Livre

Centro de Lisboa, agora, só em Janeiro.

25/11/2016

O tema interessava-me particularmente, principalmente a forma como iria desenvencilhar-se. Por isso, ontem fui à cidade ver uma exposição de um artista português que, para além de ser giro que se farta, desenha que é uma beleza, com alma e sentido de humor. Se isto não é o que faz do artista um bom artista, e de uma pessoa um ser humano dimariobelemgno desse nome, não sei o que será.

A inauguração começava às seis da tarde e a mim, a quem voltou a apetecer varrer as pessoas à minha frente com a primeira coisa que apanhe à mão, um guarda-chuva ou uma vara, tanto faz, de tão esquizofrénicas que já andam por causa da histeria consumista que antecede o Natal, e que lhes dá o direito de serem umas bestas umas para as outras, de se atropelarem e não pedirem desculpa, de se portarem como se estivessem na selva ou não comessem há um mês e estivéssemos em guerra e em escassez, decidi que ia e voltava de combóio, porque não estava para me irritar na selvajaria do trânsito lisboeta e arruinar a saúde a tentar estacionar, àquela hora, no centro da cidade.

Lisboa está bonita, há uma série de lojas às quais nunca tinha prestado atenção e que me encantaram a cada passo, moderna, mantendo a antiguidade dos prédios, iluminados e arranjados, o que faz da cidade um charme, para além de, de certa forma, original. Gosto muito desse contraste, do moderno com o antigo, desde que com bom gosto, naturalmente. Tem de encaixar umas coisas nas outras, a harmonia é fundamental. Vim praticamente enfeitiçada do metro do Chiado até cá acima quase ao Príncipe Real.

A exposição estava lotada, senti-me um bocado deslocada e o gajo maldisposto que há em mim, deixando-se abduzir pelo espírito da época, tratou logo de se perguntar o que seria pior, se uma sala cheia de intelectuais se uma cheia de artistas. A sensação do tenho de ir porque vai lá estar toda a gente, porque me interessa ser visto naquele sítio, naquele dia, de quero lá saber de vocês, eu vou ver este desenho colada a ele e que se lixem as pessoas que estão atrás e também querem ver, este descaso em que se tornaram os eventos públicos em que as pessoas se portam e agem como se estivessem em casa e aquilo fosse tudo delas, anda a irritar-me além da conta e talvez só agora me aperceba com propriedade o efeito que a cidade tem em mim. E do qual quero distância. Depois, chegaram as miúdas e tudo ficou mais tranquilo e ameno. Os desenhos do Mário são incríveis, as ideias dos acrílicos originais e a companhia tudo melhorou rapidamente.

O verão acabou sensivelmente há uma semana e ontem, à semelhança do que aconteceu noutros dias, choveu que foi uma beleza. Felizmente, vim preparada com o meu casaco sueco, se há povo que sabe fazer casacos são os suecos. A molha só não foi homérica por causa deles e deste maravilhoso e barato investimento que fiz aqui há umas semanas. As botas, outro maravilhoso investimento, desta vez na produção nacional, uma marca à qual não resisto, apesar de me levar o couro e o cabelo, revelou-se precioso. Ainda que não fossem as indicadas para a chuva, nem uma gota de água entrou nestes pezinhos de princesa, nem uma.

Achei, na minha inocência, que a chuva só caia em Lisboa, quando cheguei à estação aqui reparei que não, pelo contrário, chovia copiosamente, sem dó nem piedade. Táxis que é bom, nem um. Não tive outro remédio se não vir a pé até casa, uns bons 15 minutos debaixo de chuva e só pensava que quentinha estaria no meu carrinho novo, que é pequenino e bonitinho. Os jeans gelavam-me as pernas, o vento ameaçava arrancar-me o capuz do casaco, mas não conseguiu, achei que a mão quase me caía quando tive de o segurar um pouco, de tão gelado que estava o vento naquela chuva, mas era só. Tudo o resto, cabeça, tronco e pés, intactos, secos, impecáveis.

E valeu a pena ter saído de casa. A exposição encantou-me, a companhia maravilhosa e o jantar, num espaço só para nós quatro, delicioso.

Créditos Fotográficos

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  • Tiago 25/11/2016 at 13:18

    Ainda me mata essa nuvem de gente visitando exposições por ser “cool”. Não cobro entendimento de arte, até porque não entendo nada, mas se vai pelo menos que tente ver a arte.
    No mais, sair, amigos, jantares, sempre é bom, mesmo quando é ruim. =D

    • Isa 25/11/2016 at 13:33

      Meu, quase não dava para entrar lá dentro, tal eram os tamanhos dos egos das pessoas, deus me livre…

      Eu também não, e constrange-me imenso que quem não perceba nada, ou até mesmo perceba, pose de entendido. Arte é para apreciar, não para explicar, qualificar, racionalizar. Estragamos tudo quando racionalizamos. Bonito mesmo é a magia do simbolismo e os efeitos em nós. é a minha forma de comunicação preferida, embora tenda racionalizar demais.

      Sair, amigos, jantares, só intimistas, como foi o caso de ontem. A minha introversão ainda um dia me há de matar… :)

      • Tiago 25/11/2016 at 15:48

        Essa introversão e o medo de ser encontrado falecido há dias em casa “porque ele era assim mesmo, ficava enfurnado por dias, incomunicável”. rsrsrs

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