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A importância dos mitos (e arquétipos)*

20/09/2021

Many of us long for resurrection, to be called to arise and shepherd the totality of ourselves, including our inner world, out into the external realm. And while the banished and ignored shadow parts of our being may yearn for the light of renewal, it’s only when we orient ourselves to the mysteries of the world of spirit, and to all that speaks to the eternal, that we may find the wisdom, beauty, strength, and rebirth we seek. Symbolically these soul attributes may be pictured as the eternal feminine within us awaiting our attention and foster. 

The soul’s underworld is the most fertile ground for the psyche’s deep awakening. The resurrection, as Gimbutas describes, illustrates how essential it is to also meet the Goddess as vulture—a rite of passage, which involves a radical surrender. It’s an experiential process that necessitates being picked down to our very bones (as vultures literally do) to expose and unravel the falsities, masks, and personas that we so frequently employ as protective guises in the everyday, surface world. However, as Campbell reminds us, “It is through the Goddess that you enter the world of the spirit. She is the maze, and she is also your guide.” (39) 

The Goddess, whether we call her Gaia or one of various other names, is also the personification of the energies of nature. “The simplest manifestation of the Goddess in the early Neolithic planting traditions is as Mother Earth,” Campbell states. “The Earth brings forth life, and the Earth nourishes life, and so is analogous to the powers of the woman.” (3) 

Our soul invites us to house both dormancy (winter) and renewal (spring) by observing what’s disintegrating and rising within us. Again and again we read in the Mystery texts that we must die to our old patterns of behavior and habits of mind so that we may reimagine and refashion ourselves anew. And like the proverbial snake shedding its skin to reveal a new one, death is conquered by the soul’s ongoing regeneration.

Too often we forget that the processes of fertility and creativity initially emerge through dissolution and fragmentation. We’re fearful of the darkness that these movements bring, too weary to explore their mission and hidden, yet sacred, poetry. But it’s the womb space of fallowness and gestation in both vegetative life and in our own soul’s regenerative artistry that is to be sensed. Attentiveness to the “tomb as womb” potentiality must precede our future birth. It’s why we’re required to dwell for lengthy periods of time in the Stygian darkness of the underworld—and heed its tutelage: because it takes that much hidden, obsidian power to birth a new “you,” a new “me,” a new “us” in the personal, societal, and cultural realms.  

And so, the feminine impulse for fertile renewal is central to our future birth. As Campbell explains, “Here, when the gods find they are impotent, they have to give the power back to where it ultimately came from: to the female principle. She is the power of life, which lives in us in both its natural and in its so-called supernatural aspects. And in the Greek world we have the rise, then, of the mystery cults, the goddess Demeter, Persephone, and in Egypt, Isis, Nephthys. These are the guides to rebirth, and it’s their symbology that comes in the symbol of the Virgin Mother as the Madonna.” (227)

The myths Campbell references point us to the principles inherent in the cyclical nature of life—the ongoing, agonizing death of the outmoded and resistant old in us in order to prepare for the birth of the new. Gimbutas adds that, “… pre-industrial agricultural rites show a definite mystical connection between the fertility of the soil and the creative force of woman. In all European languages, the Earth is feminine.” (8) For example, the Goddess Persephone is represented visibly as the rebirth of plant life – the seeds of the old crops converging with the new. This dying away and coming into being again is not a singular, once-off event. It’s a continuing, cyclical process and a constant experience. In a sense, it’s the very quintessence of life itself. Indeed, that’s how we meet the Goddess within us.

*Via

A meio do caminho

16/09/2021

A meio do caminho, e já com coisas para deitar fora programadas até ao dia 22, posso dizer que o desafio me tem trazido mais liberdade do que ansiedade.

Quando falei nele a algumas pessoas, responderam-me que iria ficar sem nada.

Ledo engano. As pessoas menosprezam a nossa imensa capacidade para acumular coisas de que não precisamos, não nos fazem falta, das quais nem nos apercebemos. Pelo menos conscientemente.

Nunca fui acumuladora.

Pelo contrário, sou muito mais desapegada. Tanto que não me resta assim tanta coisa da qual me desfazer. O que aconteceu logo nos primeiros dias. Muito porque me desfaço de coisas com alguma facilidade e relativa regularidade.

Ainda assim. É muito o que acumulamos.

Em gavetas que não abrimos, armários que não visitamos, prateleiras às quais não chegamos.

Na falta de coisas, revemos depósitos antigos, resquícios de memórias esquecidas em objetos empoeirados e amarelecidos. E encontramos muita coisa à qual nos apegámos por motivos vários, porque foi cara, porque nela fomos felizes, por termos esperança de com elas voltarmos a contar.

O desafio dá o empurrão de que precisamos para delas nos livrar.

A meio do caminho, decidida a avançar, voltei a ouvir CDs antigos, no único sítio onde ainda consigo fazê-lo: o carro. E, mesmo tendo uma entrada USB onde posso ligar uma pen com zilhares de bytes de música, dei por mim a adorar ouvir os EBTG sem interrupções. De vozes ou dos meus dedos, a quererem andar com as músicas para a frente.  Sem controlar o processo, só a desfrutar do mesmo.

Para o dia 30, guardei tudo o que posso vender.

As coisas materiais, por ocuparem espaço, são mais óbvias de identificar. No entanto, o desafio aqui é outro. Não só o de libertar espaço físico, mas, e acima de tudo, espaço emocional.

Para os dias 25 a 28, tenho reservada a tarefa de re-visitar emails que acumulei, no caso de ter de um dia me defender. Com o intuito de os mandar todos fora, sem medos.

Não preciso de provas materiais para me defender de ataques emocionais.

Se não aprendi à primeira nem à segunda, talvez precise de uma terceira. E não é o acumulo de emails que me vai safar. Por outro lado, se deles me libertar, pode ser que me livre também da emoção que me fez a eles apegar. Essa parte de mim que sente necessidade de se defender e proteger de ameaças, tantas vezes imaginárias, fantasistas, ilusórias.

O apego a uma parte de mim que se calhar já nem existe, porque entretanto cresceu e já não precisa de recorrer ao material para justificar o emocional. Sedimentando a sabedoria intuitiva e instintiva que, quando somos novos, precisa do racional para se validar.

A meio do caminho, temos de voltar ao passado para poder aguentar o presente avançar em direção ao futuro.

Setembro

03/09/2021

No hemisfério norte, setembro é um mês de começos. De coisas novas, anos escolares, profissionais, eventualmente, por causa da volta das férias de Verão.

Dentro das limitações que me são impostas pelos totalitaristas, tenho sentido falta da novidade, ainda que o consumar me desafie mais do que o consumir, sendo ao primeiro que quero dedicar o resto da minha vida.

Os primeiros 50 foram dedicados a consumir.

Não necessariamente bens materiais, embora, naturalmente, tenha acontecido. Algumas vezes em excesso.

Há muitos anos que, quando compro algo novo, doo algo que já não uso. Mas, depois de ver dois documentários sobre minimalismo, decidi ir mais longe e aderir ao desafio:

#LessIsNow

Assim, durante o mês de setembro, doarei ou deitarei fora o número de coisas correspondente ao dia. Sem adiar, todos os dias têm de sair coisas cá de casa.

Como comecei hoje, doei três coisas. Amanhã, serão 4. E por aí adiante até chegar às 30, no dia 30.

Pode ser qualquer coisa. Doada, vendida ou deitada fora.

Ontem estive a dar uma volta na minha roupa e notei os níveis de ansiedade aumentar em relação a algumas coisas que pensei em doar e não consegui.

A posse de bens materiais, e o respetivo consumo desenfreado, é certamente uma forma de compensar um vazio qualquer, uma questão de controlo e/ou poder, para esconder um qualquer complexo de inferioridade, para alimentar uma certa persona.

Correspondendo ao que queremos que pensem, vejam, de nós.

Os livros deixam-me segura. Apesar de os doar aos montes. Também são material de trabalho, no caso da minha biblioteca de psicologia, mitologia, arquétipos, e tal. Daí que está fora de questão, pelo menos num futuro próximo, desfazer-me deles. Sequer emprestá-los. Deixei de emprestar livros, as pessoas têm o péssimo hábito de não os devolver.

Sou apegada aos meus, confesso.

Daí que a libertação tenha de ser por outras vias. Apesar de ser mais duro desfazermo-nos de coisas de que gostamos muito, não convém esticar a corda das primeiras vezes. Manter os níveis de ansiedade controlados é fundamental, eu diria.

Esta posse neurótica de coisas tem também a ver com mentalidade de escassez.

A ameaça constante com que somos bombardeados, não só pelo nosso inconsciente pessoal, familiar, e coletivo nacional, mas também por todas as mensagens que nos são passadas, e que absorvemos inconscientemente, todos os dias, pela publicidade.

A crença de que seremos mais isto e mais aquilo, se adquirirmos este e aquele produto.

É absurdo e ridículo o mundo em que vivemos.

Ao ponto de se considerarem influenciadoras pessoas que apenas incitam ao consumo, sendo pagas para o fazer.

Outro desafio a que me proponho é a agradecer uma coisa por dia. Vai obrigar-me a repensá-lo, a não me concentrar apenas no mau, a olhar para o todo e a reconhecer-lhe o valor que tem e merece.

Não se trata da tolice e da infantilização do pensamento positivo, de não acolher as emoções desagradáveis, fingir que não nos afetam, nos tocam, nos matam por dentro um bocadinho.

Mas de reconhecer o equilíbrio de todas as coisas.

E de não exacerbar o peso ou o valor de cada uma delas. Não lhes dar mais importância do que a que têm.

Sê bem-vindo, Setembro.

Antes e depois de Chappelle

29/08/2021

Há o Stand Up Comedy antes e depois de Dave Chappelle.

Via o nome com frequência, evitei até não poder. Ouvi outro stand up comedian a referir-se a ele, de forma elogiosa. Humorista esse bem doido, do estilo que gosto, sem medos. Mesmo que não concorde, muitas vezes me incomode, há verdade no que diz, nem que seja só a sua. E, mesmo assim, ignorei.

Todas as obsessões têm um propósito.

Representam um símbolo, uma forma de conexão, mesmo quando autodestrutivas. E o Stand Up, neste momento da minha vida e do mundo, e da minha posição face ao mundo, mesmo que este se esteja borrifando para que eu viva ou morra, não é diferente.

Sempre que não se transformam em vícios, as obsessões são temporárias. Permanecem enquanto o símbolo nos fala à alma, mesmo que a consciência não perceba.

Simplesmente obedece, rendida a um propósito maior.

Também têm o seu tempo de gestação no inconsciente. Até o ego estar preparado para as ouvir e integrar. E uma língua própria, para o rei da consciência não se assustar e fugir, rejeitando o próximo degrau no processo de individuação.

Houve humoristas que, apesar de saber por que vi, não sei como aguentei.

Como o Anthony Jeselnik, que é completamente alucinado. Mas tem uma voz incrível e uma maneira de falar muito cativante, o tom, o sotaque, a postura. Apesar de parecer um psicopata, às vezes. Dei por mim fascinada a olhar para a boca dele, encantada com o som da sua voz. Fiquei um bocadinho preocupada com o poder que aquele tipo de masculino ainda exerce sobre mim. No primeiro Stand Up dele que vi, não sorriu uma única vez…

Até ver Dave Chappelle

Com ele percebi o que me encanta no Stand Up. Para além do óbvio, os Stand Up comedians estarem a falar diretamente connosco. E eu gosto disso. Identifico-me imenso com essa forma de comunicar, é o que faço sempre que escrevo.

E do que têm em comum com todos os artistas, o pensarem profundamente nas coisas que os fascinam – mesmo que sejam completamente idiotas – os atormentam, apavoram, e quererem ser ouvidos em relação às mesmas, perderem a vergonha de se expor, fazerem-no da forma mais construtiva e criativa possível, pela arte. Com o riso como bónus.

Essa é a minha única curiosidade em relação às pessoas

A todas as pessoas. Saber o que as fascina, encanta, lhes toca profundamente. O que as move, de verdade.

O que me encanta nos bons humoristas de Stand Up, os verdadeiros artistas, é a honestidade, a coragem com que falam a verdade. Às vezes apenas a sua, muitas vezes a verdade do mundo, que todos conhecem, sentem, intuem, mas ninguém tem coragem de fazê-lo. Ou fá-lo de forma tosca. Mesmo com a política de cancelamento. A verdade, nada é mais importante do que a verdade, a dignidade.

E o maior de todos é o Dave Chappelle.  

Um oásis num mundo cada vez mais chato, ofendido, vitimista, cheio de direitos e com muito poucas obrigações.

A grande diferença entre ele e os outros é o lugar de onde parte. 

Lugar esse que não é de ressentimento, amargura, vítimização, frustração, medo. Sequer projeção. De alguém que se calou quando queria ter falado, que engoliu o que não deveria ter engolido. Que sabe exatamente quem é.

O que faz toda a diferença na forma como comunica.

E no sucesso que tem. Mesmo depois de 12 anos afastado, continua a ser o rei do Stand Up Comedy americano. Recebendo, por isso, o prémio Mark Twain, no pun intended. Prémio esse o mais alto a que um humorista pode almejar.

A gente pode não saber o que é e onde toca, mas todo o nosso ser sabe-o. Até que a consciência o identifique e lhe consiga dar um nome.

Símbolo devidamente constelado, mensagem entendida.

Longa vida a Dave Chappelle.

Stand Up

25/08/2021

Depois de dedicar umas horas valentes à minha mais recente obsessão, o Stand Up, encontro-me numa posição bastante confortável para opinar sobre o assunto e, inclusive, revelar as minhas preferências.

De tal maneira que, na primeira noite, depois do Sloss, fui dormir com um espetáculo de stand up a desenhar-se na minha cabeça.

A primeira vez que me disseram que haveria de ter jeito, as punch lines no sítio certo, o tempo da piada cirúrgico, estava a falar de coisas sérias: arquétipos e mitologia, autoconhecimento e story telling.

Na altura pensei: jamais.

Não só por ser introvertida e me aterrorizar estar perante um palco cheio de desconhecidos, mas porque a minha memória já não ser o que era. Tenho a certeza absoluta de que nunca nesta vida iria conseguir decorar um texto inteiro.

Só que, se o texto é meu, não preciso de me preocupar com a precisão dos factos, de dar explicações técnicas, sou capaz de lá chegar.

Nessa noite, a primeira de muitas dedicadas ao stand up, dei-me conta de que é a única arte em que podemos estar uma hora a falar de nós sem que ninguém se entedie. Desde que sejamos bons, soubermos o que estamos a fazer e como fazê-lo. Sem que ninguém se lembre de nos chamar narcisistas, auto-centrados, chatos. Ou queira interromper-nos para falar de si.

Pareceu-me genial.

Também é a única arte em que, ao fazê-lo, não nos sentimos mal. Podendo falar de tudo, absolutamente tudo o que nos deixa vulneráveis, tristes, irritados, frustrados, sem a emoção associada.

E, para além de sermos ouvidos, ainda somos validados e aplaudidos.  

Outra coisa que achei genial é o facto de sermos nós e um microfone. Com a roupa mais discreta, neutra, preta, de preferência, que conseguirmos. Porque o que interessa é o que dizemos, não o que vestimos.

Os melhores stand up comedians, para mim, são esses.

Os que não recorrem a fogos de artifício, imagens de vídeo, audiovisual. Ou a números de circo em palco. Correria, andares idiotas, ou de gatas, poses no chão, guinchos, vozes forçadas e por aí fora.

Gosto dos que conseguem fazer rir dezenas de pessoas só com o que dizem, pelo intelecto.

São os mais inteligentes. E o humor, para mim, tem de ser inteligente. Rebuscado ou na mosca. Fruto de observação e dedicação à causa.

Não basta dizer mal, de si ou dos outros, sem conteúdo além da suposta piada.

Por isso, e porque nunca fui muito apreciadora do estilo Jim Carrey, não gosto dos que fazem caras e bocas. Vozes e, acima de tudo, dos que acham que para ter piada têm de gritar.

Esses, em particular, irritam-me profundamente.

Gosto de um grito espontâneo, no lugar certo, no timing perfeito. Mas recorrer à gritaria cansa-me muito a beleza.

O mesmo vale para os palavrões.

Nada forçado, nada em demasia, tudo a favor quando é apropriado, espontâneo.

Há exceções, no caso das vozes. A Iliza exagera e muito no contributo físico que dá ao seu stand up. Nas vozes também, é um abuso. Mas aquela voz de bruxa é perfeita. Sendo a minha preferida a voz feminina de computador.

É exatamente assim que soa.

Gosto dos homens mais do que das mulheres, por serem mais corajosos (ou emocionalmente inconscientes); dos introvertidos mais do que dos extrovertidos, estes exageram demais nos gestos e nos gritos; gosto dos britânicos infinitamente mais do que dos americanos.

Gosto de story telling muito mais do que de piadas que não se relacionam umas com as outras. Quando o texto tem um fio condutor, sem ser preciso mudar abruptamente de assunto. E, acima de tudo, gosto quando o fim do espetáculo se relaciona com o início do mesmo. E, lá pelo meio, há referências aos assuntos já mencionados. Às piadas já feitas.

Se tiver ainda mais graça do que da primeira vez, perfeito.

Os homens são muito mais escatológicos, acho que não houve um que não mencionasse o tema nos seus textos, e vi muitos espetáculos de homens, e falam sempre, sempre das próprias pilas. São infinitamente mais mono temáticos do que as mulheres. Que, por sua vez, falam de uma miríade de temas, sendo o principal os relacionamentos, como não poderia deixar de ser.

Gosto dos humoristas que não pedem desculpa, não justificam piadas.

Há uma diferença abissal entre os humoristas da minha geração e um pouco mais novos, e os mileniais. São estes que pedem desculpa, fazem apartes, explicam piadas, justificam-se imenso, não vá alguém pensar mal deles.

E gosto dos que, não querendo ser os grandes educadores da classe operária, fazem mais do que, lá está, ajustar contas, vingar-se, dizer mal de tudo, ser agressivos, críticos, más-línguas.

Nos fazem ver um tema de outra perspetiva, fora da nossa esfera e experiências pessoais, furando a barreira do ego, chegando mais longe, humanizando. Mesmo que seja à bruta, às vezes.

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