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Ansiedade

26/06/2022

Ainda é cedo para dizer qual a doença do século, mas já daria para afirmar que a ansiedade é certamente a das duas primeiras décadas deste milénio, pelo menos.

A ansiedade manifesta-se de várias formas, estando detrás de vícios, manias e compulsões. Que têm que ver com a humana e necessária sensação de controlo.

Mas só nesse limite.Casa ideal

Se a ansiedade está na raiz de muitos comportamentos, há faltas que nos fazem mais falta do que outras. A de dinheiro, por exemplo, dá ansiedade a muita gente.

Porque dinheiro é poder e poder é controlo.

O gatilho e antídoto de hoje contra a ansiedade é a dopamína, que dispara a cada like, resposta imediata. Do que os mileniais vivem. A ansiedade que a falta de um telefone ou tablet gera é indescritível, não sabem o que fazer. Crises de abstinência como com qualquer vício. Bebés de 2 anos agarrados a tablets em mesas de restaurante. Uma doença.

Também pode dar-se o caso de a ansiedade vir da falta de uma hormona qualquer. E para isso há comprimidos que reequilibram o cérebro.

E doenças mentais, tipo o Borderline e a Bipolaridade.

Que também são modas. Como a TDAH. É mais fácil rotular pessoas do que lidar com a diferença.

E sim, claro que há doenças mentais e desequilíbrios hormonais. E agradeço o diagnóstico. Resolve muitas vidas.

Um catalisador de ansiedade para mim é a falta de livros para ler.

Desde aí os dez anos que tenho sempre garantidos livros por ler. Posso dizer que tenho até morrer, se for lá para os 70.

Uma forma de nos garantirmos é com biografias e Outlander.

A grande vantagem destes é podermos levar apenas um numa viagem, não acaba de certeza. Por outro lado, é pesadote.

Tenho muito mais, mas só entre Outlander e Biografias, não tenho com o que me preocupar, nos próximos anos.

Não que sejam muitos, mas são bem gordinhos, duas das bios de capa dura. As duas de escritores. Mais o resto da Plath e o Da Vinci.  E 4 Outlanders que parecem tijolos. Mais um…

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Férias do mundo

03/06/2022

Por mais que goste de aproveitar as férias para viajar, ver coisas diferentes, outras pessoas, e, de preferência, estar em contacto com a natureza, a rotina mata-me aos poucos, preciso da novidade para viver, não sinto essa necessidade que os extrovertidos manifestam de estar em permanente movimento.  Muito menos me identifico com o: “ter de fazer alguma coisa”. Para poder ter o que contar aos outros ou publicar em redes sociais, imagino…

Às vezes, só preciso de férias do mundo.

De dias em que continuo a acordar cedo e, sem a pressão do mundo externo, do tempo cronológico, me dedico ao meu mundo. Devagar, sem deixar que os afazeres mundanos me perturbem a paz, que encontro no que leio.

Alterno entre o que poderiam chamar-se livros técnicos, mas não demasiado, têm de contar histórias, não há vida sem magia, já se sabe, e outros, intimistas, verdadeiros, com heróis cheios de mazelas emocionais e dores existenciais, por vezes excruciantes.

Inspiram-me sempre mais do que o mundo.

Os ecos de mim que não encontro lá fora, descubro, como sempre, nos livros.

Dizia a um amigo um dia destes, que tinha acabado de comprar a Biografia do Pessoa e começado a ler Os Diários de Sylvia Plath.

Se sobreviver…

O mundo pode “evoluir” o quanto quiser, a tecnologia controlar as nossas vidas a seu bel-prazer, mas é nos livros que encontramos precisamente esses ecos de nós. Gente que viveu e morreu, no caso de Sylvia Plath, da maneira mais trágica, o suicídio, noutro tempo, noutra era, e que padece exatamente das mesmas dores existências.

Que sente e fala como nós.

Se questiona, sem medos. Não nos resolve o problema, mas, ao menos, não nos isola. Ao contrário do que esperei, sinto conforto. A identificação é talvez o mais eficaz antídoto contra o isolamento, a solidão existencial, a falsa sensação de conexão que se obtém com o mundo externo.

Férias do mundo:

O mínimo estímulo externo possível, wifi desligado, nada de interrupções abruptas, como sons, notificações ou coisas a piscar.

O paraíso dos introvertidos.
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Ressacas depois dos 50

16/04/2022

A Clara Ferreira Alves, do alto da sua sabedoria e maturidade, dizia que: “Ressacas depois dos 50 são piores do que ataques de sarna”.

É frase que cito com, cada vez mais, frequência.

O problema das ressacas depois dos 50 não é a quantidade de tóxicos, sejam eles álcool, fumo ou doces, e comida em geral, ingeridos.

Aos 40 é que ainda acreditamos que conseguimos beber e/ou fumar, e comer, o mesmo que conseguíamos aos 20 e aos 30, abençoadas décadas.

Aos 50, e embora a nossa cabeça se esforce muito, o nosso corpo já não se deixa enganar pela megalomania do ego, pela desconexão que existe entre cabeça e o resto. Não, aos 50 o corpo, quer a gente queira quer não, está ali para nos provar que não nos dá hipótese de nos iludirmos.

A grande chapada que as ressacas depois dos 50 nos dão é que basta aumentar 1% a dose do que costumamos consumir, na verdade, basta consumir, para que, no dia seguinte, nos sintamos praticamente imprestáveis para o que quer que seja.

Exceto arrastarmo-nos até ao nosso lugar preferido que serve comida para teenagers, e para jovens cinquentões de ressaca, e tentarmos compensar o estrago do dia anterior, com carne, comida gordurosa e até mesmo coca zero, coisa que deixámos de consumir há anos, a ver se o dia, que por sinal está lindo, não fica tão doloroso de aguentar.

Foi o que fiz: Hangover food and poetry. And the sea in front of me. Perfect Saturday mornings…

Ao meio-dia, antes que viessem as hordas do primeiro fim-de-semana decente de primavera, um calor considerável e, claro, silêncio. A grande vantagem de comer o que se vê, a estas horas, é que mais nada entrará neste corpinho até amanhã…

Como consumimos pouco, as ressacas só duram um dia…

Esse é outro problema das ressacas em jovens e pessoas maduras que deveriam ser mais espertas, o tempo da ressaca também muda muito. Passando de umas horas para três dias, como os casamentos ciganos, mas sem a parte da dança e da festa, só mesmo letargia da boa, dormência generalizada e uma dor de cabeça na nuvem em que esta se tornou, que dá vontade de trazer de volta a guilhotina por uns dias. Desde que depois se pudesse voltar a coser a cabeça ao corpo. Que a minha pode dar-me trabalho, mas é a que tenho e não quero outra.

Por fim, há a questão do tempo que nos resta…

Se aos 40 ainda podemos dizer que somos novos, com toda a lata que caracteriza gerações a quem lhes dói verem-se como adultos e envelhecer parecer pior e mais contagioso do que apanhar lepra, aos 50 já não é possível. Nem mesmo para Peter Pans como eu. Juntando-se-lhe o facto de exercermos profissões meramente para pagar contas, estando longe do nosso ideal de alma, não podemos mais dar-nos ao luxo de desperdiçar o pouco tempo que nos resta fora do horário de trabalho de assalariado. Um dia de fim-de-semana não pode ser deitado à rua, passado como se estivéssemos mortos e não tivéssemos recebido o aviso em casa. Os Sábados, principalmente as manhãs, são preciosas para um escritor.

 E se há coisa que muda aos 50, entre muitas outras, é a noção de tempo e de prioridades. E eu tenho as minhas bem presentes. As ressacas são, portanto, poucas. Mas boas, raios as partam…

*

A Emily Bronte continua gloomy, neste livro de poesia. Morreu aos 30 anos, de tuberculose, mas dá ideia que a sua alma tanto tinha 89 como 15 anos. Há uns poemas belíssimos, como este:

The Old Stoic

Riches I hold in light esteem,
And Love I laugh to scorn;
And lust of fame was but a dream,
That vanished with the morn:

And if I pray, the only prayer
That moves my lips for me
Is, “Leave the heart that now I bear,
And give me liberty!”

Yes, as my swift days near their goal:
’Tis all that I implore;
In life and death a chainless soul,
With courage to endure.

Amen.

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Sontag

24/03/2022

Nunca li Susan Sontag, não sei se alguma vez lerei. Vi algumas referências no antigo Brain Pickings, atual The Marginalian, cuja newsletter recebo há anos e me inspira sempre imenso. Fala muito a minha língua, e, acredito, a de todos os INFP.

Decidida a manter-me fiel à promessa, despachei duas Jane Austen em três dias e comecei a ler “O monte dos vendavais”. Não me puxou muito. Resolvi ver os filmes, baseados em livros das manas Bronte, que havia disponíveis: “O monte dos vendavais” e “Jane Eyre”. Só desgraças, nunca tive muita paciência para só desgraças e miséria, jamais consegui ler Dickens por me lembrar do Oliver Twist. E agora estou um bocado traumatizada com as Bronte.

Foi quando decidi pegar na biografia de Susan Sontag.

Escrita por Benjamin Moser, o mesmo autor da de Clarice Lispector. O que só abona a favor dele.

Que maravilha. Cada vez gosto mais de Biografias, desde que bem escritas e, naturalmente, na terceira pessoa.

Identifico-me com Sontag em muitas coisas. E com o jornalismo literário em quase tudo. Muito mais do que a ficção, a ilusão, a fantasia, o escape, interessa-me a verdade. E nada como uma boa biografia para me devolver o sentido da palavra humanismo.

A fantasia é boa, a ficção propicia a ilusão, alimenta-a.

E conexão também é verdade. Mas acaba por funcionar quase como anestesia. Afastando-nos da realidade. E, já se sabe, quando a anestesia passa, as dores voltam.

É relativamente fácil viver anestesiado.

O mundo está cheio de anestésicos, para todos os gostos e feitios. Legais e ilegais. Sejam drogas, álcool, comprimidos, livros, séries e filmes, noites de copos, compras, viagens, o que quer que seja que nos afaste de nós, das nossas dores e temores. Das nossas frustrações e inibições, como cantava o Variações.

“Art is not propaganda, it is an expression of the truth”

Tem, portanto, um propósito maior, o de nos conectar com a verdade, quando mais não seja, a nossa. Sobre nós mesmos. No entanto, mesmo os artistas, têm de manter, pelo menos, um dos pés no chão.

A realidade não é certamente o que passa nas notícias todos os dias. Sequer sei se existe verdade no que é veiculado pelos meios de comunicação social de massas. A grande maioria das “notícias” não passa de propaganda para alimentar a cultura do medo e distrair as massas das suas misérias individuais.

O que me encanta no jornalismo literário, nomeadamente nas boas biografias, é precisamente o equilíbrio que não vemos nas notícias. Muito menos nas redes sociais.

O jornalismo literário devolve ao mundo o humanismo que entretanto se perdeu. Sem endemoniar ou endeusar o biografado, mostra-o como é, com carências e virtudes, anseios e desejos, medos e triunfos.

O jornalismo literário não cancela ninguém.

Talvez por isso, não mais se faça… Tenha passado de moda, não venda, não seja comprado. Mais uma razão para nele me fiar. Se dele apenas restam as biografias e pouco mais, é nelas que continuarei a pegar.

Depois de Sontag, Diários de Sylvia Plath, que nunca li, mas de quem tenho uns e-books à espera e que também conheci via Brain Pickings.

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Fiz outra promessa

14/03/2022

Enquanto não ler todas as versões traduzidas que tenho, das mulheres, bem entendido, três Austen e quatro Bronte, não compro mais. O cesto da Bertrand já ultrapassava os 50 paus. Os pendentes da outra promessa.

Dois homens.

E talvez os dois calhamaços do descontrolo do fim-de-semana…

Das traduções, faltam-me quase todas as Austen, as tais a 5€ cada, e algumas Bronte.

A um clique de distância, um perigo.

Tem de ser na base do chicote.

E doações, quem quer? Austen e Bronte no original inglês?

Também posso trocar todas as Jane Austen em inglês em duplicado (🇬🇧 🇬🇧) pelas versões em português…

 

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Mulheres

13/03/2022

Ando obcecada com mulheres, salvo seja. Só algumas. Do século 19. De tal maneira que comprei obras completas (mais ou menos) das manas Bronte e a Jane Austen. Aquelas edições num só (Austen) ou em vários volumes, numa caixa (Brontes).

O que quer dizer que tenho duas versões em inglês de alguns. Que doarei.

Descobri que cada uma das Bronte escreveu muito mais do que um livro.

E que a Jane Austen mais do que conhecia e pensei.

Não contente com isso, as versões que existem traduzidas em português do nosso. As traduções são excelentes e a Relógio de Água tem umas capas lindíssimas para as da Jane Austen, parecem quadros. De resto, exceto as edições especiais, as capas em português são pobrezinhas.

Quando vêm com fotos de filmes é de chorar.

Como não conseguia lembrar-me dos meus dados da Bertrand online, entrei numa, pedi dois, que era no fundo o que ia lá fazer: Ligações Perigosas e Lady Susan. Bem como o último da Jane Austen, que estava a escrever quando morreu, todos em português.

Para quem só lá ia para os clássicos – de domínio público, traduções de há não sei quantos anos, a quatro euros o livro – acabei com dois caríssimos (em português) nas mãos e que jamais compraria agora. De, ou sobre, duas (outras) mulheres. Mais novinhas…

Sontag (Pulitzer 2020) e os Diários de Sylvia Plath

Ontem, de um espaço que poderia ser meu, vim com uma Austen e uma Bronte, ambos traduzidos para português.

Temos de apoiar as livrarias de rua. As portuguesas, como a Bertrand. As Ler Devagar, Distopia, Menina e Moça, Lello, claro, e todas as outras livrarias de rua. Todas. E a língua portuguesa, de Portugal.

De resto, o Book Depository continua a ser meu fiel amigo.

De onde mais mando vir livros.

Estive uns dois ou três meses sem fazê-lo. Promessa que havia feito. Até ler os que me propus. Li outros além desses (dois estavam a acabar) e cumpri. Mais ou menos. Mais para mais… Tinha só comprado o Ulisses (caríssimo, última tradução portuguesa, cheia de notas), por causa do famoso “Monólogo da Molly”. Fluxo de consciência, como eu gosto. A minha forma preferida de escrever. A grande maioria, na verdade. O Jung diz que aprendeu mais sobre o feminino nesse monólogo do que durante toda a sua pesquisa pelo tema. O Dubliners estava lá ao lado, em português, e trouxe também.

De seis só me falta ler um e meio.

Com a desculpa de que é pesquisa, e é… O que me contive em dois meses, uma promessa de ano novo, destruí em 15 dias. Um descontrolo, mas, ainda assim, um enorme investimento. Os livros em papel não têm prazo de validade. Nem ficam sem bateria. Apenas ocupam mais espaço. Por isso, preciso de uma casa maior…

Dá-me ansiedade não ter o que ler.

O que não acontece há muito tempo. Muito menos será o caso nos próximos anos. Entre português e inglês, I got it covered.

Estou tão obcecada com as mulheres britânicas do século 18 que interrompi Walk the Invisible para vir aqui escrever isto.

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Voz

09/03/2022

Diz-se a todos os escritores e artistas em geral, nomeadamente aos que usam as palavras para criar, que precisam de encontrar a sua voz.

Quando perguntam a um escritor qual o momento em que percebeu que o seria, a grande maioria começa por falar das redações da escola, de ter boas notas nas mesmas. De escrever para o jornal da escola; ganhar concursos de escrita de contos. Há os que falam também em diários.

Eu escrevia cartas. Longas, de dez páginas, no mínimo.

A minha incontinência verbal vem de longe… No entanto, a minha cabeça sempre foi muito mais rápida do que a velocidade a que escrevo. E e faço-o muito rápido. Para não me esquecer de escrever tudo o que tenho para dizer. A minha letra é que era, e é…, o diabo…

Às vezes, quase impossível de decifrar pelos destinatários.  

Todos os livros que escrevi até agora são dirigidos, e dedicados, a alguém. Disse no outro dia a uma amiga que são como longas cartas. Tão grandes que tiveram de ser transformadas em livros…

Se tenho uma voz, é essa.

Escrevo como falo. Têm-mo dito várias vezes. Lembro-me do Tiago dizer, em relação ao Message in a Bottle, que nunca tinha lido nada parecido, muito menos igual: “uma longa conversa com o leitor”.

O próximo, que está em processo, será também escrito como se estivesse a falar com o destinatário, que é bem específico, no caso concreto, e cuja identidade será protegida, como foi noutros, exceto o último, por motivos óbvios.

O primeiro era para um destinatário imaginário. O segundo, uma série de cartas de remetentes diferentes, foi para o Sr. Freud.

Sempre adorei escrever cartas. E recebê-las.

Hoje, encontrei este texto belíssimo, sobre cartas que escrevemos e não mandamos. E tenho ainda mais pena que esse hábito se tenha perdido. As últimas que escrevi foram para o meu sobrinho, em 2010…

A juventude de hoje, habituada a posts de Instagram e a tweets, não lê um parágrafo de três frases.

É uma tristeza.

As cartas que escrevemos e (não) mandamos, como os meus livros, a nossa voz, são, no fundo, como os pensamentos da Sylvia Plath: her thoughts merely needed a place in the world, not a response.

É por isso que escrevo. Para que haja no mundo lugar para a minha voz. Lugar esse que será sempre, sempre nos livros. Nos meus e nos de todos quantos falam comigo, na mesma língua. Ainda que num idioma diferente, com as suas vozes únicas e preciosas.

No fundo, é sempre para nós que escrevemos. Cartas ou livros, enviadas ou guardados em gavetas, publicados ou por publicar.

E, com isso, apenas procuramos a nossa voz, o nosso lugar no mundo. Reconhecendo-nos dentro e fora de nós.

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Maturidade

10/02/2022

O maior sinal de maturidade que me ocorre é não discutir e dar abébias, sequer abrir a porta, para quem não é intelectualmente e emocionalmente honesto.

Para quem apenas quer discutir, só está bem em guerra e em conflito. Quando vê tudo mal à sua volta. 

O meu tema existencial é a conexão.

Não há conexão possível com quem age apenas de acordo com o seu próprio ego, não se permitindo ir mais além, nomeadamente à alma.

Ou com quem se move apenas e só por poder.

Quer ficar por cima, independentemente do que sente pelo outro e do que este sente. De onde vem, no que acredita e o move. Até do contexto, pessoal, familiar, profissional.

Chama-se infantilidade, não maturidade.

Gente para quem vale tudo, menos olhar para dentro e questionar-se. Que, entre o orgulho e tudo o resto, escolhe o orgulho. E nele permanece.

Não passa pelo “deixa lá isso”.

Não, faço questão de honrar o que sinto. De me dar tempo para que sare, de entender de onde vem a mágoa e o que foi pisado, normalmente, o que me é mais sagrado. O que me marcou para o resto da vida. A ferida mal cicatrizada.

Quem escarafuncha feridas emocionais alheias, é mau caráter e roça o psicopata.

Mas por, precisamente, maturar o assunto, resolvê-lo internamente, acalmar o coração, deixar a fúria passar. O  que tiver de prevalecer, prevalecerá. Desde que haja de parte a parte capacidade para ouvir.

Caso contrário, é andar para a frente.

Não sem antes verbalizar. Apropriar-me do que senti, como senti e respetivas consequências. De contrário, ainda que erradamente, é um sinal psíquico claro de que a porta para o abuso continua aberta de par em par. E este irá continuar até que digamos: basta.

Muitas vezes vemos apenas o que queremos ver. Por isso não vale a pena explicar o óbvio.

E, sempre que não há espaço para tentar ver o mundo pelos olhos dos outros, ou estes são incapazes de abrir esse flanco e se mostrar, é lamentar e seguir em frente.

Muitas vezes, na grande maioria delas, sequer há interesse.

Mas com esses não perco o meu tempo desde que nasci. Sequer consigo disfarçar. Limito-me a ir à minha vida.

Ainda caio na tentação algumas vezes, muito mais do que gostaria, mas não perdi a esperança. Até porque caio cada vez menos.

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Mind the Gap – Women

31/01/2022

“Have taught hundreds of young women, many of whom have gone into the arts, as did Jean, who went into classic dance. But many of the others had husbands who would not stand for that. Each of these women had to make a choice, and if she chose to knuckle down to what her husband wanted, that ended her adventure. It really did. Everything else then became a substitute. But the objective is to have your own adventure, not a substitute, and it is not by any means an easy thing to do.

They will have their families, and then, when they are fifty and their families have been launched, there they’ll be. And it was my intention to give them this spiritual message of how to read the world in the second half of life’s journey. That was a long time ago. I still know many of these women—twenty, thirty, or forty years later—and I hear unanimously, that my approach worked, that I gave them something that is now feeding this aspect of their lives.”

Joseph Campbell, in: Reflections on the art of living

Citação da imagem: atribuída a Arthur Miller

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Da vitimização à autorresponsabilização

29/01/2022

A vitimização é, provavelmente, um dos maiores, se não o maior, impedimento ao crescimento psíquico.

Individual e coletivo.

Não se trata de negar ou culpar a vítima, pelo que lhe aconteceu, muito menos pactuar com um crime, como é evidente.

Mas de identificar a vitimização como o principal definidor da nossa identidade.

Naquela relação do Bruno com a Liliana, fartei-me de ver gente dizer que ele é o manipulador e ela a manipulada. Como se esta não estivesse a gostar da atenção, do carinho e do afeto. Não tivesse voz, pernas para se afastar. Vontade própria e ali estivesse obrigada.

Não está, como, aliás, deveria ser óbvio.

Quando nos identificamos com o papel da vítima estamos, necessária e inconscientemente, a admitir que não temos qualquer poder em relação a nós mesmos. Ficando completamente nas mãos dos outros. E, ao contrário do que possa parecer, ambos, vítima e perseguidor, exercem poder e controlo um sobre o outro.

Não existe vítima sem perseguidor e vice-versa.

Quando paramos de nos ver como vítimas, não há perseguidor que vingue. Sequer chamamos a sua atenção. Ele sabe, intuitivamente, que não irá exercer qualquer influência sobre nós. Sequer perderá o seu tempo. A não ser que se sinta ameaçado. O que é muito evidente no coletivo.

Por outro lado, a toxicidade, a existir, é na relação, não nos protagonistas da mesma.

Por isso, tanto é tóxico o controlador quanto o controlado. Já que ambos impedem que o outro cresça em relação aos seus medos e necessidades individuais.

Exceção feita aos casos de narcisismo patológico, a obsessão, a possessividade, o ciúme, o controlo têm muito que ver com a insegurança de um dos membros do casal em relação aos sentimentos do outro. O não saber exatamente a medida do seu compromisso, do seu afeto e amor.

Que há um desequilíbrio emocional.

Por outro lado, o assédio mede-se, primeiro, pelo poder e controlo, agressão e invasão. De uma pessoa, ou grupo, em relação ao espaço (ao corpo, à cabeça, à individualidade) da outra.

Pressupõe que uma delas não queira ser invadida.

Não há assédio a partir do momento em que, por mais horrível que pareça, dois adultos – de igual para igual e em plena posse das suas faculdades mentais – negoceiam, estão um com o outro de livre e espontânea vontade.

Porque um e outro sentem que podem ganhar algo com isso.

Seja poder, status, um cargo profissional, a ilusão do amor, o jogo.

Assim, alguém que se identifica com o papel da vítima é sempre alguém que se acha menos (ou mais…) do que o outro. Depende dele para chegar mais longe. A isso chamamos co-dependência.

O problema está em acreditar que alguém que pretende exercer o seu poder sobre nós nos vai ajudar a chegar mais longe.

Quem se move por poder e controlo jamais está por nós, pelo nosso crescimento, sucesso, independência.

Por não saber viver de outra forma a não ser pelo domínio psicológico, físico e emocional.

Por isso, a vitimização é o maior impedimento ao crescimento e à evolução psíquica por nos fazer permanecer sempre na mesma posição, negando-nos autonomia, vontade própria, superação de medos, transcedência necessidades infantis, caprichos do ego.

Já a autorresponsabilização permite-nos olhar para uma relação em que estejamos, seja ela de que tipo for, e perceber porque aceitámos o que aceitámos. Ficámos onde ficámos, quisemos o que quisemos. O que nos levou a permanecer ali. Está por detrás disso: que vontade, desejo, necessidade? É para isso que serve o autoconhecimento.

A vitimização mantém-nos no complexo.

A autorresponsabilização leva-nos à totalidade do arquétipo. Ao seu lado solar e lunar. À integração do conteúdo psíquico que ficou preso no complexo e à superação do mesmo. Assumindo esse conteúdo, que até então estava sombrio, na consciência.

Lidando com ele, parando de o projetar nos demais.

Coletivamente, a vitimização leva-nos a pensar que precisamos de um salvador. Projetando todas as nossas valências em políticos, grupos, ídolos, parceiros amorosos, chefes, pessoas mais ou menos públicas.

Que apenas defendem os seus interesses pessoais, jamais os do conjunto. Como todos quantos se movem por poder e controlo.

Todos nós precisamos de um certo nível de poder e controlo sobre nós e a nossa própria vida, isso é saudável. O perigo está em apenas sabermos viver assim. Sobrepondo esse medo à experiência da vida. Que também inclui vulnerabilidade.

O poder e o controlo levam à tirania emocional. A vulnerabilidade à humanização.

Assim, a autorresponsabilização eleva-nos a outro patamar: em vez de co-dependentes, sejamos co-responsáveis: responsáveis para com os outros e não pelos outros.

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Coser

29/12/2021

Quisera um dia a minha avózinha, que Deus a tenha na sua santa paz, ensinar-me a coser. Deu-me até um estojo, que parecia de pele de cobra por fora, de veludo azul escuro por dentro, com os básicos da costura: tesourinha, dedal, agulha, alfinetes, umas coisas para as linhas.

Tentou uma vez, que me lembre…

Era criança, maria rapaz, como se dizia antigamente, agora não se pode… Artemis, era o arquétipo. Queria subir às árvores, andar lá fora, correr… Estar sentada horas dentro de casa, com o sol a brilhar janelas adentro, e uma quinta gigantesca para explorar, parecia-me uma imensa perda de tempo.

Até hoje, a única coisa que sei fazer é pregar botões e apertar calças, porque a minha mãe se fartou de o fazer. E, mesmo disso, já devo ter-me esquecido…

Acabei de me aperceber de que preciso de aprender a coser.

Não roupa, mas palavras. Na verdade, bocados de texto. Parágrafos, capítulos, uns aos outros com referências temporais e espaciais. Descrições e manobras de diversão para distrair as massas, em jeito de intervalo entre as pauladas existencialistas.

Para lhes dar continuidade.

Deixar pendências para resolver depois. Fazer dos capítulos uma linha contínua, como um filme, e não como numa série, com episódios independentes, em fragmentos, como tão bem definiu a Luisa.

O Pereira Coutinho chama-lhe carpintaria, mesmo à homem…

Fazer de um livro uma unidade harmónica, um todo, em vez de partes soltas, cada uma a puxar para o seu lado, isolando-se das outras e enfraquecendo-se por isso. Ou em guerra com elas, em vez de as ouvir.

Depois, leio Clarice, apetece-me atirar tudo para o ar e escrever o que e como me apetecer.

Escrevemos para nós, para dar sentido à existência. Quem nos lê depois, encontra o tal sentido para a sua, companhia, um espelho de si. Escrever serve para não nos matarmos de desespero, pela incompreensão do mundo racional, lógico, dos afazeres.

O que distingue arte de entretenimento.

A arte é o que jorra da alma, o entretenimento é o que nos distrai da vida.

A vida entedia-me porque me afasta da alma, da conexão com o todo, alimenta apenas uma parte da minha psique, o ego, a persona ou a sombra. Não gosto de viver aí. Por isso preciso da novidade, dos estímulos que me reconectam com o todo de mim. E odeio quando me acordam desse torpor.

Estava hesitante em publicar, que se lixe, é para isto que servem os blogs que já ninguém lê…

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Psicologia e Literatura

13/12/2021

Não conheço quem melhor combine psicologia e literatura do que o Hermann Hesse. Exímio contador de histórias, escritor, pintor, artista de mão cheia, e psicólogo.

Gostava de psicologia antes de lhe saber o nome. Adorava Hermann Hesse antes de o saber psicólogo. Falava comigo numa língua que só nós entendíamos. Como se partilhássemos a intimidade, a existência, mais ninguém me via, não tão completamente, pelo menos, quanto ele.

Por isso o nomeei meu escritor preferido.

Embora sempre tivesse gostado de histórias, a existência doía-me mais, não queria distrações, o entretenimento nunca me convenceu. Queria empatia, compaixão, cumplicidade. O Hermann Hesse aplacava um bocadinho essa dor, representava e cumpria esse papel na exata medida das minhas necessidades.

Exceção feita ao “Jogo das contas de vidro”, talvez por inicialmente incidir demasiado em matemática, li todos os livros que encontrei traduzidos em português. Contei-os no outro dia, são 27. Cada vez que ia ao King, abastecia-me na Assírio & Alvim. Hoje, depois da Difel ter sido engolida, entro naquele supermercado de livros chamado Fnac e se encontrar três são muitos.

Dizia eu que não conheço quem melhor fusione psicologia e literatura, que resumem basicamente a minha existência e o motivo pelo qual me apetece viver.

A Psicologia é o que me permite entender o mundo e a Literatura o INFP que há em mim Conhecer os nossos temas de vida e descobrir quem fala a nossa língua é dar vida à alma.

Ainda sem coragem para voltar a pegar no “Jogo das contas de vidro”, dedico-me aos autores fetiche do momento.

Ambos combinam magistralmente psicologia e literatura.

Com um viés completamente diferente do Hesse, têm o seu encanto, ambos são best sellers e um deles até já tem prémios para provar às massas o quanto é bom.

Richard Greene e Alain de Botton

Sim, voltei ao primeiro e leio compulsivamente o segundo.

Sempre fui assim, nunca, jamais poderiam faltar-me livros por desbravar. E, quando obceco com um autor, tenho sempre de ter garantidos uns exemplares por ler, para não ficar demasiado ansiosa.

O que aconteceu com Botton. Que leio como no tempo em que os verões eram intermináveis, durante horas, todas as que consigo. Depois dos dois primeiros, engolidos numa semana, e durante uma sessão de terapia, mandei vir mais três. Estou a meio do primeiro dessa leva, que tem uma capa linda e é simplesmente brilhante.

Embora tenham estilos completamente diferentes, os destes dois entre si, e o do Hermann Hesse, ambos falam comigo numa língua que apenas nós entendemos. Dizem, cada um à sua maneira, o que ainda não consigo articular, só sentir e intuir. Facilitam-me a existência neste mundo, dão-lhe o sentido que a minha alma há muito já conhece.

Botton cria histórias, como Hesse, mas a mestria com que introduz a psicologia nas mesmas não se compara. Embora, a cada página, me apaixone mais e mais por Botton. Hesse era artista, o que faz toda a diferença. Ainda que Botton seja muito original na forma como expõe as ideias na história: como terceiro elemento e  narrador omnipotente. Mais prático.

Hesse mais artístico e espiritual.

Greene narra histórias como ninguém, os exemplos da História e da Literatura, que usa para ilustrar o que quer passar, são histórias muitíssimo bem contadas, como só quem investigou profundamente o tema, e portanto se sente à vontade para tal, consegue. Sim, já fiz as pazes com ele. Depois da versão condensada das 48 leis do poder, entreguei-me de alma, coração e boa vontade a Mastery.

E não me arrependo.

De Greene, achava que já tinha consumido tudo o que havia para consumir. Mas, enquanto escrevia este texto, dei um salto ao Book Depository e afinal ainda há lá um que me acenou efusivamente, bem como um do Botton. Serão os últimos que comprarei, quer de um quer de outro. Já vi tudo e nada mais me interessa.

Literatura e Psicologia é também a minha forma de escrever. E, sempre que posso, junto-lhe poesia, que torna tudo mais mágico.

O grande objetivo é chegar à literatura e à poesia, sem que a psicologia e o existencialismo se escancarem, apenas se intuam, como uma segunda pele.

As obras destes dois autores são, na verdade e muito mais do que qualquer outra coisa, um meio de investigação e pesquisa. A pesquisa para mim tem de ser assim, criativa. Ou entedia-me de morte. Descobri-os por causa do livro que ando a escrever há ano e meio e ao qual não sabia o que fazer, mas agora já sei.

Os livros não se escrevem depressa, há outro a publicar em breve, e, só depois de esse estar devidamente encerrado, me dedicarei ao sexto. Não depende só de mim, tem o seu tempo, de maturação, de criação, de escrita, de desenvolvimento, de conclusão.

Menos mal que o Go tell the Bees that I am gone já saiu, tem 928 páginas…

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