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Brideshead

13/09/2013

A raiz de tudo o que nos sabota, nos castra, nos tolhe, nos condiciona, nos mina está no passado e é emocional. No que apreendemos, no que ouvimos, no que registámos, nas associações que fizemos, no que decidimos, com meia dúzia de anos de vida, no máximo.

Mesmo não tendo grandes memórias de infância, por mais que nos esforcemos, o que, em tese, dificultaria o processo, a memória é como um elástico. Podemos achar que não nos lembramos de nada, que nada do que nos lembramos é particularmente relevante, que não há associações possíveis.

No entanto, se induzirmos a memória, se a estreitarmos em relação a um assunto, tema, crença, questão, quanto mais específica melhor, e nos dispusermos a pensar um bocadinho que seja no assunto, se fizermos as perguntas certas, porque é assim, quem nos disse que era assim, como é que isso aconteceu, o que significa, o que está por trás, que efeito tem na nossa vida presente, verificamos que é sem grande esforço que, de repente, frases que ouvimos, até mesmo associações que fizemos lá atrás, vêm para a consciência de uma forma claríssima, sem margem para grandes dúvidas. O que acaba sempre num momento: ah, é daqui que vem o negócio, foi assim que aconteceu, por isto que penso assim ou assado, ajo desta maneira ou daquela, não consigo isto ou aquilo.

Pouco importa quem disse o quê, não adianta de grande coisa culpar ninguém, só nos mantém na categoria de vítima, que não nos leva a lugar nenhum, onde não queremos estar nem ficar, por não nos resolver a vida, pelo contrário, faz-nos reféns.

O que importa é o que temos, o que se nos apresenta, a vontade que seja diferente e o esforço que estamos dispostos a fazer para o concretizar. Nomeadamente para nos enfrentarmos, porque é a nós quem temos de enfrentar, é connosco que temos de lidar, é a nós mesmos que precisamos de ver com outros olhos, por outra lente, mais ninguém. Aceitar e seguir em frente, sem vingança, sem mimimi, sem remorso, sem raiva. É essa a diferença entre uma vítima e um sobrevivente. Que é isso que nós somos, sobreviventes.

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