Uncategorized

Caridade

30/07/2012

Este fim-de-semana fui a uma festa no Centrão, quase na Ipiranga com a São João, essa esquina imortalizada por Caetano, em Sampa, cujo preço para entrar eram 5 reais e um leite em pó. Era num 5º andar de um prédio, que é usado para isso, festas, tenho ideia que nem sequer se paga o aluguer do espaço, é um aproveitamento do que já existe e está abandonado. O andar não tem nada dentro e em cada divisão estava um DJ a bombar música eletrónica. Achei bonitinho, o gajo que organiza a festa preocupar-se com as criancinhas. 

Eu e a pessoa com quem fui levámos cada uma 200g de leite em pó e, à entrada, o senhor caridoso que organizava a festa reclamou. As mocinhas que recebiam o leite chamaram o homem dizendo que eram 400g por pessoa, mas nós não tinhamos visto em lado nenhum que tinha limite de gramagem por embalagem e por pessoa. Entre outras barbaridades, tentou uma chantagem emocional básica, só que teve o azar de ser feio, arrogante e meio filho da puta. Dizia: se você acha bem vir curtir numa festa e só trazer amostra grátis, paga 5 reais e entra. Aí tive de intervir, até aqui ele só falava com a minha amiga, que é local e por isso deixei na mão dela, já que tinha sido ela quem me convidou. 
– Olha, não fala que é amostra grátis, porque a gente foi no mercado e comprou isso aqui. 
– Se você acha que isso alimenta uma creche… 
– Mas era suposto eu alimentar uma creche sozinha?
E amassava a embalagem com tanta força que deve ter rasgado o pacote e o pozinho começou a cair. 
– Olha, tá caindo pó, assim fica com menos ainda. E isso aqui alimenta uma criança, viu? Além disso, caridade é a gente fazer e dar o que pode. – O filho da puta bonzinho não teve argumentos. Estendi-lhe a mão, num tudo bem? E o idiota olhou-me para a mão e foi-se embora, de trombas. Virei as costas, paguei dez reais, 5 por mim e 5 pela Camis, e entrámos. O pessoal que estava à porta ficou chocado com a grossura do homem. Umas miúdas vieram inclusive falar comigo, solidárias, puta grosso, meu! Reafirmei: caridade é a gente dar o que pode. Não lhe dispensei 5 minutos e fui dançar. Não conseguiu estragar a minha noite, mas cobrava 5 reais a latinha de Itaipava. Caridade my ass. 
Grande parte dos nossos problemas vêm porque a gente dá mais do que pode, mesmo, de nós e dos nossos recursos. Já aprendi, embora às vezes caia numa tentaçãozinha. E, na boa, o problema não está em dar muito, pouco ou nada. Está em quem não sabe aceitar de bom grado o que o outro tem para lhe dar. Nem dos nossos problemas damos conta, mas queremos que o outro os resolva, os nossos, os dele e os do mundo…  

You Might Also Like

  • Fuschia 31/07/2012 at 15:12

    Começo a ter um certo preconceito com a palavra, porque acho que a caridade se "prostituiu" um bocado, é usada em todo e qualquer contexto, desde motivo para comprar livros, vender produtos ou organizar um mega evento qualquer cheia de gente com dinheiro de onde apenas uma mísera parte vai para caridade. Actualmente caridade serve para show off.

    Eu ajudo sempre que posso as

  • error: Content is protected !!