Caxias com eles, já.

31/03/2021

Somos cada vez mais, todos os dias, sem medo de falar.

Há quem queira um novo apartheid. Em Portugal a expressão deste desejo tem tido várias vozes, havendo já quem defenda abertamente a limitação de direitos a quem não se queira vacinar, e mesmo o seu encarceramento num futuro próximo.

A história é conhecida e, temo, volta a repetir-se. Falo de se aproveitar uma questão sanitária para instalar, passo a passo, um regime cada vez mais totalitário. Este processo tem como fase intermédia e essencial a identificação clara e separação entre “bons” e “maus” cidadãos – nos dias de hoje, através do passaporte de vacinação, já com grande implantação (veja-se a ironia) em Israel, a terra dos judeus marcados com a estrela de David há 85 anos.

Hoje, os “maus” são os que não aceitam as regras e que constituem, segundo a narrativa, um perigo ambulante e iminente para a saúde pública – ou, para ser mais exacto, para a saúde dos “outros”, os “bons” cidadãos. Coisa estranha, esses cidadãos não suportarem viver com outros que não se querem vacinar, considerando (i) o baixíssimo risco da doença para quase toda a população e (ii) que eles estão protegidos quer com a vacina quer com as máscaras. (Sim, por eles a máscara ficará para sempre, não se iludam). E, por isso, os “maus” têm de ser confinados – ou pior. Sabemos quando a loucura humana começa, não sabemos onde e quando acaba, mas normalmente não acaba bem. A memória é infelizmente curta.

Os episódios seguintes desta narrativa – caso ela continue a avançar –  são conhecidos: limitar direitos a todos os que não se aceitem vacinar, proibi-los de ir à escola ou de trabalhar com outros; de ir aos supermercados; de aceder às contas bancárias (como forma de colocar “pressão adicional” para a vacinação); depois encarcerá-los bem longe, em edifícios e campos para isso preparados, porque mesmo o facto de viverem num prédio onde coabitam com outros cidadãos já vacinados representa perigo (afinal, os vizinhos podem cruzar-se nas escadas); enfim, proibir tudo o que for preciso para que se vacinem e sejam “bons cidadãos”; retirá-los da sociedade, do espaço partilhado, para um sítio onde não representem perigo. E, a seu tempo, quem sabe (novamente a loucura humana) considerar soluções mais radicais, tendo em conta o enorme custo para a sociedade que eles representarão (tê-los presos e alimentá-los custa muito dinheiro) e não deixando de considerar que, num tal cenário, a anestesia a que a população estaria sujeita permitiria muita coisa que hoje seria considerada “desumana” e “impensável”. Tal qual aconteceu com os Goulag e outros campos de concentração. [“Mas… os outros também faziam o mesmo… eu só cumpri ordens…”].

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