Livre

Brian Jones

25/08/2015

Houve um momento na vida de Brian Jones, pouco antes da sua prematura morte, que me fez muita impressão. Jones era a alma dos Rolling Stones, o único que percebia minimamente de música, um artista inquestionável de tão bom, um compositor de mão cheia, um génio musical sem igual. Vivia no mundo experimentalista dele e explorava tudo o que lhe despertasse o mínimo de interesse, tudo o que pudesse tornar numa sonoridade mágica.

Há um momento em que os Rolling Stones se reúnem para ensaiar e Brian quer mostrar o que descobriu que poderia ser feito, em relação a uma música que os Stones tinham acabado de compor, com, penso eu, uma cítara, se não me falha a memória. Apesar das provas já dadas, dos excelentes resultados musicais conseguidos graças à contribuição que dava às músicas, com a infinidade de instrumentos que tocava, os outros não lhe ligam nenhuma. Já havia um tempo em que Jones estava meio desligado da realidade e a abusar dos barbitúricos, mas ele insiste e começa a tocar, virado para uma parede, e de costas para os restantes membros da banda, enrolado sobre si próprio, a tocar, a descobrir sons e, muito provavelmente, a construir uma sinfonia na cabeça dele, porque era isso que fazia, verdadeiras sinfonias… Os outros, querendo ensaiar, incapazes de o tirarem do mundo dele e de o trazerem para a realidade prática, o ensaio, eles iam dar um concerto, tinham forçosamente de alinhar o espetáculo, desligam o som da, acho, guitarra rítmica. E ele continua a tocar, simplesmente não percebe que os outros seguem sem ele e que está, a partir daquele exato momento, de fora. Posteriormente, essa saída é oficializada a pedido de Mick Jagger e Keith Richards. Brian Jones morre nem um mês depois…

Keith Richards é um excelente guitarrista, um executante, mas não é um músico, um instrumentista, como era Jones. Mick Jagger é um performer, tem uma imagem fortíssima, não só pela boca, a que alude o logótipo da marca Rolling Stones, nem mesmo pela voz, que é só dele, mas pelos trejeitos e por ser um verdadeiro animal de palco. No entanto, é também um grande empresário, não fosse por ele, estudou economia, inclusive, os Stones já há muito que teriam acabado. Mick tentou inclusive uma carreira a solo, rápido e sagaz, percebeu que não iria tão longe quanto poderia, e já tinha ido, com os Stones. Jagger e Richards formaram a dupla de letristas que persiste até hoje, afastando assim Brian Jones, o fundador da banda, quem definiu o som dos Stones e quem inclusive chamou Richards e Jagger para o grupo, dos holofotes.

Brian Jones era muito novo quando morreu, não acordou a tempo. Talvez por ser um génio e saber que fazia o que quisesse com uma guitarra nas mãos, e por isso não lhe faltar palco para tocar, com ou sem os Stones, aliado à sua alma de artista, só queria saber de conhecer tudo o que o artista que havia nele tinha para lhe mostrar, não dando importância a mais nada, nomeadamente ao facto de: genialidade sem os pés no chão preenche a alma, mas não põe comida na mesa. A Brian Jones faltava contacto com a realidade, pôr os pés no chão. Tinha de sobra o que falta à maioria das pessoas descobrir, mas faltava-lhe tudo para garantir a sua sobrevivência.

Não tenho dúvidas que exploraria tudo quanto a sua curiosidade musical, o seu dom, o desafiassem, mas tenho a plena convicção de que, se não tivesse morrido afogado por consumo excessivo de barbitúricos, morreria, cedo, de outra causa qualquer. Sobreviver não sobreviveria certamente, a realidade não perdoa e ele seria incapaz de lidar com ela. E é esse alheamento que me faz muita impressão e me fez sentir uma imensa compaixão por ele quando vi a cena. O que o matou foi o seu auto-centrismo quase obtuso, o mundo precisava daquele talento, daquelas sinfonias, e o que me fez impressão foi o facto de ninguém ter podido fazer nada por ele – como ninguém teria podido fazer nada por Amy Winehouse, por exemplo, enquanto ele, e ela, não percebessem que há o concreto para além do talento – porque os restantes membros da banda, de pés suficientemente assentes no chão e o foco no momento, tinham de levar um show para a frente, custasse o que custasse, nem que para isso tivessem de perder o único génio que os Rolling Stones alguma vez tiveram. Quem conhece bem a banda e tem um mínimo de sensibilidade musical e de ouvido, sabe do que falo. Nunca, depois de Brian Jones, a sonoridade dos Stones ficou tão aquém, independentemente da quantidade de hits, do sucesso deles, do que for. Musicalmente, Brian Jones era o segredo dos Rolling Stones. Mas sem um compromisso da parte deste, não haveria Rolling Stones que sobrevivessem à sua genialidade, ao seu dom, ao seu talento, à sua sensibilidade artística, à sua excelência enquanto instrumentista e compositor.

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  • Camila 26/08/2015 at 19:21

    excelente texto!

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