Bruno Nogueira e a Revolução do Amor

16/05/2020

No início do isolamento social decretado pelo governo português, o humorista Bruno Nogueira, para lidar com o que estava a acontecer, e, depois de deitar as filhas menores, entrava em direto no instagram para desabafar. Enquanto bebia um copo de vinho, numa tentativa de manter a sanidade mental e não deixar a criatividade morrer.

Foram dois meses de diretos, todos os dias, entre as 11 da noite e a uma da manhã.

Durante esses diretos, ligava a atores, humoristas, músicos e outras pessoas conhecidas do público, para conversar.

Foram inúmeros os que participaram.

Como a querida Mariana Cabral, Salvador Sobral, o ator Nuno Lopes, Nuno Markl, outros atores e humoristas. E até um radialista do Pólo Norte.

Já Beatriz Gosta, que também participou nos diretos, ficou, na última sexta-feira, encarregue de mostrar como estava o  espírito do Natal no norte do país.

Os diretos chegaram a atingir números incríveis: 60 mil pessoas a assistir.

Bruno Nogueira salvou a quarentena a muita gente.

Ao permitir que o humor convivesse com o temor e o terror. Ao chamar os amigos para conversar com eles, ao mesmo tempo que distraía as pessoas do medo e do pânico causado por o mono-tema da pandemia que assolou o mundo e o trancou dentro de casa.

Foi o assunto mais comentado do Twitter todos os dias de manhã. 

Quando começou a juntar muita gente, decidiu divulgar uma associação por dia, com respetivo NIB, para que quem quisesse contribuir o fizesse. Cheguei a ver doações que chegaram aos 2000 euros.

Esta semana, e com o fim do desconfinamento, anunciou que sexta feira seria o último direto: Como é que o bicho mexe. Nesse sentido, pediu às pessoas que pusessem luzes de Natal à janela, dizendo que iria percorrer Lisboa de carro para as mostrar ao público, que o acompanharia em direto, de suas casas.

O que aconteceu estava longe de ser esperado

O direto começa pontualmente às 11 da noite, com 100 mil pessoas a assistir.

Bruno Nogueira e Nuno Markl saem de casa para cumprir a promessa.

A loucura aconteceu.

E a adesão em massa não só às janelas, como pelas ruas por onde iam passando, com gente nos carros e na rua, cheias de luzes de Natal, a cantar, a agradecer, a sorrir. A escoltar, até.

Um dos pontos altos foi a entrada de Cristiano Ronaldo em direto, para mandar um abraço a Bruno e lhe desejar sucesso.

Com a benção do Rei, tinha tudo para dar certo.

Houve um momento em que pensámos que talvez pudesse acabar ali, com a polícia a sinalizar a sua presença de forma inequívoca. Era só para dar uma força. Não foi preciso pararem. O apoio e o agradecimento vieram também de uma ambulância do INEM, de onde se ouviu, ao megafone:

Bruno Nogueira, és o maior.

Evocou-se o espírito de Natal e o público não só decorou as suas casas e janelas, como cantou várias músicas alusivas à época, incluindo, claro, o All I want for Christmas is you. Durante o dia, foram chegando imagens e pequenos filmes, que o humorista punha nas suas stories do Instagram.

Manteve o registo inicial, alguma espontaneidade, não tentou fazer do: Como é que o bicho mexe algo que nunca foi.

A revolução do amor aconteceu à portuguesa.

Sem confusão, sem violência, sem quebrar regras de distanciamento e de uso de máscara, sem precisar de ser controlado, Portugal, e os portugueses, mostrou ao mundo que o Amor é maior do que o medo. E que, com sentido de humor, é sempre mais fácil viver.

Foi um fim de quarentena épico, que terminou no coliseu.

Que passou por Salvador Sobral a cantar, Nelson Évora a fazer triplos saltos e, finalmente, com toda a equipa que ajudou nos diretos, todos os atores e figuras conhecidas do mundo do entretenimento português, no palco do Coliseu, a desejar feliz Natal, terminando com Bruno Nogueira a cantar, acompanhado ao piano.

Não é o meu tipo de humor, acho-o demasiado agressivo.

No entanto, o “agressivo” Bruno Nogueira deixou-se contagiar pelo espírito do Natal. Manifestando o seu apreço por todos quantos contribuíram para os diretos durante dois meses. Comovido até aos ossos.

Venceu o amor, como sempre. E os sorrisos, a alegria, a música, a arte. Talvez não precisemos de muito mais, satisfeitas as necessidades básicas de roupa, comida e alojamento.

error: Content is protected !!