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Chocolates, Montanhas Russas, Indiana Jones, Roupa Branca e Lobos.

13/03/2014

No outro dia estava a chover e, para me abrigar da chuva e evitar desfalecer de fome, as mulheres têm esta capacidade, a de fazer duas coisas ao mesmo tempo sem que nenhuma comprometa a outra, entrei numa3774048 Copenhagen que fica ali na Brigadeiro.

Se a minha vida fosse uma comédia romântica, aquele era o cenário perfeito para, ao ver-me ali sozinha, a tomar um capucino pequeno – os capucinos da Copenhagen são os melhores do mundo, vêm com pedaços de chocolate gigantescos de excelente qualidade, como todos os chocolates da marca – com a chuva a cair lá fora e tudo, me entrar um gajo pela porta adentro, giro, claro, os gajos dos filmes que abordam mulheres sozinhas a tomar coisas quentes em dias de chuva nunca são feios ou desinteressantes, perguntar se se podia sentar ali comigo, apesar de a Copenhagen estar completamente vazia, entabular conversa e começarmos um affair logo ali. Não literalmente ali, em cima da mesa, por causa das senhoras que trabalham na Copenhagen e por as mesas serem redondas e pequeninas, mas noutro lugar qualquer. Como a minha vida não é uma comédia romântica, não me apareceu gajo giro nenhum – nem mesmo o Santoro ou o Rodrigo Lombardi, que são quem se lambuza em chocolates nos anúncios da marca que passam na tv – tomei o capucino sozinha, o mais rápido que pude, abasteci-me de chocolates decentes e vim-me embora. Felizmente a chuva já tinha passado.
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Entrei no busão e, contrariamente ao que é costume, sentei-me no único lugar de onde se pode ver o trajeto sem interrupções. Em frente ao para-brisas, num lugar alto, sem qualquer banco a proteger-me. Achei que estava numa montanha russa, as coisas que se passam à nossa frente na estrada fazem-me perguntar-me como é que ainda não morremos todos. Nesta cidade com mais carros do que gente que paga eletricidade, os mesmos atravessam-se à nossa frente, um de um lado outro de outro, os autocarros andam a abrir, em descidas vertiginosas, e encostam-se de tal maneira ao da frente que acho sempre que vamos bater. Quis filmar, mas a cada vez que pegava no telefone para o fazer, encostávamo-nos de tal maneira que ficávamos sem grande visibilidade, só para as traseiras do busão da frente, o que não tem muito interesse. Maneiras que vão ter de acreditar em mim. O busão descia as ruas a uma velocidade estonteante, as luzinhas vinham de todas as direções, os carros também, e, ainda assim, os motoristas, ninjas que só eles, conseguem chegar sãos e salvos a casa todos os dias, é impressionante. Senti-me a maior aventureira do mundo, sentadinha num busão, como se estivesse numa montanha russa, sem cinto, ou até mesmo com o Indiana Jones, no meio da selva. As lianas eram os varões do busão, aos quais temos de nos agarrar como se estivéssemos a fazer kyte surf, a sensação é essa, só que em vez da possibilidade de levantar voo e ir pelos céus afora, sobrevoando montes, vales e elfos, o que pode acontecer, se não nos agarrarmos aos varões com unhas e até mesmo com dentes, é irmos bater com a cabeça sabe deus onde, ou sair disparados pelo vidro da frente. E quanto mais chove, mais rápido andam os autocarros. A minha vida pode não ser uma comédia romântica, mas é certamente uma grande animação.
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O meu mais recente ódio vai daqui direitinho pra máquina de lavar roupa. Adoro roupa branca, adoro. E em Portugal têm-se feito umas coisas jeitosas no quesito branco, roupa e qualidade da boa, comprei meia dúzia delas da última vez que estive em Lisboa. Traumatizada com roupa branca que fica de todas as cores menos branca, nomeadamente amarela e meio cinzenta, comprei vanish branco e é um fartote de vanish que enfio na roupa a cada vez que junto roupa branca o suficiente para fazer uma máquina. Correndo inclusive o risco de que a roupa se desfaça. Como não tenho tanta assim, demoro muito para o fazer. Ontem foi o dia e é sempre uma grande surpresa. Sei em que estado está quando a ponho na máquina, mas nunca sei em que estado vai sair. Um dos vestidos brancos que lá pus, estava sujo de o ter usado, não por me ter rebolado na lama com ele, ou por lhe despejado um litro de cerveja pra cima, saiu com uma mancha amarela enorme e que nem sequer lá estava quando o pus pra lavar. Ora, este é um fenómeno nunca antes visto, como é que uma coisa sai mais suja do que entrou é que eu gostaria de saber. Declaro ódio mortal à máquina da roupa desde já. E preparo-me para enfiar o vestido dentro de um balde, carregadinho de vanish e a água mais quente que conseguir, durante pelo menos dois dias. Estranhamente, as manchas saem se deixar a roupa dentro de um balde sem sequer a esfregar, mas não saem depois de terem sofrido sacões de toda a espécie dentro da máquina de lavar. Se os rios de São Paulo não se assemelhassem a um esgoto fétido e infecto, ia lavar as roupas brancas ao Tietê, esfregando-as na pedra e cantarolando a Aldeia da Roupa Branca. Tenho a certeza de que voltaria melhor servida. Ainda por cima, diz que cantar manda os espíritos embora. No entanto, cantaria com uma voz ligeiramente menos estridente, tenho voz rouca desde que nasci, já vos tinha dito? Antes dizia que tinha voz de bagaço, mas, pelo bem da minha sanidade mental, tenho evitado ver as coisas pela lente mais suja, vendo-as, analisando-as e adjetivando-as com outros olhos. Experimentem, faz milagres pela vossa vida. Voz rouca é sexy, voz de bagaço é depreciativo.
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E vocês, já fizeram alguma coisa de verdadeiramente útil pela vossa vida e foram ler as mulheres que correm com os lobos? Tenho a dizer-vos que, se fosse eu a mandar, incluiria o livro como leitura obrigatória na mais tenra idade, e depois no liceu e depois na faculdade. E uma vez, e outra, a cada 10 anos, pelo menos. Em particular o conto do patinho feio e respetivas interpretações. Para quem tem filhos acabados de nascer ou ainda pequenos, é obrigatório. A forma como a questão: “satisfaço a comunidade ou protejo o meu filho” está retratada é de se lhe tirar o chapéu. Deixo-vos um presente: um rejeitado nunca, nunca desiste:

Cuidemos aqui das questões íntimas da pessoa rejeitada, pois quando desenvolvemos uma força adequada — não uma força perfeita, mas uma força moderada e prática — para sermos nós mesmas e para descobrir a que grupo pertencemos, podemos então influenciar a comunidade exterior e a consciência cultural com perícia. O que é uma força moderada? Ela é a que temos quando nossa mãe interior não está cem por cento confiante acerca do que fazer em seguida. Uma confiança de setenta e cinco por cento já serve. Setenta e cinco por cento! é uma boa proporção. Lembre-se, dizemos que uma planta está em flor, quer os botões estejam meio abertos, abertos até três quartos, quer estejam totalmente abertos. […] Embora possamos interpretar a mãe na história como um símbolo da nossa própria mãe exterior, a maioria dos adultos tem agora uma mãe interior, como legado da sua mãe verdadeira. Trata-se de um aspecto da psique que atua e reage de um modo idêntico ao da experiência da infância de uma mulher com sua própria mãe. Além do mais, essa mãe interior compõe-se não só da experiência da mãe pessoal mas também de outras figuras maternas das nossas vidas, bem como das imagens da mãe boa e da mãe perversa exibidas pela nossa cultura na época da nossa infância. […] A mãe curva-se aos desejos da comunidade em vez de se alinhar a favor do filho. Até mesmo nos nossos dias, as mães ainda encenam os medos bem-fundados de séculos de antepassadas. Ser isolada da comunidade significa no mínimo ser ignorada e encarada com suspeita e, na pior das hipóteses, ser acossada e destruída. A mulher que viva num ambiente semelhante irá tentar moldar a filha para que esta aja de modo “conveniente” no mundo objetivo.
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No próximo dia de chuva, vou entrar numa livraria…

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