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Café filosófico de hoje: Narcisismo e depressão

24/05/2014

O café filosófico acontece todas as sextas-feiras, numa livraria em Campinas, e é transmitido ao vivo, online. Senti tanta falta disto… O de hoje era sobre o tema em epígrafe e algumas das que se seguem foram as frases da palestra de Teresa Pinheiro que anotei sobre o tema. Também vou transcrever algumas que o próprio café filosófico tuitou.

Melancólico é alguém que não sabe o que perdeu, sabendo que perdeu alguma coisa ; Luto é quando sabemos o que perdemos ; Dos deprimidos, 15% a 20% cometeriam suicídio, dados OMS; a indústria farmacêutica faz o diabo para vender anti-depressivos; estudo da OMC de 2001 previa: em 2020 a depressão seria a 2ª maior causa da incapacidade, só atrás da isquemia cardíaca; o olhar do outro, como me vê, o que posso suscitar nele, não sei o que é mas é fundamental; se eu sou definido por esse outro, quem sou passa a estar fora de mim, não tenho eco interno para rebater isso; passa a ser uma questão de imagem, se permitimos que seja o outro a definir-nos; esse personagem definido pelo outro passou a preocupar-se com o que tem e com a sua imagem, é ela que o vai definir; como não tem ideia de que é ele quem tem de construir e como o futuro não acontece no dia seguinte, ele deprime; no não reconhecimento do desejo, a neurose obsessiva é não precisar desejar nunca mais; na histeria é canalizar esse desejo pra outra coisa; falta uma narrativa sobre as próprias emoções; há duvida sobre o que é amor, paixão, ansiedade… por estar fora da pessoa, ela não tem noção do que sente; vive o corpo como se não fosse dele, corpo e mente estão separados e o corpo não é dele; escrita, imprensa e internet e derivados são as três grandes revoluções, porque mudam a maneira de você ser; a ideia de futuro, para os jovens deprimidos, não é costurada por uma narrativa que diz: pra passar daqui pra lá eu preciso construir algo; pertencer a alguma coisa foi um divisor de águas; teve de falar na 1ª pessoa, algo que fosse dela e isso foi fundamental; a depressão é uma doença reativa, como todas as outras, histeria inclusive; a depressão é uma reação a essa exigência louca da sociedade; de há uns anos pra cá perdeu-se a ideia de bem comum, só podemos pensar em pertença com bem comum (de génio isto, explica muita, mas mesmo muita coisa na minha relação pessoal com grupos);  tenho de emprestar subjetividade ao outro para me poder pôr no lugar dele, só o posso fazer sabendo-o semelhante a mim; o outro é um semelhante, se não o vejo assim, a barbárie acontece, se colocar no lugar do outro vem junto com o bem comum; não tenhamos vergonha de ser gentis; Lacan: o desejo mais profundo do ser humano é ser desejado; a cultura que existe de que a pior coisa é ficar triste; ninguém quer sentir mais nada, se der pra passar batido pelas perdas, passa-se; para algumas pessoas, a dor é a própria identidade [pessoas que identificam a sua identidade total com a dor]; postura anti remédio é postura omnipotente; as referências passaram a ser internas, o que é certo e errado é uma decisão individual; somos seres gregários, não sabemos viver sozinhos; a gente passa por um período onde precisa de reafirmar a existência, preciso de provas de que existo; essa prova pode passar por malhar, em que me doem todos os músculos do corpo e assim sei que existo; ou pode passar pelos selfies, alimentando o olhar do outro, o selfie é feito para alimentar o outro, que vai saber de você. Se ele sabe, eu realmente fiz, o que me dá uma segurança de que eu sou eu, eu existo mesmo, não sou uma miragem; se eu só existo pelo olhar do outro, preciso que ele me veja o tempo todo ; o poder público não se ocupa do bem comum, esta ideia parece uma ideia perdida, os governos são feitos para pensar no bem comum; a ideia de autonomia é importantíssima; você não pode fazer pelo outro o que ele pode fazer por si; só posso fazer pelo outro o que ele não pode fazer por si; é de uma solidão avassaladora achar que só podemos contar connosco, se pedirmos ajuda somos vistos como inferiores; fazer as pessoas descobrir que a relação com o outro pode ser um prazer; vão relacionar-se socialmente com ideias de gratidão e generosidade; se o sujeito puder dar prazer ao outro vai ter prazer também e a vida vai ficar melhor; as alegrias podem ser expostas, mas nada de nos aproximarmos fisicamente, a internet te protege nesse quesito; não nomear o que se sente é terrível; começar a nomear sentimentos e emoções, é so achando que tem emoções parecidas com a minha posso chegar perto dele; liberdade pra irmos pra onde quisermos, sem ficarmos agarrados a um autor só; [sobre a relação entre dois narcisistas:] a relação com o outro é muito sofrida, porque o outro é uma caixa preta que não sei o que pensa, não tenho certezas de nada, é quase uma paranóia; se eu não consigo intimidade, parceria, fica muito difícil; as redes sociais amenizam a sensação de solidão, há retorno, palpite, posso lidar com a diferença e a diversidade; as redes sociais têm uma função de socialização, mas onde não se quer o contacto próximo, muitas vezes não conseguimos o contacto pessoal nas redes, a internet é uma parede de vidro; não passa pela cabeça das pessoas que não possam gostar delas por serem desagradáveis; todo o mundo quer ser gostado mas é como se todo o mundo se esquecesse disso; uma pessoa que não estabelece contacto, que não imagina que o outro possa ser parecido com ela, fica arrogante, por causa da solidão; pra não trocar figurinha com ninguém, você precisa se achar o máximo e o arrogante é muito desagradável, o que o leva à solidão; para você estabelecer uma relação com o outro precisa de saber se colocar no lugar dele, se não consegue, fica numa redoma; uma pessoa arrogante pode ser muito agressiva para com os outros e isso ninguém aguenta; o ser narcisista tem garra de gavião e pele de criança; pode ser agressivo, mas é hipersensível; quanto mais ele sofre, mais arrogante fica porque acha que a arrogância vai dar certo. Até que ele não aguenta o sofrimento; aí deprime; o arrogante precisa deprimir, ou não sai do mesmo lugar; depressão por alguma coisa que perdi e que fui, que não sei onde nem quando perdi, mas sei que não sou mais; perdeu por ficar preso a uma imagem congelada de si mesmo; ao saber que isso por si só não se mantém, precisa ser enriquecido, trocado, construído; o lugar pra onde voltamos é por sabermos que lá estão as respostas; a ideia de eu é uma ilusão mas você precisa dela ou enlouquece; as paixões fazem a gente quebrar a cara, sofrer muito, perder um monte de coisas; o eu não existe mas precisamos de achar que temos a certeza de que existe; pacientes narcisistas têm certezas de que eles não são um eu. A neurose tem uma ilusão do eu; essa ilusão de que existe essa mesmice em mim e que permanece precisa de uma ideia de continuidade no tempo; o que você é hoje é efeito e consequência de uma série de coisas, do que viveu anteriormente, é uma sequência do seu passado, do que acrescentou ou não; o seu sintoma está aqui você simplesmente aprendeu a lidar com ele de uma forma melhor. 

Grande lição de hoje: pessoas que identificam estados de alma [e não apenas ego, persona, self e/ou sombra] com a identidade total, definindo-se apenas por uma condição, a de doente, amargurado, deprimido, sofredor, correto e por aí vai… 

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