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Branco até nos olhos

28/08/2013
Estou num curso novo. Há livros de psicologia espalhados por todo o lado. Livros que já tinha comprado, ainda não tinha conseguido ler e agora se me afiguram úteis até dizer chega. Tenho tantos livros a meio, é uma vergonha… Gosto das aulas ao vivo, seria incapaz de fazer cursos online, agrada-me a possibilidade de conhecer outras pessoas, de as ouvir, às suas dúvidas e à forma como vêem o mundo. A única coisa que concebo em conjunto, isso e desporto. Eremita para tudo o resto, já se sabe. Reuniões sociais com o mínimo de gente possível, cinco pessoas já está de bom tamanho… A aula de hoje foi gira, original, diferente. Só uma apaixonada por Jung para dar uma aula assim, satisfazendo todas as funções de que somos feitos, sensação, sentimento, pensamento e intuição. O resultado foi uma aula com imagens, música e texto. Entre as músicas estava um poema do Pessoa que é dos meus preferidos, lido pelo saudoso Paulo Autran, reconheci-lhe a voz. Aquele em que ele diz que está farto de semi-deuses. Aprendemos mais com o Pessoa e a galera que morava dentro da cabeça dele do que com qualquer livro de psicologia. A forma criativa com que dava vazão à galera é uma inspiração, como é que ele os compartimentava tão bem é que não sei. A minha galera atropela-se, apesar de eu ser, como toda a gente, possuída pelos arquétipos, e não o contrário. 
Sou diferente, uma vez disseram-me que era diferente e eu acreditei. O gajo que me disse isso entretanto morreu, era tão querido… Hoje pintei a parte de cima dos olhos de branco, sim, branco até nos olhos, e a parte de baixo de preto. Ficou lindo, foi um acaso fortuito. Ontem tinha pintado a parte de baixo de branco e achei que ficou esquisito. Hoje ainda lá havia resquícios, deve haver um truque para tirar o lápis que fica preso nas pestanas e eu não sei. Não comprei o desmaquilhante da Filipa, comprei outro, que é anti-alérgico, mas pelos vistos não tão eficaz, era o que havia. Enfiei litros de coiso pelos olhos adentro e nada. Deixei estar. Hoje, quando pintei a parte de cima de branco, deu-me uma coisa e agarrei no lápis preto e pintei em baixo. Olhei pro espelho e comecei a rir-me. Fica giro, fica assim. Já experimentei dois traços pretos, um em cima e um em baixo, achei pesado. Também uso lápis azul. E prateado. Mas ficam esquisitos em baixo. Vou adotar o preto em baixo e os outros em cima. Sou diferente, não gosto de simetrias, dá-me siricuticos de ver coisas iguais, jamais uso calças de ganga e blusões de ganga ao mesmo tempo, nem sequer uso partes de cima e partes de baixo da mesma cor, nem mesmo quando são fatos, apesar de só ter um que já nem me deve servir, diz-se saia e casaco, acho eu, mesmo depois de uma amiga me ter chamado adolescente, porque combinei a cor da soquete com a cor da t-shirt. Havias de a ver, ela faz questão de misturar todas as cores e não combinar nada com nada, é engraçada, ela. Sou bem capaz de lançar uma moda, mas se isso acontecesse provavelmente deixaria de o fazer. Sou diferente e gosto, daí que não me hás de apanhar só com metade de um olho pintado, a não ser que o lápis falhe, mas aí não é por querer. Acho estúpido pintar metade de um olho, quero lá saber se é moda, ou tendência, ou lá o que é… Ainda não sei se hei de ou não afiar os lápis, tenho medo que com o meu talento me furem um olho, fazem-me tanta falta, os dois… O meu terapeuta mandou-me mostrar a alma, achei que o melhor era então embelezá-la um pouco, vai daí pinto os olhos. Gosto dos meus olhos, são castanhos, às vezes ficam verdes, quando choro ou quando há muita luz, grandes e bonitos, é talvez do que mais gosto no meu rosto, apesar da minha boca ser linda e do meu nariz não me envergonhar de todo, herdei o do meu pai, o da minha mãe é de judia. Já os olhos, herdei os dela, árabes, os do meu pai são pequeninos, minúsculos… Branco até nos olhos, diz que é sinal de pureza, talvez seja o que melhor qualifica uma alma, pureza, a que não sofre as influências do ego nem da persona, a que vem à luz depois do devido confronto com a sombra. Branco até nos olhos, para iluminar partes da sombra, diz que esconde potencial criativo para dar e vender. O branco é o novo preto. 

Dei-me ao trabalho de instalar o office antes de me vir embora. Chego aqui e não funciona. Gosto tanto da microsoft como de ter um psicopata a correr atrás de mim com uma faca na mão, num beco sem saída, escuro, às 4 da manhã. Estou, portanto, sem word. O que me trava imenso. Escrever diretamente no blogger causa-me algum desconforto, automaticamente sinto-me pressionada a publicar e isso é suficiente para me travar. O Surrender foi escrito à mão, por causa das coisas. Agora escrevo num programa básico de texto chamado prosaicamente: editor de texto. Não tem gracinha nenhuma, ainda por cima os comandos estão em português, sei lá eu onde é a gramática disto, a formatação, o diabo. É muito simples, cumpre a função e aos poucos vou-me habituando a ele. É branco, sem cores nenhumas a não ser preto. Branco e preto, sabias que os brasileiros dizem branco e preto, e não preto e branco? O meu editor de texto é branco e preto, como os meus olhos.

Para compensar o que andei até às aulas, o meu jantar foi um diamante negro de 300g, inteirinho. Podia comê-lo devagar, deixar derreter na boca, prolongava o prazer e comeria menos, era remédio santo para enjoar que nem um peru. Mas não o faço por prazer, foi por compulsão, sensação de satisfação imediata, apesar de estar mas é com uma azia dos diabos, à meia noite, tudo nas coxas, portanto. TPM feelings. Já te disse que sofro imenso de TPM? Então, sofro imenso de TPM…

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