media, não temos como controlar isso, é bom que o façamos dentro de portas, do nosso coraçãozinho e, principalmente, da nossa cabeça. A comparação deve ser feita connosco mesmos, não com os nossos modelos. Obviamente, não se trata aqui de auto-referência, mas de auto-conhecimento. O valor que nos atribuímos tem de ser nosso, por comparação a nós mesmos, às nossas capacidades e ao que nos propomos fazer. A qualificação de melhor ou pior, em relação ao nosso modelo, pouco importa, quanto mais não seja porque é subjetiva. Já para não falar no facto de ao nos atribuirmos um valor inferior, escudando-nos no nosso pai ou na nossa mãe, estamos a viver na sombra deles, a usá-los, ainda que genuinamente convencidos de que apenas os admiramos.

Com pais famosos ou não, o que importa verdadeiramente é que paremos com as comparações com modelos externos e que sejamos o melhor que conseguirmos ser, por amor à arte, por amor a nós. Não se trata, então, de auto-referência, mas de auto-conhecimento, nomeadamente o tipo de coisa que aguentamos e não aguentamos, o nosso ideal e a forma como vemos as coisas.


Na segunda-feira passada tive uma conversa sobre o tema, questionava um músico e perguntava-lhe se ele não via como uma traição, à sua arte, o facto de fazer, ocasionalmente, jingles. Em momento algum o acusei de nada, muito menos o julguei, apenas questionei, porque, e admito, é uma questão minha. Como não é uma questão para ele, respondeu-me da forma mais civilizada do mundo, inclusive ajudou-me a pôr as coisas em perspetiva, mas, na última das instâncias, é com as nossas questões que temos de lidar, não com as dos outros. Na sequência, o Santiago vaticinou-me um futuro deprimente, no meio de dicionários, pro resto da vida. No momento, e porque, apesar dos níveis de tinto no sangue, a conversa era civilizada e ninguém estava ali com o intuito de agredir ninguém, pedi-lhe que me respeitasse e a essa minha forma de ver as coisas. Disse-lhe que não era uma questão tão incomum assim e que era bom que se preparasse pra ela, pois iria surgir nas aulas.


Independentemente de os desafios da vida serem vários e diferentes, à medida que avançamos na idade e no desenvolvimento psicológico, há questões que são nossas e são eternas, quase condições, sem direito a fatalismo, por favor, que existem, são reais, concretas, e, mais uma vez, é com elas que temos de lidar. Com o tipo de onda que seguramos, a Cleo Pires, por exemplo, segurou a onda de ser fotografada pra playboy, e do que pretendemos na vida, se dinheiro, sucesso, prestígio, uma vida tranquila e sossegada, e tal. E, apesar de as luzes da ribalta terem o seu lado tentador, há quem, por motivos vários, não segure essa onda, prefira outro tipo de vida, não deixando de fazer a sua arte, de acordo com o tipo de coisa que aguenta, que se coaduna, ou não, ao seu feitio, que quer para si. E nós resolvemos a nossa vida de acordo com o que nos serve, ainda que inconscientemente.

O que não dá pra fazer é dizer mal de uma coisa, negarmo-nos a isso e querermos reconhecimento por algo que nós mesmos não reconhecemos, no mundo externo ou interno. O que não dá é querer, esperar, exigir reconhecimento por parte de algo ou alguém que, inclusive, desprezamos… A questão é só essa. E é o que faz a diferença entre uma vida vivida na frustração, na traição a nós mesmos, ou, no limite, longe do nosso potencial pleno, e uma vida, pelo menos, um pouco mais nossa, com base no auto-conhecimento e, eventualmente, na nossa vontade de chegar mais longe.


Ainda assim, vivemos da forma que aguentamos viver, da forma que nos move, por mais que, às vezes, pareça que nos queixamos e que somos uns frustrados a vida inteira. O que acontece é que nós vivemos o que nos permitimos viver, de acordo com o tipo de onda que seguramos, da forma que encontrámos para seguir caminho, para o construir. Que é única, é só nossa, daí que a comparação com modelos externos seja não só desleal como desnecessária e sem fundamento.  O que importa é olharmos para trás e percebermos que evoluímos, que desenvolvemos um trabalho melhor, que fazemos cada vez mais e melhor, que conseguimos transmitir ao mundo a nossa arte, as nossas ideias, os nossos conceitos e a forma de os comunicar. O que importa é sermos melhor do que nós mesmos. Ou, no limite, fieis a nós mesmos. O que importa é que nos reconheçamos, independentemente dos outros. 

Saber tirar frutos desse auto-conhecimento é a grande ciência. Aceitar e viver com isso é, parece-me, a grande sabedoria. 

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