Uncategorized

Cemetry gates só dos Smiths

22/11/2012
Há uma miúda do meu twitter que vai morar para Paris, daí que começámos a falar de cemitérios. A princípio meio que me escapou o motivo, mas depois lá me lembrei do Père Lachaise e do Jim Morrison. Elas começaram a falar de uma série de artistas que estão enterrados nos cemitérios de Paris e lá me lembrei do Wilde também. 
Odeio cemitérios, comentei, só gosto dos americanos, aqueles de relva e cruzes brancas. Tenho uma péssima relação com a morte e não sei lidar com ela, até a palavra me causa incómodo, é um misto de ódio, medo e impotência, completamente irracional, os cemitérios causam-me arrepios, faz-me impressão aquele silêncio, por outro lado, acho um desrespeito horrível e incomoda-me imenso que se fale alto em cemitérios, é como fazê-lo em igrejas. Além disso, nos cemitérios, a minha imaginação fértil leva-me por caminhos não tão confortáveis assim. Jamais me apanhariam num sozinha, muito menos à noite, além de que não faço tenções de cultuar mortos de forma nenhuma. Acho tudo um horror, a frieza da pedra, os jazigos gigantes, o ambiente, tudo, tudo um horror. Trazem-me tudo menos paz, que é o que parece que trazem à maioria das pessoas. É como se a pedra agarrase a memória do sofrimento da perda, da dor. Paz traz-me o mar, enfim. 
No meio da conversa, o João Pedro, esse lindo, linkou um post dele sobre cemitérios e nesse momento, ao lê-lo, percebi porquê. O que odeio nos cemitérios, para além do que representam, é aquela sumptuosidade das campas, dos jazigos, das datas de nascimento e morte, tenho o hábito deprimente de fazer as contas pra saber com que idade aquela pessoa que está ali se foi embora, das caras das pessoas, do quanto maior melhor. O que eu odeio é a ostentação pós-mortem e o culto da mesma. É exatamente por essa razão que gosto dos de relva e cruzes brancas, não se vê nada, não se sente presença, peso, nada, é como se não houvessem corpos, mas apenas símbolos, as cruzes brancas, que representam almas. Em campo aberto, tudo cuidadinho, como se fosse um jardim, de almas, que são muito mais bonitas do que a imagem de corpos mortos a serem devorados por bichos. Odeio cemitérios e nem morta me apanham num… 

You Might Also Like

  • Ana 22/11/2012 at 10:06

    Percebo-te, e acredita, nunca consegui ir a um funeral, nem mesmo de familiares próximos. Já fui criticada por isso, mas para mim não é a ida ao cemitério que me faz sentir mais ou menos a partida de alguém. Não gosto, não consigo, é quase uma fobia. E também não me apanham lá nem morta.

    • Isa 22/11/2012 at 13:59

      u have balls girl… já fui infelizmente a vários, mas o drama é sempre o mesmo…

  • Pedro 22/11/2012 at 10:13

    Compreendo perfeitamente, sentia o mesmo até ter visitado o dos Prazeres, por questões profissionais (sim, sim, um dia explico). Pois que até não foi uma má experiência. O facto de se ter tornado um cemitério histórico, onde os enterramentos são muito pouco frequentes, faz com que a questão "está aqui gente morta" fique muito secundarizada.
    (acima de tudo a questão é como a

    • Isa 22/11/2012 at 14:01

      é pq nós vivemos como se fossemos imortais. e qd temos de lidar com ela, somoa apanhados de surpresa e encaramos a nossa própria condição. fora o sofrimento qu é a ideia de: nunca + vou ver aquela pessoa. é este nunca mais que me aterroriza…

  • trollofthenorth 22/11/2012 at 10:42

    É a história da minha vida, o medo da morte. Ganhei consciência para o facto de que vou morrer, com sorte, daqui a uns 30 ou 40 anos, numa estação de correios. Estava na fila para levantar uma encomenda e era dos dos velhos e reformados levantarem as reformas. Os cheiros, os olhares, e uma garrada de oxigénio a 2 metros fizeram o resto. Apercebi-me de que iria ser uma deles. Chorei e escondi o

    • Isa 22/11/2012 at 14:02

      criogenado? congelado? a mim que me queimem e me atirem ao mar…

  • papousse 22/11/2012 at 10:48

    Também partilho dessa miserável angústia.
    E do amor pela magnífica canção dos Smiths.

  • São João 22/11/2012 at 12:05

    É por essas e por outras que doei a minha carcaça à ciência. Nada de enterros nem de cemitérios.

  • error: Content is protected !!