Livre

Cheia de nada

13/12/2015

Sinto-me impotente, presa, a palavras cheias de sentido e vazias de significado; a mãos estendidas, afetos concedidos e retirados, contidos, seguros, como um castigo. Sinto-me a sofrer e que um par de olhos me observa e me deixa assim, abandonada, largada, à mercê, como alguém que foi conquistada para ser abandonada depois. Como quem tira um doce da boca de uma criança e a deixa a salivar, quase num desespero, de quero mais e estou suficientemente cega para acreditar que só tu tens esse doce. Que o que me mata a sede, o que me nutre, a salvação, está na tua mão. Document5-cópia

A esperança cortada a machadadas de algodão, as mãos vazias, decepadas. O corpo exposto, a pele fria, quase azul.

Penso na ironia do destino, no poder que a razão não tem na presença da satisfação de necessidades básicas. Vender a alma ao diabo deve ser isto. Sinto-me estúpida, fraca, frágil, quase burra. Queria conhecer o artista que permitiu que me deixasse ir, quem foi a menina inocente que mora na minha cabeça e que sabia logo de caras que não havia presente nem futuro, e mesmo assim se deixou ficar. A menina que não resiste, que não desiste, que ainda não se conformou que ninguém a pode amar mais do que ela se ama a si mesma, que o trauma não tem cura, que um milésimo de segundo é suficiente para o acordar aos gritos e aos prantos, sem ninguém que o socorra, que faça uma festa na cabeça, lhe dê um beijo na testa, o abrace e ali fique, até que a sua respiração volte ao normal, sinal de que está adormecido.

Sem julgar, analisar, arranjar soluções, fugir, catalogar, justificar, projetar. Só sentir, dolorosamente, como tem de ser.

Choro, por ela, por essa menina linda e inocente, crente e esperançosa, de olhos grandes, onde moram lágrimas que parecem lagos, que habita no porão escuro da minha cabeça, deve estar cheia de medo, viver cheia de medo. Ao mesmo tempo, e aqui talvez esteja a fugir, tenho um orgulho imenso nela, na sua força, na sua esperança e acima de tudo no seu coração enorme, que nunca desiste, que é cada vez maior, quando podia ter-se encolhido tanto até ser apenas um ponto vermelho, atrofiado de tão espremido. Tenho de a deixar sofrer, chorar o que tiver de chorar, sentir o que tiver de sentir, expressar-se de acordo, como se ninguém estivesse a ver, como se ninguém estivesse a ouvir. Sem cair na tentação de lhe dar colo, de a proteger, apenas fico a ouvi-la e a vê-la, sem interferir, sem tentar amenizar o seu sofrimento. Apenas permitindo que ele exista, que ela exista, que a vida que há nela se manifeste, se solte, esbracejando, chorando, gritando de raiva e ódio, de frustração e de e ses.

Sem pena, sem constrangimento de espécie alguma, com empatia, apenas, com amor, todo o amor que houver nesta vida. Porque só com amor ela pode crescer forte, saudável e plena de vitalidade. Desculpa ter-te deixado trancada tanto tempo. Amo-te, nunca te esqueças disso.

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