Livre

Chose Love, Chose Life.

07/05/2015

De todos os comportamentos autodestrutivos, de todos os vícios, o poder é o mais pernicioso. Como todos os vícios, preenche um vazio, dá uma sensação de controlo e, por inerência, de poder, é até afrodisíaco, mas não preenche a necessidade primeira, que não se coaduna com poder. A necessidade de amor, de ligação, de vínculo, de intimidade, de afeto, de contacto, de cuidado.

O vício do poder mata mais que o crack e a heroína juntos. Não olha a meios, ignora laços, não quer saber de vínculo, seja ele de que tipo for, familiar, afetivo, parental, até. Está na origem das guerras, na política dos Estados, dos Governos, está presente na dinâmica das famílias, nas relações afetivas e laborais. É o poder que é cego, não o amor. E é cego para tudo, absolutamente tudo, é devastador e está em todo o lado.

O vício de poder é uma dependência, como qualquer vício. Só que no caso do poder, ao contrário de outros vícios, a destruição é para fora. Quem fuma, bebe, mata-se sobretudo a si, quem está à sua volta sofre, claro, mas não morre, não se destrói. No caso do poder não, mata quem o exerce, mata-lhe a alma, mas também quem é vítima desse poder, muitas vezes inocentes, como no caso do Estado Islâmico, de crianças ou de incapazes. Os adultos, por serem adultos e capazes de gerir a própria vida e os seus relacionamentos, inclusive de pedir ajuda se precisarem de se restabelecer psicologicamente, são retirados da equação enquanto impotentes, precisamente por estarem em pé de igualdade em relação a outros adultos, já que têm sempre a hipótese de escolher. E se escolhem ficar, a responsabilidade pela situação em que vivem é de ambos.

Como em tudo, só existe poder se houver como o exercer, se houver um alvo, alguém disposto a dominar e a ser dominado, na mesma medida, mas não da mesma forma, as vítimas, os salvadores e os predadores, ou perseguidores, são os melhores exemplos.

Aparentemente, quem domina é o perseguidor e/ou o salvador, mas estes encontram-se tão dominados pela vítima quanto ela por eles, ambos precisam um do outro ou o poder não se exerce. É por isso que muitas vezes vemos pessoas em situações de violência, física e/ou psicológica, mas que não se separam, vivendo em co-dependência.

Vale lembrar que o perseguidor e o salvador também se consideram vítimas, optam é, na grande maioria das vezes, por um comportamento mais ativo do que passivo. E que todos se anulam, porque se controlam mutuamente.

É só trocar as posições, a questão é sempre a mesma, poder e controlo. Para que eu seja vítima, o estatuto a que me votei, tenho de ter um perseguidor, um salvador, ou a minha existência não se justifica, quem sou eu além do estatuto da vítima? Do salvador? Do perseguidor?

É aí que o vazio se instala e é difícil lidar com ele, por isso permanecemos em relações de poder e co-dependência uma vida inteira. Por confundirmos a nossa identidade total com apenas um estatuto, seja lá ele qual for.

O vício do poder impede o amor, já diria Jung, “onde o amor impera não há necessidade de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”.

A crueldade é o expoente máximo do poder, seja ela física, matando milhares de pessoas como no caso do Estado Islâmico, seja psicológica, que, como é invisível, apenas emocionalmente sentida, é mais difícil de detetar, mas causa danos muitas vezes irreversíveis.

Não dá para amar toda a gente, presencialmente, pelo menos, a prioridade temos de ser nós, a nossa sobrevivência está em causa, afinal, mas dá para sentir compaixão, e muita, por quem acredita que só consegue relacionar-se exercendo poder sobre os demais, fazendo o que for preciso para os dominar, os controlar. É preciso ser muito, muito infeliz para viver assim. É preciso odiar-se muito para viver assim.

O poder é uma doença mental, como tantas outras. E se até determinada altura da vida precisamos de fortalecer o ego, faz parte, o ego não pode muito menos deve ser destruído ou anulado, chega um momento em que precisamos forçosamente de unir os opostos que há em nós. E é no alinhamento do ego com o Self que está o segredo, o ego estar ao serviço do Self, e não o contrário.

O amor é o que nos salva, o poder o que nos destrói, nos mata em vida, a todos, sem exceção.

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