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Cães – O menino que vivia com os lobos

03/02/2017

Os cães não paravam de ladrar há dias, não deixando a moça dormir. Por isso, andava muito zangada, com muita raiva, capaz de qualquer coisa. É o que acontece quando não dormimos, o desespero toma conta de nós.

Tal como os cães, que choravam todos os dias, também ela tinha sido abandonada, deixada à sua sorte, para lidar com animais que não conhecia e dos quais tinha até um medo secreto. E sem saber muito bem o que fazer, por não conseguir dormir e não ter como resolver a situação, descarregava nos cães e chorava sem parar, de desespero, de ódio, de raiva e de sono.

Era uma vez um lobo que tinha um menino. Viviam felizes na floresta. Corriam pelos bosques, o lobo caçava, comiam juntos e, às vezes, o menino também subia às árvores para apanhar frutas. Era livre e feliz, o menino que vivia com os lobos. Mas à noite, sem saber porquê, uivava. Um uivo que lhe vinha do fundo da alma, sentido, triste, melancólico. Tinha aprendido a fazer aquele som com os lobos e era à noite que lhe saía da garganta, quase sem querer.

lobos

A moça não conseguia abandonar os cães, deixá-los à sua sorte, que esperassem sozinhos por quem os abandonou. Tinha-se comprometido e a sua palavra era mais importante até do que o seu próprio bem-estar. Estava a ser fiel com quem não tinha sido fiel para consigo.

Mas chegou a um ponto em que não aguentava mais, tinha de sair dali ou enlouqueceria. Sentia um monte de animais selvagens à solta na sua cabeça e sabia que isso não era bom. Precisava de silêncio. Resolveu ir dar um passeio na floresta, o único lugar calmo de que se lembrou e que ficava perto de sua casa.

Foi andando pelo bosque e quanto mais entrava na floresta, mais se acalmava. A natureza tinha este feito, o de voltar a ligar-se a si mesma, à sua alma. Já com a cabeça mais leve, o sobrolho desfranzido e o passo ligeiro, reparou no menino que descansava debaixo de uma árvore. O menino acordou e, apesar de assustado, não se moveu nem proferiu um som. Achava estranho ver alguém tão parecido com ele, que andava apenas em duas pernas e tinha pelo comprido só na cabeça. Reconhecia ali algo seu, da sua espécie, tão diferente da do lobo, e a curiosidade, que é comum a todas as crianças, fê-lo aproximar-se da moça, também curiosa, também meio desconfiada. A moça falou com o menino num tom doce, suave, como nunca tinha ouvido, do qual este gostou. Sentiu uma afinidade imediata.

Foi nesse momento que o lobo chegou, a correr, com os dentes arreganhados e ar ameaçador. A moça lembrou-se imediatamente dos cães e apavorou-se. As pernas começaram a tremer e não conseguiu mexer-se, ficando presa ao chão. O menino não percebeu nada, mas fez questão de acalmar o lobo, dizendo-lhe, na linguagem que só os dois entendiam, que a moça não representava ameaça.

Temos medo do diferente de nós e queremos fugir dele.

A moça ficou feliz por não ter fugido. Naquele momento, percebeu que também precisava de ladrar às vezes. Que é como quem diz, de falar alto, se defender, se proteger, fazer barulho. Para se fazer ouvir, quando insistem em ignorá-la e aos seus quereres, vontades, desejos. Era isso que o ladrar dos cães queria, lembrá-la de que também tem instintos, que precisa de os usar quando a cabeça não dá conta. Que precisa deles para se defender, para seguir em frente, para sair de um lugar onde não está confortável, não consegue descansar.

Naquele instante, o lobo soube que ia perder o menino para sempre e ficou muito triste, mas entendeu que estaria melhor com os da sua espécie, que o entendiam perfeitamente e supriam todas as suas necessidades, que o lobo, por ser um animal, não conseguia. A princípio, não quis deixá-lo ir com a moça. O menino também teve pena de deixar o amigo que sempre o protegeu, e àquela vida de liberdade selvagem, mas achou melhor ir, despedindo-se do lobo com um grande abraço.

Ficou feliz quando, de mão dada com a sua nova amiga e protetora, viu vindo na direção contrária os cães que tanto tinham perturbado a moça que agora o acolhia. Ficou satisfeito por saber que o lobo não ia ficar sozinho, mas com outros da sua espécie, onde todos se sentem acolhidos e integrados por partilharem características e afinidades.

Todos viveram felizes para sempre. A moça e o menino iam muitas vezes à floresta visitar o lobo e até os cães. E estes ficavam sempre muito contentes por vê-los. Mas todos sabiam o lugar de cada um, entre os seus. Onde não precisam de tentar dominar o outro para levar a sua avante. Onde são acolhidos e respeitados por serem quem são e expressarem-se como sabem. Onde não precisam de chorar, gritar sem parar para se fazer ouvir. Onde os seus pares não os abandonam.

Artist’s Date 34/365 – Write a Story About Your Dog

Como já disse, não tenho animais domésticos. Nem plantas, já que falamos em seres vivos que dependem de mim para sobreviver. Uma vez fiz um texto todo à volta da minha vontade de ser cão e até o publiquei aqui. Poderia tê-lo usado. Preferi esta história, escrita precisamente há um ano e inspirada em factos reais, seis meses antes. Até hoje, não consigo ouvir um cão ladrar que não me irrite profundamente. E prefiro os lobos, sempre têm mais personalidade. E autonomia… Independência ou morte, já se sabe.

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